{"id":1040388,"date":"2020-02-22T10:09:03","date_gmt":"2020-02-22T10:09:03","guid":{"rendered":"https:\/\/www.pressenza.com\/?p=1040388"},"modified":"2020-02-22T10:09:03","modified_gmt":"2020-02-22T10:09:03","slug":"oito-teses-sobre-a-revolucao-feminista","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.pressenza.com\/pt-pt\/2020\/02\/oito-teses-sobre-a-revolucao-feminista\/","title":{"rendered":"Oito teses sobre a Revolu\u00e7\u00e3o Feminista"},"content":{"rendered":"<h5>\u201c<em>Tiemblan los Chicago Boys.<\/em><br \/>\n<em>Aguanta el movimiento feminista\u201d<\/em><br \/>\n<strong>(Grafitti na fachada da Universidade Cat\u00f3lica de Chile, 2018)<\/strong><\/h5>\n<p>A quinze dias do 8 de Mar\u00e7o, uma proponente das greves feministas explica como elas tornaram-se gigantescas e tamb\u00e9m radicais; por que inventam nova classe trabalhadora; e de que modo se chocam com a ess\u00eancia da condi\u00e7\u00e3o neoliberal<\/p>\n<div class=\"author\">por\u00a0<a title=\"Posts de Veronica Gago\" href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/author\/veronicagago1\/\" rel=\"author\">Veronica Gago<\/a><\/div>\n<div><\/div>\n<div>\n<h4>1.<\/h4>\n<p><strong>Com a ferramenta da greve feministas, mapeiam-se novas formas de explora\u00e7\u00e3o dos corpos e territ\u00f3rios, a partir de uma perspectiva simult\u00e2nea de visibiliza\u00e7\u00e3o e insubordina\u00e7\u00e3o.\u00a0<\/strong>A greve revela a composi\u00e7\u00e3o heterog\u00eanea do trabalho em chave feminista, reconhecendo labores historicamente depreciados, mostrando sua engrenagem com a precariza\u00e7\u00e3o geral e se apropriando de uma ferramenta tradicional de luta para transbord\u00e1-la e reinvent\u00e1-la<\/p>\n<p>A greve internacional abriu uma perspectiva feminista sobre o trabalho. Porque a perspectiva feminista reconhece o trabalho territorial, dom\u00e9stico, reprodutivo e migrante, ampliando a partir da base a pr\u00f3pria no\u00e7\u00e3o de classe trabalhadora. Come\u00e7a por assumir que 40% dxs trabalhadorxs do nosso pa\u00eds (Argentina) est\u00e3o em diversas dimens\u00f5es da economia chamada informal e reivindicada como popular. Porque torna vis\u00edvel e valoriza o trabalho historicamente desconhecido e desvalorizado. Por isso, gostamos de afirmar que #TrabalhadorasSomosTodas.<\/p>\n<p>Mas, de modo ainda mais radical: a greve feminista nos coloca em estado de investiga\u00e7\u00e3o pr\u00e1tica. O que chamamos de trabalho, a partir das experi\u00eancia vital e laboral de mulheres, l\u00e9sbicas, trans e travestis? Ao ritmo do que significa parar, vamos mapeando de modo pr\u00e1tico a multiplicidade de tarefas e jornadas intensivas e extensivas que n\u00e3o s\u00e3o pagas, s\u00e3o mal pagas, ou s\u00e3o remuneradas sob estrita hierarquia. Algumas destas tarefas quase nem eram nomeadas; outras tinham nomes que as menosprezavam.