{"id":1075616,"date":"2020-04-03T22:31:07","date_gmt":"2020-04-03T21:31:07","guid":{"rendered":"https:\/\/www.pressenza.com\/?p=1075616"},"modified":"2020-04-03T22:31:07","modified_gmt":"2020-04-03T21:31:07","slug":"febril-industria-do-virus-uma-mina-de-ouro-para-os-laboratorios","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.pressenza.com\/pt-pt\/2020\/04\/febril-industria-do-virus-uma-mina-de-ouro-para-os-laboratorios\/","title":{"rendered":"Febril ind\u00fastria do v\u00edrus: Uma mina de ouro para os laborat\u00f3rios"},"content":{"rendered":"<p><em>Por<strong> Quentin Ravelli\/Le Monde Diplomatique Brasil<\/strong><\/em><\/p>\n<p><strong>A Fran\u00e7a revelou-se incapaz rastrear maci\u00e7amente os doentes com Covid-19, revelando a depend\u00eancia da sa\u00fade p\u00fablica em rela\u00e7\u00e3o aos laborat\u00f3rios privados<\/strong><\/p>\n<p>As crises econ\u00f4micas s\u00e3o t\u00e3o seletivas quanto as epidemias: em meados de mar\u00e7o, enquanto as Bolsas de Valores entravam em colapso, as a\u00e7\u00f5es dos laborat\u00f3rios farmac\u00eauticos Gilead subiam 20% ap\u00f3s o an\u00fancio dos testes cl\u00ednicos do remdesivir contra a Covid-19. As da Inovio Pharmaceuticals aumentavam 200% ap\u00f3s o an\u00fancio de uma vacina experimental, a INO-4800. As da Alpha Pro Tech, fabricante de m\u00e1scaras de prote\u00e7\u00e3o, saltaram 232%. Quanto \u00e0s a\u00e7\u00f5es da Co-Diagnostics, subiram mais de 1.370% gra\u00e7as ao seu kit de diagn\u00f3stico molecular do Coronav\u00edrus 2 da S\u00edndrome Respirat\u00f3ria Aguda Grave (Sars-Cov-2), respons\u00e1vel pela pandemia de Covid-19.<\/p>\n<p>Como explicar que, no centro da turbul\u00eancia, seja poss\u00edvel enriquecer assim, mesmo quando h\u00e1 falta de m\u00e1scaras de prote\u00e7\u00e3o, inclusive para os m\u00e9dicos e para as equipes de enfermagem, e os testes de triagem permanecem inacess\u00edveis \u00e0 grande maioria ap\u00f3s tr\u00eas meses de epidemia? Por que esses testes est\u00e3o no centro do debate global, da Coreia do Sul aos Estados Unidos, passando pela Alemanha, Austr\u00e1lia e Lombardia, mas continuam sendo cuidadosamente evitados na Fran\u00e7a, onde o diretor-geral de Sa\u00fade, J\u00e9r\u00f4me Salomon, s\u00f3 considera seu uso maci\u00e7o \u201cno final do confinamento\u201d? Ao contr\u00e1rio dos an\u00fancios do governo, longe de ser uma guerra contra um v\u00edrus cuja \u00fanica arma seria a quarentena, a batalha diz respeito \u00e0 nossa pr\u00f3pria organiza\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica e social. \u00c9 uma crise de nossa pol\u00edtica de sa\u00fade, pesquisa e produ\u00e7\u00e3o, na qual a ind\u00fastria farmac\u00eautica desempenha um papel central, mas cuidadosamente mantido a dist\u00e2ncia do debate p\u00fablico.<\/p>\n<p>Nas \u00faltimas semanas, a pandemia de coronav\u00edrus revelou as falhas de um modelo social baseado na ideia da rentabilidade econ\u00f4mica da sa\u00fade, justificando cortes or\u00e7ament\u00e1rios cada vez mais restritivos para funcion\u00e1rios e pacientes. Na Fran\u00e7a, com a satura\u00e7\u00e3o das salas de reanima\u00e7\u00e3o e dos servi\u00e7os de emerg\u00eancia, j\u00e1 lutando h\u00e1 meses no coletivo Inter-urgences para pedir mais recursos, os profissionais devem fazer escolhas dram\u00e1ticas entre os cuidados vitais, cuja lista est\u00e1 diminuindo, e aqueles que s\u00e3o sacrificados, sempre mais numerosos. Em alguns casos, como na Als\u00e1cia, a quest\u00e3o j\u00e1 passa a ser quem deve ser mantido vivo e quem se deve deixar morrer. Mas como explicar que, em 22 de mar\u00e7o, j\u00e1 houvesse 271 mortos na regi\u00e3o do Grande Leste, enquanto a poucos passos de dist\u00e2ncia, do outro lado do Reno, em Baden-W\u00fcrttemberg, onde a popula\u00e7\u00e3o \u00e9 duas vezes maior e a epidemia mais precoce, houvesse apenas 23, ou seja, mais de dez vezes menos?