{"id":1103054,"date":"2020-05-10T03:50:44","date_gmt":"2020-05-10T02:50:44","guid":{"rendered":"https:\/\/www.pressenza.com\/?p=1103054"},"modified":"2020-05-10T00:54:37","modified_gmt":"2020-05-09T23:54:37","slug":"o-farol-de-robert-eggers-e-a-sua-rede-de-arrasto","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.pressenza.com\/pt-pt\/2020\/05\/o-farol-de-robert-eggers-e-a-sua-rede-de-arrasto\/","title":{"rendered":"O farol, de Robert Eggers, e a sua rede de arrasto"},"content":{"rendered":"<h5><span style=\"color: #999999;\">CINEMA<\/span><\/h5>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Vamos come\u00e7ar pelo b\u00e1sico: a constata\u00e7\u00e3o da excel\u00eancia de O Farol <em>(The Lighthouse)<\/em>, de Robert Eggers, no que diz respeito aos aspectos t\u00e9cnicos. A fotografia, o cen\u00e1rio e a ambienta\u00e7\u00e3o, a maquiagem, o figurino, os atores, tudo beira ao impec\u00e1vel. Por\u00e9m, cada vez mais, isso \u00e9 o que se espera da maioria das produ\u00e7\u00f5es da ind\u00fastria cinematogr\u00e1fica norte-americana, aonde recursos financeiros e m\u00e3o de obra especializada n\u00e3o costumam ser problema (mesmo em se tratando de uma produ\u00e7\u00e3o <em>indie<\/em>). Como j\u00e1 assinalamos em outras oportunidades, filmes bem filmados s\u00e3o regra hoje em dia, tanto devido ao dom\u00ednio que a atual gera\u00e7\u00e3o de cineastas possui das t\u00e9cnicas cinematogr\u00e1ficas, quanto pelo exponencial aumento dos recursos tecnol\u00f3gicos. Portanto, essa constata\u00e7\u00e3o a respeito da qualidade t\u00e9cnica de um filme n\u00e3o basta para elev\u00e1-lo ao patamar de grande obra. Hoje, essa excel\u00eancia t\u00e9cnica \u00e9 quase uma obriga\u00e7\u00e3o, em se tratando de certas produ\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>A pergunta que se faz agora \u00e9: O Farol, para al\u00e9m de seus evidentes atributos t\u00e9cnicos, faz jus \u00e0 euforia com que foi recebido pela maior parte da cr\u00edtica?\u00a0 O que afinal encantou tanto os espectadores?<\/p>\n<p>Voltemos aos aspectos t\u00e9cnicos, focando agora nos elementos de linguagem. Em termos formais, o filme parece sa\u00eddo de uma escola de cinema. Todos os elementos destacados em aulas de cinema hoje em dia est\u00e3o ali, \u201ccorretamente\u201d utilizados, como se fossem extra\u00eddos de um manual. Os enquadramentos, os movimentos de c\u00e2mera, os cortes, a utiliza\u00e7\u00e3o da luz, o desenho de som, tudo aplicado dentro das expectativas. Qualquer professor ficaria orgulhoso do seu aluno. Um <em>tcc<\/em> nota dez. O Farol, nesse sentido, funciona como um excelente cart\u00e3o de apresenta\u00e7\u00e3o de Robert Eggers \u00e0 ind\u00fastria. O rapaz sabe filmar, sabe usar os diversos recursos t\u00e9cnicos e de linguagem, sabe citar com precis\u00e3o suas refer\u00eancias. Aronofski que se cuide.<\/p>\n<p>Bom, \u00e9 justamente a\u00ed que come\u00e7am os problemas. A \u201ccorreta\u201d utiliza\u00e7\u00e3o dos aspectos formais esconde uma total falta de ousadia. O talento de Eggers, pelo menos nesse filme, se manifesta como a capacidade de usar os recursos da maneira que se espera que sejam usados. Retorno \u00e0 met\u00e1fora escolar, \u00e9 como tirar dez numa prova, o que n\u00e3o torna o conte\u00fado da prova criativo, apenas atesta que o aluno domina o assunto. Certos recursos usados por Eggers refor\u00e7am essa \u201ccorreta\u201d utiliza\u00e7\u00e3o da linguagem, alguns deles j\u00e1 bastante recorrentes em filmes recentes, tais