<\/p>\n<p>A greve feminista, al\u00e9m disso, ganha for\u00e7a a partir da impossibilidade: as que n\u00e3o podem parar, mas desejam faz\u00ea-lo; as que n\u00e3o podem deixar de trabalhar nem um dia, e querem rebelar-se contra este esgotamento; as que acreditavam que sem autoriza\u00e7\u00e3o da hierarquia do sindicato n\u00e3o havia como, e chamaram a greve as que imaginaram que a greve pudesse ser feita contra os agrot\u00f3xicos e as finan\u00e7as. Todas e cada uma ampliamos as fronteiras da greve. Da conjun\u00e7\u00e3o entre impossibilidade e desejo, surge uma imagina\u00e7\u00e3o radical sobre a forma m\u00faltipla do parar feminista, que leva a greve a lugares insuspeitos, que a desloca em sua capacidade de inclus\u00e3o de experi\u00eancias vitais, que a reinventa desde os corpos desobedientes ao que \u00e9 reconhecido como trabalho<\/p>\n<p>Com a greve, constru\u00edmos uma economia da visibilidade para o diferencial de explora\u00e7\u00e3o que caracteriza o trabalho feminizado. Ou seja, para a subordina\u00e7\u00e3o espec\u00edfica que marca o trabalho comunit\u00e1rio, de bairro, migrante, reprodutivo. Entendemos no dia a dia como sua subordina\u00e7\u00e3o se relaciona com todas as outras formas de trabalho. Tamb\u00e9m frisamos que h\u00e1 um ponto concreto de partida deste diferencial: a reprodu\u00e7\u00e3o da vida, desde sua organiza\u00e7\u00e3o minuciosa e permanente, que \u00e9 explorada pelo capital \u00e0s custas de sua obrigatoriedade, gratuidade ou pagamento insuficiente. Mas fomos al\u00e9m: a partir da reprodu\u00e7\u00e3o \u2013 historicamente negada, subordinada e ligada a processos de domestica\u00e7\u00e3o e coloniza\u00e7\u00e3o \u2013 constru\u00edmos as categorias para repensar os trabalhos assalariados, sindicalizados ou n\u00e3o, atravessados por n\u00edveis cada vez maiores de precariza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Com esta forma de entrela\u00e7ar todos os modos de produ\u00e7\u00e3o de valor (e sua explora\u00e7\u00e3o e extra\u00e7\u00e3o), mapeamos tamb\u00e9m a imbrica\u00e7\u00e3o concreta entre as viol\u00eancias patriarcais, coloniais e capitalistas. Isso evidencia, uma vez mais, que o movimento feminista n\u00e3o \u00e9 exterior \u00e0 quest\u00e3o de classe, embora \u00e0s vezes procure-se apresent\u00e1-lo assim. Tampouco \u00e0 quest\u00e3o de ra\u00e7a. N\u00e3o h\u00e1 possibilidade de \u201cisolar\u201d o feminismo destas tramas onde se situa o combate \u00e0s formas renovadas de explora\u00e7\u00e3o, extra\u00e7\u00e3o, opress\u00e3o e dom\u00ednio. O feminismo como movimento exibe a classe em seu car\u00e1ter hist\u00f3rico, marcado pela exclus\u00e3o sistem\u00e1tica de todxs aquelxs n\u00e3o consideradxs trabalhadores assalariados brancos. E, portanto, n\u00e3o h\u00e1 classe sem pensar sua racializa\u00e7\u00e3o, inscrita em uma divis\u00e3o internacional de trabalho. Evidencia-se assim at\u00e9 que ponto a pr\u00f3pria narrativa e as f\u00f3rmulas organizativas de classe foram modos de subordina\u00e7\u00e3o sistem\u00e1tica do trabalho feminizado e migrante e, como tal, pedra angular da divis\u00e3o do trabalho capitalista, patriarcal e colonial.<\/p>\n<h4>2.<\/h4>\n<p><strong>Com a greve, produzimos uma nova compreens\u00e3o da viol\u00eancia<\/strong>. Sa\u00edmos do gueto da viol\u00eancia dom\u00e9stica para conect\u00e1-la com a viol\u00eancia econ\u00f4mica, laboral, institucional, policial, racista e colonial. Deste modo, fica evidente a rela\u00e7\u00e3o org\u00e2nica da viol\u00eancia machista e feminicida com a atual forma de acumula\u00e7\u00e3o de capital. O car\u00e1ter anticapitalista, anticolonial e antipatriarcal do movimento feminista, em seu momento de massifica\u00e7\u00e3o, vem de estabelecer e difundir esta compreens\u00e3o de maneira pr\u00e1tica.