<\/p>\n<p>Uma das respostas a essa pergunta pode ser encontrada no papel pol\u00edtico que a ind\u00fastria farmac\u00eautica desempenha em nossos sistemas de sa\u00fade. \u00c9 ela quem produz as ferramentas que permitem fazer a triagem do v\u00edrus, nos vacinar contra ele ou trat\u00e1-lo. Ainda que a Fran\u00e7a seja extremamente carente dos kits de triagem \u2013 cuja tecnologia por rea\u00e7\u00e3o de polimerase em cadeia (PCR) identifica o v\u00edrus amplificando seu DNA \u2013, estes s\u00e3o, no entanto, simples de fabricar. Muitas empresas se lan\u00e7aram nesse mercado colossal, que acaba de emergir como um g\u00eaiser: Abbott, Quiagen, Quest Diagnostics, Thermo Fischer, Roche, BioM\u00e9rieux\u2026 A t\u00e9cnica \u00e9 barata \u2013 cerca de 12 euros por um kit vendido por 112 euros na Fran\u00e7a, dos quais 54 euros cobrados dos pacientes. No entanto, ela pode ser objeto de acordos tarif\u00e1rios proibitivos em um contexto de monopoliza\u00e7\u00e3o do mercado entre algumas grandes empresas, como Abbott ou Roche, que vende plataformas tecnol\u00f3gicas caras a laborat\u00f3rios menores.(1)<\/p>\n<h4>Mais pesquisas sobre obesidade que infec\u00e7\u00f5es<\/h4>\n<p>Mesmo com essas limita\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas, como explicar que a Fran\u00e7a tenha realizado, em 20 de mar\u00e7o, quase metade do n\u00famero de testes por milh\u00e3o de habitantes que o Ir\u00e3 ou a \u00c1ustria? Que, com menos de 40 mil testes realizados at\u00e9 essa data, esteja muito atr\u00e1s dos 316.644 da Coreia do Sul, dos 167 mil da Alemanha, dos 143.619 da R\u00fassia ou dos 113.615 da Austr\u00e1lia?(2) Na Coreia do Sul, as pessoas podem ser testadas no carro ou em cabines de vidro, onde os profissionais colhem amostras com luvas de borracha. A triagem sistem\u00e1tica, acompanhada do monitoramento de cada pessoa infectada, possibilita romper as cadeias de transmiss\u00e3o, isolando aqueles que est\u00e3o doentes, e n\u00e3o os outros. Consequentemente, as medidas de confinamento s\u00e3o muito menos restritivas, a taxa de mortalidade dos pacientes positivos \u00e9 mais baixa e, acima de tudo, o n\u00famero de mortes \u00e9 bem menos elevado que na Fran\u00e7a, apesar da proximidade do foco infeccioso chin\u00eas.<\/p>\n<p>Se a triagem \u00e9 um dos pontos cegos da luta francesa contra a epidemia, tamb\u00e9m existe outro ponto cego no interior deste: a escassez de\u00a0reagentes, esses componentes qu\u00edmicos essenciais para a triagem, que atestam a presen\u00e7a do v\u00edrus. Dessas mol\u00e9culas quase nada se sabe: nem de onde elas v\u00eam, nem para que servem, nem quanto custam realmente. Por que n\u00e3o levantar todos os segredos industriais, todos os segredos comerciais e todas as patentes sobre a composi\u00e7\u00e3o desses reagentes t\u00e3o preciosos para a sa\u00fade de bilh\u00f5es de seres humanos, e conscientizar o p\u00fablico sobre a origem de suas