como: a fotografia em preto e branco, com textura antiga, imprimindo um clima on\u00edrico \u00e0s imagens; a janela num formato quase quadrado (1.19:1) para criar uma sensa\u00e7\u00e3o claustrof\u00f3bica; a luz, ora derivando do expressionismo alem\u00e3o, ora do preto e branco antirrealista t\u00edpico do cinema do Leste Europeu, refor\u00e7ando a dualidade sugerida na personalidade dos personagens; no desenho de som,\u00a0 a estrat\u00e9gia de amplificar e massificar certos ru\u00eddos para aumentar a tens\u00e3o ou criar inc\u00f4modo etc. Em O Farol \u00e9 poss\u00edvel identificar com facilidade as \u201cfontes\u201d aonde Eggers se abastece. Cada plano remete, de imediato, a algum filme ou diretor, e a lista \u00e9 imensa. S\u00f3 pra registrar, seguem alguns nomes que s\u00e3o citados como influ\u00eancia nas diversas resenhas cr\u00edticas publicadas: Murnau, Flaherty, Fritz Lang, Hitchcock, Kalatozov, Bergman, Kubrick, Tarkovski, B\u00e8la Tarr e por a\u00ed vai.<\/p>\n<p>Essa constata\u00e7\u00e3o sobre o formalismo do filme serve como ponto de partida para a elucida\u00e7\u00e3o do fasc\u00ednio causado por O Farol. O reconhecimento das cita\u00e7\u00f5es, das refer\u00eancias, causa um efeito de \u201cempoderamento\u201d nos espectadores (cr\u00edticos ou n\u00e3o), que passam a se identificar com o filme na medida em que seus conhecimentos cin\u00e9filos s\u00e3o correspondidos. Uma verdadeira massagem no ego de quem assiste, gerando um efeito especular.<\/p>\n<p>O roteiro segue o mesmo procedimento. \u00c9 um turbilh\u00e3o de refer\u00eancias que engloba um cabedal impressionante. Literatura de l\u00edngua inglesa do s\u00e9culo XIX, in\u00edcio do s\u00e9culo XX (em especial, a literatura fant\u00e1stica), trag\u00e9dia grega, mitologia e psican\u00e1lise est\u00e3o entre as refer\u00eancias mais presentes. No que diz respeito \u00e0 literatura, o m\u00e9todo \u00e9 muito pr\u00f3ximo ao do formalismo da linguagem. A quantidade de cita\u00e7\u00f5es n\u00e3o deixa praticamente ningu\u00e9m de fora. Mais uma vez, elenco a seguir alguns autores e obras citadas nas resenhas: A volta do parafuso, Henry James; O Chamado de Cthulhu, H.P. Lovecraft; Balada do Velho Marinheiro, Samuel Taylor Coleridge; O Relato de Arthur Gordon Pym e O Corvo, E. A. Poe; A Ilha do Tesouro, Robert Louis Stevenson; Moby Dick, Herman Melville etc. Os sentimentos de identifica\u00e7\u00e3o e, consequentemente, de admira\u00e7\u00e3o, s\u00e3o ampliados a cada <em>easter egg<\/em> descoberto.<\/p>\n<p>Mas a quest\u00e3o principal n\u00e3o se encontra no fato do filme usar refer\u00eancias ou cita\u00e7\u00f5es. Qualquer meio de express\u00e3o art\u00edstica trabalha com refer\u00eancias e cita\u00e7\u00f5es. O di\u00e1logo com outras obras, autores e formas de express\u00e3o \u00e9 uma condi\u00e7\u00e3o quase irremov\u00edvel da Arte. O problema \u00e9 a maneira como essas refer\u00eancias e cita\u00e7\u00f5es aparecem em O Farol. Al\u00e9m de exageradas, elas s\u00e3o \u00f3bvias e superficiais. As situa\u00e7\u00f5es, os epis\u00f3dios, as passagens, assim como os simbolismos resgatados da literatura, da mitologia, da trag\u00e9dia ou da psican\u00e1lise s\u00e3o os mais banais poss\u00edveis, verdadeiros lugares-comuns que habitam o imagin\u00e1rio do leitor\/espectador m\u00e9dio. Um verdadeiro <em>tour de force<\/em> na dire\u00e7\u00e3o de uma erudi\u00e7\u00e3o prosaica. Poder\u00edamos percorrer sequ\u00eancia por sequ\u00eancia do filme identificando, sem muito