<\/p>\n<p>Com a greve, produz-se um ponto de vista simult\u00e2neo de resist\u00eancia \u00e0 explora\u00e7\u00e3o, de insubordina\u00e7\u00e3o ao trabalho e de desobedi\u00eancia financeira.<\/p>\n<p>Isso nos permite investigar o v\u00ednculo entre os conflitos nos territ\u00f3rios, diante das iniciativas neoextrativistas e de viol\u00eancia sexual; o nexo entre ass\u00e9dio e rela\u00e7\u00f5es de poder, nos espa\u00e7os laborais; tamb\u00e9m o modo como se combina a explora\u00e7\u00e3o do trabalho migrante e feminizado com a extra\u00e7\u00e3o de valor realizada pelas finan\u00e7as; o decl\u00ednio da infraestrutura p\u00fablica nos bairros e a especula\u00e7\u00e3o imobili\u00e1ria (formal e informal); a clandestinidade do aborto e a criminaliza\u00e7\u00e3o das comunidades ind\u00edgenas e negras. Todas estas formas de viol\u00eancia tomam o corpo das mulheres e os corpos feminizados como botim de guerra. Esta conex\u00e3o entre as viol\u00eancias das despossess\u00f5es e dos abusos n\u00e3o \u00e9 apenas anal\u00edtica: \u00e9 praticada como elabora\u00e7\u00e3o coletiva para entender as rela\u00e7\u00f5es de poder em que os feminic\u00eddios se fazem compreens\u00edveis e para diagramar uma estrat\u00e9gia de organiza\u00e7\u00e3o e autodefesa. Neste sentido, o movimento feminista pratica uma pedagogia popular com este diagn\u00f3stico, que relaciona viol\u00eancias e opress\u00f5es e o faz desde a iniciativa de desacat\u00e1-las.<\/p>\n<p>Neste ponto, fugir da vitimiza\u00e7\u00e3o como narrativa totalizadora permite que o diagn\u00f3stico sobre as viol\u00eancias n\u00e3o se traduza em uma linguagem de pacifica\u00e7\u00e3o, nem de puro luto ou lamento. Tamb\u00e9m repele as respostas institucionais que refor\u00e7am o gueto e que pretendem isolar ou resolver o problema com uma secretaria ou um programa. Estes instrumentos n\u00e3o deixam de ser importantes, sempre e quanto n\u00e3o sejam parte de uma tutelagem que codifica a vitimiza\u00e7\u00e3o e restringe a viol\u00eancia como unicamente dom\u00e9stica. O diagn\u00f3stico da interseccionalidade das viol\u00eancias tornou-se poss\u00edvel por meio da greve, que \u00e9 onde se constr\u00f3i e amplifica outro lugar de fala e outro horizontes organizativo do movimento. O mapeamento amplo que isso permitiu amplia nosso olhar e vai \u00e0s ra\u00edzes da conex\u00e3o entre patriarcado, capitalismo e colonialismo, traduzindo-a como constru\u00e7\u00e3o de um sentido comum compartilhado.<\/p>\n<h4>3.<\/h4>\n<p><strong>O movimento feminista atual caracteriza-se por duas din\u00e2micas singulares: a conjun\u00e7\u00e3o de massividade e radicalidade.