mat\u00e9rias-primas, bem como sobre as vias de sua fabrica\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p>Al\u00e9m da triagem, a segunda arma essencial nessa guerra \u00e9 a da droga que permitiria curar a Covid-19. De acordo com um an\u00fancio do governo chin\u00eas, o favipiravir \u2013 o princ\u00edpio ativo do antigripal Avigan, produzido pela empresa japonesa Fujifilm \u2013 teria dado \u201cresultados muito bons\u201d contra o v\u00edrus, reduzindo o tempo de cura. Outro candidato, o Kezvara, um anticorpo monoclonal que inibe os receptores da interleucina-6, indicado para a poliartrite reumatoide, avaliado numa parceria entre Sanofi e Regeneron, poderia reduzir a rea\u00e7\u00e3o pulmonar inflamat\u00f3ria do v\u00edrus em pacientes gravemente afetados pela Covid-19. Essas reconvers\u00f5es de mol\u00e9culas em regime de urg\u00eancia significam uma falta de planejamento para problemas de sa\u00fade e uma febrilidade oportunista em vez de uma pol\u00edtica industrial.<\/p>\n<p>Muitos diriam que, por defini\u00e7\u00e3o, \u00e9 imposs\u00edvel predizer uma pandemia e que a pesquisa est\u00e1 fadada a ser pega de surpresa. Esse argumento n\u00e3o se sustenta: podemos prever, orientar a pesquisa com base em uma vis\u00e3o geral da ci\u00eancia, da medicina, da ecologia. Essas pesquisas n\u00e3o podem ser realizadas a curto prazo, com imperativos de lucro. Elas s\u00e3o conduzidas a longo prazo, de acordo com as reais necessidades da popula\u00e7\u00e3o. No entanto, essas necessidades n\u00e3o correspondem estruturalmente aos mercados solventes: 85% dos medicamentos s\u00e3o consumidos em pa\u00edses que abrigam 17% da popula\u00e7\u00e3o mundial, e h\u00e1 mais pesquisas sobre medicamentos para depress\u00e3o e obesidade que para doen\u00e7as infecciosas, que s\u00e3o a principal causa de mortalidade no mundo.<\/p>\n<p>Quando a crise ocorre, essa discrep\u00e2ncia leva a situa\u00e7\u00f5es aberrantes, cuja terceira arma \u2013 as vacinas \u2013 j\u00e1 est\u00e1 repleta de exemplos. Donald Trump, por exemplo, prop\u00f5e a compra da patente da vacina contra o coronav\u00edrus da empresa alem\u00e3 CureVac para uso \u201csomente nos Estados Unidos\u201d, causando uma recusa categ\u00f3rica por Angela Merkel e uma concess\u00e3o rel\u00e2mpago de 80 milh\u00f5es de euros da Uni\u00e3o Europeia. Essa corrida diplom\u00e1tica, n\u00e3o desprovida de segundas inten\u00e7\u00f5es eleitorais, reflete uma realidade industrial: como a pesquisa \u00e9 feita principalmente por incentivo financeiro e por patentes, as grandes empresas farmac\u00eauticas est\u00e3o reduzindo seus investimentos em \u00e1reas m\u00e9dicas essenciais, das quais fazem parte as infec\u00e7\u00f5es, sejam elas bacterianas ou virais. Mas aqui novamente o ritmo real da pesquisa n\u00e3o est\u00e1 adaptado: a empresa Moderna Therapeutics, considerada a primeira a desenvolver uma vacina, s\u00f3 poder\u00e1 coloc\u00e1-la no mercado daqui a v\u00e1rios meses \u2013 o que n\u00e3o impediu que suas a\u00e7\u00f5es dessem um salto ap\u00f3s o an\u00fancio de seu projeto.