esfor\u00e7o, as correla\u00e7\u00f5es que Eggers imp\u00f5e ao espectador. Certas passagens chegam a ser constrangedoras tal o grau de didatismo que carregam: o farol-falo (citado explicitamente por Eggers em uma entrevista); o homoerotismo reprimido, que ap\u00f3s uma dan\u00e7a com os dois b\u00eabados e abra\u00e7ados termina em pugilato (mais singelo imposs\u00edvel); a pontua\u00e7\u00e3o constante do corpo masculino em situa\u00e7\u00f5es lineares tais como o esfor\u00e7o f\u00edsico, a gritaria, o entorpecimento a partir da bebida, a flatul\u00eancia do velho capit\u00e3o, a masturba\u00e7\u00e3o do novo aprendiz, penicos de fezes, urina e sangue; a natureza como um terceiro elemento, personifica\u00e7\u00e3o de for\u00e7as insond\u00e1veis e indom\u00e1veis, seja na presen\u00e7a constante do vento, na f\u00faria do mar ou na amea\u00e7a irracional dos animais, em especial as gaivotas (os p\u00e1ssaros, sempre eles). Alguns outros elementos corriqueiros poderiam ser acrescidos a essa lista, mas nada supera a apresenta\u00e7\u00e3o colegial da mitologia e da trag\u00e9dia. O velho, encarnado como Proteu, seja enquanto monstro marinho ou como pastor dos mares, e o aprendiz personificado como Prometeu s\u00e3o, na mesma medida, de uma pretens\u00e3o e de uma trivialidade gigantescas. A sequ\u00eancia final, quando o aprendiz finalmente encara a \u201cluz\u201d e, por meio de uma elipse, aparece nu, nas pedras, com gaivotas devorando o seu f\u00edgado, parece extra\u00edda de verbetes da Enciclop\u00e9dia Brit\u00e2nica, e pior, n\u00e3o acrescenta nada de espec\u00edfico ao filme, poderia ser a reprodu\u00e7\u00e3o do mito de \u00cdcaro, com seu v\u00f4o em dire\u00e7\u00e3o ao Sol, ou at\u00e9 mesmo do Mito da Caverna, de Plat\u00e3o, que n\u00e3o faria diferen\u00e7a. Se no aspecto formal O Farol \u00e9 acad\u00eamico, no que diz respeito ao conte\u00fado \u00e9 enciclop\u00e9dico. As in\u00fameras refer\u00eancias na linguagem e no roteiro s\u00e3o como verbetes, desconectados de um \u201cpensamento\u201d que os abarque, \u00e9 como ler uma enciclop\u00e9dia, v\u00e1rios temas s\u00e3o superficialmente apresentados. O fasc\u00ednio pela cita\u00e7\u00e3o, seja na linguagem, seja no roteiro, resulta est\u00e9ril. As situa\u00e7\u00f5es abordadas em O Farol j\u00e1 foram discutidas de maneira muito mais complexa em outras obras. Nenhum avan\u00e7o, apenas men\u00e7\u00f5es a quest\u00f5es j\u00e1 estabelecidas. A rea\u00e7\u00e3o da cr\u00edtica, de certa forma, acompanha essa abordagem, pois dez entre 10 resenhas que tive oportunidade de ler, ao se referirem ao plano final, usam o coment\u00e1rio definitivo: \u201cPrometeu roubou o fogo dos deuses para d\u00e1-lo aos homens\u201d. Mais Enciclop\u00e9dia Brit\u00e2nica.<\/p>\n<p>O Farol parece um Tarantino da \u201calta cultura\u201d, com um <em>pout pourri<\/em> fren\u00e9tico de refer\u00eancias e cita\u00e7\u00f5es atreladas a uma narrativa ma\u00e7ante. Em determinado momento, quando o enfado j\u00e1 havia tomado conta, a maneira de me manter focado no que passava na tela era esperar pelo pr\u00f3ximo plano para identificar a cita\u00e7\u00e3o, e nesse quesito o filme n\u00e3o decepcionou, cada plano uma nova refer\u00eancia, ou, como diz o ditado popular, cada enxadada uma minhoca. A vantagem dos filmes de Tarantino \u00e9 que a cultura pop \u00e9 autorreferente, logo, n\u00e3o importa o caminho tomado, o destino \u00e9 sempre o mesmo. J\u00e1 em O Farol a rede de arrasto lan\u00e7ada por Eggers traz \u00e0 