<\/strong>\u00a0\u00c9 capaz de faz\u00ea-lo por construir proximidade entre lutas muito diferentes. Desta maneira, inventa e cultiva um modo de transversalidade pol\u00edtica. O feminismo atual explicita algo que n\u00e3o parecia \u00f3bvio: que ningu\u00e9m precisa de um territ\u00f3rio, refutando assim a ilus\u00e3o metaf\u00edsica do indiv\u00edduo isolado. Todxs estamos situadxs e, tamb\u00e9m neste sentido, o corpo come\u00e7a a se perceber como um corpo-territ\u00f3rio. O feminismo, como movimento, deixou de ser uma exterioridade que se relaciona com \u201coutrxs\u201d, para ser tomado como chave para ler o conflito em cada territ\u00f3rio (dom\u00e9stico, afetivo, laboral, migrante, art\u00edstico, campon\u00eas, urbano, feirantes, comunit\u00e1rio, etc). Isso faz com que emerja um feminismo de massas e intergeracional, porque \u00e9 apropriado pelos mais diversos espa\u00e7os e experi\u00eancias.<\/p>\n<p>Como se produz esta composi\u00e7\u00e3o que se caracteriza por ser transversal? A partir da conex\u00e3o entre as lutas. Mas a trama constru\u00edda entre as lutas diversas n\u00e3o \u00e9 espont\u00e2nea nem natural. Em rela\u00e7\u00e3o ao feminismo, prevaleceu o contr\u00e1rio, durante muito tempo: era entendido em sua variante institucional e ou acad\u00eamica, mas historicamente dissociado de processos de conflu\u00eancia popular. Algumas linhas geneal\u00f3gicas fundamentais tornaram poss\u00edvel a expans\u00e3o atual. Na Argentina, identificamos quatro: a hist\u00f3ria de luta pelos direitos humanos desde os anos 1970, protagonizada pelas M\u00e3es e Av\u00f3s da Pra\u00e7a de Maio; as mais de tr\u00eas d\u00e9cadas do Encontro Nacional de Mulheres (agora plurinacional de mulheres, l\u00e9sbicas, trans e travestis); a irrup\u00e7\u00e3o do movimento piqueteiro, de um protagonismo tamb\u00e9m feminizado no momento de enfrentar a crise social do come\u00e7o do s\u00e9culo; e uma ampla hist\u00f3ria do movimento de dissid\u00eancias sexuais, que vai da heran\u00e7a da FLH (Frente de Liberta\u00e7\u00e3o Homossexual) dos anos 70 \u00e0 milit\u00e2ncia l\u00e9sbicas pelo acesso aut\u00f4nomo ao aborto e o ativismo trans, travesti, intersexual e transg\u00eanero que revolucionou os corpos e as subjetividades do feminismo contra os limites biologicistas.<\/p>\n<p>A transversalidade alcan\u00e7ada a partir da organiza\u00e7\u00e3o da greve atualiza estas linhas hist\u00f3ricas e projeta um feminismo de massas, enraizado nas lutas concretas das trabalhadoras da economia popular, nas migrantes, nas cooperativistas, nas defensoras dos territ\u00f3rios, nas precarizadas, nas novas gera\u00e7\u00f5es de dissid\u00eancias sexuais, nas donas de casa que renegam encerrar-se, na luta pelo direito ao aborto que \u00e9 a luta ampliada pela autonomia do corpo, nas estudantes mobilizadas, nas que denunciam os agrot\u00f3xicos, nas trabalhadoras sexuais. Estabelece um horizonte comum em termos organizativos e funciona como catalisador pr\u00e1tico.<\/p>\n<p>O poderoso \u00e9 que ao integrar esta multiplicidade de conflitos, redefine-se a dimens\u00e3o de massas a partir de pr\u00e1ticas e lutas que foram historicamente definidas como \u201cminorit\u00e1rias\u201d.<\/p>\n<p>Com isso, a oposi\u00e7\u00e3o entre minorit\u00e1rio e majorit\u00e1rio se desloca: o minorit\u00e1rio ganha escala de massas como vetor de radicaliza\u00e7\u00e3o, no interior de uma composi\u00e7\u00e3o que n\u00e3o para de se expandir. Desafia-se assim a m\u00e1quina neoliberal de reconhecimento de minorias e de pacifica\u00e7\u00e3o da diferen\u00e7a.