<\/p>\n<p>Esses impasses da pesquisa privada n\u00e3o s\u00e3o compensados pela pesquisa p\u00fablica. Os cortes or\u00e7ament\u00e1rios geralmente caem como guilhotinas em projetos pacientemente desenvolvidos. Em 4 de mar\u00e7o, o pesquisador Bruno Canard, especialista em replica\u00e7\u00e3o dos \u201cv\u00edrus para RNA\u201d \u2013 um v\u00edrus cujo material gen\u00e9tico consiste em \u00e1cido ribonucleico \u2013, como o coronav\u00edrus, explicava numa coluna: \u201cA partir de 2006, o interesse dos pol\u00edticos pelo Sars-CoV desapareceu; n\u00e3o sab\u00edamos se ele voltaria. A Europa se retirou desses grandes projetos de antecipa\u00e7\u00e3o em nome da satisfa\u00e7\u00e3o dos contribuintes. Agora, quando um v\u00edrus emerge, pede-se aos pesquisadores que se mobilizem urgentemente e encontrem uma solu\u00e7\u00e3o para o dia seguinte. Com colegas belgas e holandeses, enviamos h\u00e1 cinco anos duas cartas de inten\u00e7\u00e3o \u00e0 Comiss\u00e3o Europeia, dizendo que era preciso se antecipar\u201d.(3) O pesquisador pode afirmar que \u201ca ci\u00eancia b\u00e1sica \u00e9 nosso melhor seguro contra epidemias\u201d(4) e constatar que certos ramos da virologia e da bacteriologia permanecem os primos pobres da pesquisa \u2013 quer se trate de pesquisa farmac\u00eautica aplicada ou microbiologia b\u00e1sica. O \u201cchamado instant\u00e2neo\u201d da Ag\u00eancia Nacional de Pesquisa, dotado de 3 milh\u00f5es de euros, parece irris\u00f3rio quando chega ap\u00f3s anos de desinvestimento e de outras epidemias semelhantes. Ap\u00f3s o coronav\u00edrus respons\u00e1vel pela s\u00edndrome respirat\u00f3ria do Oriente M\u00e9dio (Mers) em 2015 e pela Sars de 2003, que surgiu na China (8.096 pessoas infectadas em cerca de trinta pa\u00edses, causando 774 mortes), a Coreia do Sul finalmente reorientou suas pol\u00edticas de sa\u00fade p\u00fablica e preparou as bases para sua a\u00e7\u00e3o atual. Para que os governos se lembrem, o trauma obviamente precisa ser forte e repetido. E, mesmo assim, geralmente \u00e9 a amn\u00e9sia que prevalece.<\/p>\n<hr \/>\n<p>*Quentin Ravelli\u00a0\u00e9 pesquisador do Centre National de la Recherche Scientifique, da Fran\u00e7a, e autor de\u00a0La strat\u00e9gie de la bact\u00e9rie\u00a0[A estrat\u00e9gia da bact\u00e9ria], Le Seuil, Paris, 2015.<\/p>\n<p>1 Comunicado de imprensa, Observatoire de la Transparence dans les Politiques du M\u00e9dicament [Observat\u00f3rio da Transpar\u00eancia nas Pol\u00edticas de Medicamentos], 18 mar. 2020.<br \/>\n2 Esteban Ortiz-Espina e Joe Hasell, \u201cHow many tests for Covid-19 are being performed around the world?\u201d [Quantos testes para o Covid-19 est\u00e3o sendo realizados em todo o mundo?], plataforma de dados Our World in Data, 20 mar. 2020. Dispon\u00edvel em: https:\/\/ourworldindata.org.<br \/>\n3 Bruno Canard, \u201cCoronavirus: la science ne marche pas dans l\u2019urgence!\u201d [Coronav\u00edrus: a ci\u00eancia n\u00e3o funciona em termos de urg\u00eancia!], site Universit\u00e9 ouverte, 4 mar. 2020. Dispon\u00edvel em:\u00a0https:\/\/universiteouverte.org.<br \/>\n4 Bruno Canard, \u201cLa science fondamentale est notre meilleure assurance contre les \u00e9pid\u00e9mies\u201d [A ci\u00eancia b\u00e1sica \u00e9 nosso melhor seguro contra epidemias], CNRS Le Journal, 13 mar. 2020.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Quentin Ravelli\/Le Monde Diplomatique Brasil A Fran\u00e7a revelou-se incapaz rastrear maci\u00e7amente os doentes com Covid-19, revelando a depend\u00eancia da sa\u00fade p\u00fablica em rela\u00e7\u00e3o aos laborat\u00f3rios privados As crises econ\u00f4micas s\u00e3o t\u00e3o seletivas quanto as epidemias: em meados de 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