tona uma infinidade de situa\u00e7\u00f5es que n\u00e3o conseguem encontrar um rumo. Em v\u00e1rias resenhas cr\u00edticas h\u00e1 a tentativa de extrair algo mais da enxurrada de refer\u00eancias e cita\u00e7\u00f5es de O Farol, mas as tentativas caem num pueril ricamente ilustrado. As apostas s\u00e3o as mais variadas: o filme seria, no fundo, a representa\u00e7\u00e3o de um embate entre Proteu e Prometeu (hein?); seria um ensaio sobre a masculinidade t\u00f3xica; seria, na verdade, um pesadelo; os dois personagens seriam a mesma pessoa em tempos diferentes (id\u00e9ia obviamente especulada a partir da insinua\u00e7\u00e3o de mais um tema caro \u00e0 literatura do s\u00e9culo XIX, a quest\u00e3o do duplo, j\u00e1 que em determinado momento ocorre a revela\u00e7\u00e3o de que ambos tem o mesmo nome); ou ainda, se trataria do dom\u00ednio da loucura. Todas essas tentativas caem no vazio pela total dispers\u00e3o das refer\u00eancias e cita\u00e7\u00f5es, o que faz com que os conceitos sejam tratados como valores em si, completamente descontextualizados. As eventuais exegeses s\u00e3o t\u00e3o abrangentes que debilitam o filme como portador de uma imagem do mundo. Afinal, a loucura, o pesadelo, a masculinidade s\u00f3 manifestam significa\u00e7\u00e3o quando contrapostos a um axioma precedente.<\/p>\n<p>N\u00e3o se trata aqui de exigir um fechamento, uma conclus\u00e3o. Eggers, ao que parece, leu Tzvetan Todorov e sabe que umas das principais caracter\u00edsticas do g\u00eanero fant\u00e1stico frente ao estranho e ao maravilhoso \u00e9 a manuten\u00e7\u00e3o do inexplic\u00e1vel, a manuten\u00e7\u00e3o da hesita\u00e7\u00e3o do leitor\/espectador. Contudo, um agrupamento de signos n\u00e3o forma, necessariamente, uma cadeia significante; um amontoado de conceitos n\u00e3o engendra, obrigatoriamente, um plano de consist\u00eancia; assim como o empilhamento de cita\u00e7\u00f5es e refer\u00eancias n\u00e3o gera, espontaneamente, uma obra de arte.<\/p>\n<p>Talvez, parte da cr\u00edtica tenha se precipitado ao utilizar a denomina\u00e7\u00e3o p\u00f3s-moderno para caracterizar o cinema feito nos anos 1980 e 1990. Algumas caracter\u00edsticas foram listadas e imediatamente aplicadas a grande parte da produ\u00e7\u00e3o cinematogr\u00e1fica daquele per\u00edodo, com destaque para o rompimento com o g\u00eanero, abarcando diversas tem\u00e1ticas e estilos, e o \u201cgosto da cita\u00e7\u00e3o, da intertextualidade em geral\u201d (Aumont). Por\u00e9m, essas caracter\u00edsticas apareciam naqueles filmes mais como uma rea\u00e7\u00e3o ao moderno do que propriamente um p\u00f3s-moderno como uma mudan\u00e7a de paradigma. Possivelmente, o cinema p\u00f3s-moderno pleno, encarnando, ao mesmo tempo, um estilo e uma \u00e9poca, s\u00f3 agora esteja se realizando em filmes como O Farol, Roma (Cuar\u00f3n), A Forma d\u2019\u00c1gua (del Toro) etc., que ao se distanciarem do maneirismo reativo atribu\u00eddo aos filmes das d\u00e9cadas de 1980 e 1990, personificam um novo tipo de maneirismo, consolidado enquanto linguagem. Definitivamente, j\u00e1 n\u00e3o se trata mais do cinema moderno, mas ainda n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel saber exatamente do que se trata.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>CINEMA &nbsp; &nbsp; Vamos come\u00e7ar pelo b\u00e1sico: a constata\u00e7\u00e3o da excel\u00eancia de O Farol (The Lighthouse), de Robert Eggers, no que diz respeito aos aspectos t\u00e9cnicos. 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