<\/p>\n<p>Esta transversalidade pol\u00edtica nutre-se a partir dos diversos territ\u00f3rios em conflito. Constr\u00f3i uma afeta\u00e7\u00e3o comum para problemas que tendem a ser vividos como individuais; e um diagn\u00f3stico pol\u00edtico para as viol\u00eancias que tendem a ser encapsuladas como dom\u00e9sticas. Isso complexifica certa ideia de solidariedade que sup\u00f5e um grau de exterioridade que ratifica a dist\u00e2ncia em rela\u00e7\u00e3o a outrxs. A transversalidade prioriza uma pol\u00edtica de constru\u00e7\u00e3o de proximidade e alian\u00e7as, sem desconhecer as diferen\u00e7as de intensidade nos conflitos.<\/p>\n<h4>4.<\/h4>\n<p><strong>O movimento feminista lan\u00e7a uma nova cr\u00edtica \u00e0 economia pol\u00edtica.<\/strong>\u00a0Inclui uma den\u00fancia radical \u00e0s condi\u00e7\u00f5es contempor\u00e2neas de valoriza\u00e7\u00e3o do capital e, portanto, atualiza a no\u00e7\u00e3o de explora\u00e7\u00e3o. Mas o faz ampliando o que se entende usualmente por economia.<\/p>\n<p>Na Argentina, em particular, h\u00e1 um cruzamento que d\u00e1 origem a uma nova cr\u00edtica da economia pol\u00edtica. Isso se deve ao encontro pr\u00e1tico entre as economias populares e a economia feminista. As economias populares, como tramas produtivas e reprodutivas, expressam um ac\u00famulo de lutas que abriu a imagina\u00e7\u00e3o da greve feminista.<\/p>\n<p>\u00c9 por isso que na Argentina a greve feminista consegue destacar, problematizar e valorizar uma multiplicidade de labores, a partir de um mapeamento do trabalho em chave feminista \u2013 na medida em que se vincula com a genealogia piqueteira e a problematiza\u00e7\u00e3o do trabalho assalariado e suas formas de \u201cinclus\u00e3o\u201d. S\u00e3o estas experi\u00eancias que est\u00e3o na origem das economias populares e persistem como elemento de insurrei\u00e7\u00e3o novamente convocado pelos feminismos populares.<\/p>\n<p>Com a din\u00e2mica de organiza\u00e7\u00e3o das greves feministas, ocorrem dois processos nas economias populares. Por um lado, a politiza\u00e7\u00e3o dos \u00e2mbitos reprodutivos, mais al\u00e9m dos alares, funciona como espa\u00e7o concreto para elaborar a amplia\u00e7\u00e3o dos trabalhos que a greve valoriza. Por outro, a perspectiva feminista sobre estas tarefas permite evidenciar o conjunto de mandatos patriarcais e coloniais que as naturalizam e, portanto, habilitam as l\u00f3gicas de explora\u00e7\u00e3o e extra\u00e7\u00e3o sobre elas.<\/p>\n<p>A greve feminista, ao colocar em marcha uma leitura que desacata a inscri\u00e7\u00e3o do labor reprodutivo em termos familiaristas, desafia o peso moral permanente imposto sobre os subs\u00eddios sociais e prov\u00ea um cruzamento entre economia feminista e economia popular que radicaliza ambas experi\u00eancias.<\/p>\n<p>A partir da greve, al\u00e9m disso, o movimento feminista est\u00e1 produzindo figuras de subjetiva\u00e7\u00e3o (trajet\u00f3rias, formas de coopera\u00e7\u00e3o, modos de vida) que escapam do binarismo neoliberal. Este op\u00f5e v\u00edtimas e empres\u00e1rias de si (inclusive na pseudolinguagem de g\u00eanero do \u201cempoderamento\u201d empreendedor). Os feminismos s\u00e3o antineoliberais porque se encarregam do problema da organiza\u00e7\u00e3o coletiva contra o sofrimento individual e denunciam a pol\u00edtica sistem\u00e1tica de despossess\u00f5es.<\/p>\n<p>O movimento feminista atual estabelece uma caracteriza\u00e7\u00e3o precisa do neoliberalismo, e por isso abre horizontes para o que chamamos de pol\u00edtica antineoliberal. Dado o tipo de conflitividade que mapeia, visibiliza e mobiliza, emerge uma no\u00e7\u00e3o complexa de neoliberalismo que n\u00e3o se reduz ao bin\u00f4mio Estado x Mercado.<\/p>\n<p>Pelo contr\u00e1rio: assinala-se a partir das lutas a conex\u00e3o entre a l\u00f3gica extrativa do capital e sua imbrica\u00e7\u00e3o com as pol\u00edticas estatais, identificando por que se explora e extrai valor de determinados corpos-territ\u00f3rios. A perspectiva de economia feminista que surge daqui e, ent\u00e3o, anticapitalista.<\/p>\n<h4>5.<\/h4>\n<p><strong>O movimento feminista tomas as ruas e constr\u00f3i em assembleias, tece poder nos territ\u00f3rios e elabora an\u00e1lises de conjuntura<\/strong>. Produz um contrapoder que articula uma din\u00e2mica de conquista de direitos com um horizonte de radicalidade. Desarma o binarismo entre reforma e revolu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Dissemos que com a greve o movimento feminista constr\u00f3i uma for\u00e7a comum contra a precariza\u00e7\u00e3o; o \u201cajuste\u201d, as demiss\u00f5es e as viol\u00eancias que implicam. Ao faz\u00ea-lo, real\u00e7a seu sentido antineoliberal (ou seja, impugna a racionalidade empresarial como ordem do mundo), afirmando sua natureza classista (ou seja, n\u00e3o naturaliza nem minimiza a quest\u00e3o da explora\u00e7\u00e3o), anticolonial e antipatriarcal (porque denuncia e desacata a explora\u00e7\u00e3o espec\u00edfica do capitalismo contra as mulheres e os corpos feminizados e racializados). Esta din\u00e2mica \u00e9 essencial: produz um cruzamento pr\u00e1tico entre g\u00eanero, ra\u00e7a e classe e gera outra racionalidade para ler a conjuntura. Tanto nos debates parlamentares (afirmando que n\u00e3o h\u00e1 direito nem for\u00e7a de lei que n\u00e3o se formule primeiro nos protestos sociais) como na radicaliza\u00e7\u00e3o da organiza\u00e7\u00e3o popular, os feminismos resistem a ser reduzidos a uma \u201ccota\u201d ou um \u201csetor\u201d.<\/p>\n<p>Esta din\u00e2mica do movimento \u00e9 dupla: constr\u00f3i sua pr\u00f3pria institucionalidade (redes aut\u00f4nomas) e, ao mesmo tempo, interpela a institucionalidade existente. Cria ao seu redor uma temporalidade estrat\u00e9gica que atua simultaneamente no presente com o que existe, e com o que existe tamb\u00e9m no presente \u2013 mas como virtualidade, como possibilidade ainda aberta, n\u00e3o ainda realizada. O movimento feminista n\u00e3o esgota suas demandas nem suas lutas num horizonte estatal, mesmo que n\u00e3o desconhe\u00e7a este marco de a\u00e7\u00e3o. Decididamente, n\u00e3o projeta o Estado como inst\u00e2ncia de resolu\u00e7\u00e3o das viol\u00eancias. A dimens\u00e3o ut\u00f3pica tem, no entanto, efic\u00e1cia no presente e n\u00e3o na posterga\u00e7\u00e3o de um objetivo final futuro e distante. Por isso,tamb\u00e9m a dimens\u00e3o ut\u00f3pica pode trabalhar nas contradi\u00e7\u00f5es existentes, sem esperar a apari\u00e7\u00e3o de sujeitxs absolutamente liberadxs nem condi\u00e7\u00f5es ideais de lutas, e sem confiar num \u00fanico espa\u00e7o que totalize a transforma\u00e7\u00e3o social. Apela \u00e0 pot\u00eancia de ruptura de cada a\u00e7\u00e3o e n\u00e3o limita a ruptura a um momento final espetacular de uma acumula\u00e7\u00e3o estritamente evolutiva.<\/p>\n<p>Isso, de novo, conecta-se com a pot\u00eancia da transversalidade, que cresce porque o ativismo feminista converteu-se em for\u00e7a dispon\u00edvel, que se coloca em movimento em diferentes espa\u00e7os de luta e de vida. \u00c9 um modo de agir que vai contra a \u201csetorializa\u00e7\u00e3o\u201d da chamada \u201cagenda de g\u00eanero\u201d e contra a infantiliza\u00e7\u00e3o de suas pr\u00e1ticas pol\u00edticas. Ou seja, a transversalidade n\u00e3o \u00e9 apenas uma forma de coordena\u00e7\u00e3o, mas tamb\u00e9m uma capacidade de fazer do feminismo uma for\u00e7a pr\u00f3pria em cada lugar, e de n\u00e3o limitar-se a uma l\u00f3gica de demandas pontuais. Sustent\u00e1-la n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil: implica um trabalho cotidiano de tessitura, conversa\u00e7\u00e3o, tradu\u00e7\u00f5es, amplia\u00e7\u00e3o de discuss\u00f5es, tentativas e erros. Mas o mais potente \u00e9 que hoje esta transversalidade \u00e9 sentida como necessidade e como desejo de abrir uma temporalidade aqui e agora da revolu\u00e7\u00e3o\u2026<\/p>\n<h4>6.<\/h4>\n<p><strong>O feminismo contempor\u00e2neo tece um novo internacionalismo.\u00a0<\/strong>N\u00e3o se trata de uma estrutura que abstraia e torne homog\u00eaneas as lutas, para lev\u00e1-las a um plano \u201csuperior\u201d. O movimento \u00e9 compreendido, ao contr\u00e1rio, como uma for\u00e7a concreta em cada lugar. Impulsiona uma din\u00e2mica que se faz transnacional a partir de corpos e trajet\u00f3rias situadas. Por isso, o movimento feminista expressas-se como for\u00e7a coordenada de desestabiliza\u00e7\u00e3o global, cuja pot\u00eancia est\u00e1 enraizada e emerge de maneira not\u00e1vel a partir do Sul<\/p>\n<p>Trata-se de um internacionalismo desde os territ\u00f3rios em lucha. Por isso, sua constru\u00e7\u00e3o \u00e9 mais complexa e polif\u00f4nica: inclui cada vez mais territ\u00f3rios e l\u00ednguas. N\u00e3o depende do marco do Estado-na\u00e7\u00e3o, por isso ultrapassa o pr\u00f3prio conceito de \u201cinternacionalismo\u201d. Mais que internacional, \u00e9 transnacional e plurinacional Porque reconhece outras geografias e tra\u00e7a outros mapas de alian\u00e7a, encontro e converg\u00eancia. Porque inclui uma cr\u00edtica radical ao limite nacional como que se quer delimitas as lutas. Porque se conecta a partir das trajet\u00f3rias migrantes. E porque aproxima paisagens que recombinam elementos urbanos, suburbanos, camponeses, ind\u00edgenas, de comunidade e de bairro \u2013 portanto, articula m\u00faltiplas temporalidades.<\/p>\n<p>O transnacionalismo feminista envolve uma cr\u00edtica aos ataques neocoloniais contra os corpos-territ\u00f3rios. Denuncia os extrativismos e exibe sua conex\u00e3o com o aumento das viol\u00eancias machistas e as formas de explora\u00e7\u00e3o laboral que t\u00eam na maquiladora uma cena fundante, em nosso continente.<\/p>\n<p>A greve feminista constr\u00f3i uma trama transnacional irrefre\u00e1vel, porque mapeia a contrapelo o mercado mundial que organiza a acumula\u00e7\u00e3o de capital. E, no entanto, este enlace transnacional n\u00e3o se organiza seguindo o calend\u00e1rio dos encontros de grandes organismos a servi\u00e7o do capital. A partir da greve feminista, o movimento adota forma de coordena\u00e7\u00e3o de aqui, de comiss\u00e3o ali, de encontro de lutas acol\u00e1. S\u00e3o todas iniciativas que rompem fronteiras. Trata-se de um transnacionalismo que lan\u00e7ou a consigna global da greve e assim forjou uma coordena\u00e7\u00e3o de novo tipo: \u201cse n\u00f3s paramos, o mundo p\u00e1ra\u201d.<\/p>\n<p>A for\u00e7a de desestabiliza\u00e7\u00e3o \u00e9, ent\u00e3o, global, porque primeiro existe em cada casa, em cada rela\u00e7\u00e3o, em cada territ\u00f3rio, em cada assembleia, em cada universidade, em cada f\u00e1brica, em cada feira. Neste sentido, \u00e9 inversa a uma longa tradi\u00e7\u00e3o internacionalista que organiza a partir de cima, unificando e dando \u201ccoer\u00eancia\u201d \u00e0s lutas a partir de sua adscri\u00e7\u00e3o a um programa.<\/p>\n<p>A dimens\u00e3o transnacional comp\u00f5e o coletivo como uma pesquisa. Apresenta-se ao mesmo tempo como autoforma\u00e7\u00e3o e como desejo de articula\u00e7\u00e3o com experi\u00eancias que a princ\u00edpio n\u00e3o est\u00e3o pr\u00f3ximas.<\/p>\n<p>Isso \u00e9 bem diferente que ver na coordena\u00e7\u00e3o coletiva um\u00a0<em>a priori\u00a0<\/em>moral, ou um exig\u00eancia abstrata. O feminismo nos bairros, nas camas e nas casas n\u00e3o \u00e9 menos internacionalista que o feminismo nas ruas ou em encontros regionais. Esta \u00e9 sua potente pol\u00edtica de lugar. Sua n\u00e3o disjun\u00e7\u00e3o, sua maneira de fazer transnacionalismo como pol\u00edtica de raiz e como abertura dos territ\u00f3rios a suas conex\u00f5es inesperadas, com extens\u00e3o mundial.<\/p>\n<h4>7.<\/h4>\n<p><strong>A resposta global \u00e0 for\u00e7a transnacional feminista organiza-se como contraofensiva tripla: militar, econ\u00f4mica e religiosa.<\/strong>\u00a0Isso explica por que hoje o neoliberalismo precisa de pol\u00edticas conservadoras para estabilizar seu modo de governo.<\/p>\n<p>O fascismo em coaliz\u00e3o com o neoliberalismo, que vemos nos planos regional e global, \u00e9 uma leitura reacion\u00e1ria. Uma resposta \u00e0 for\u00e7a liberada pelo movimento feminista internacional. Os feminismos que tomaram as ruas nos \u00faltimos anos, e que se capilarizaram como for\u00e7a concreta em todos os \u00e2mbitos e rela\u00e7\u00f5es sociais, colocaram em quest\u00e3o a subordina\u00e7\u00e3o do trabalho reprodutivo e feminizado, a persegui\u00e7\u00e3o das economias migrantes, a naturaliza\u00e7\u00e3o dos abusos sexuais como disciplinamento da for\u00e7a de trabalho precarizada, a heterotermia familiar como ref\u00fagio diante desta mesma precariedade, o confinamento dom\u00e9stico como lugar de submiss\u00e3o e invisibilidade, a criminaliza\u00e7\u00e3o do aborto e das pr\u00e1ticas de soberania sobre os corpos, o envenenamento e despossess\u00e3o de comunidades por corpora\u00e7\u00f5es empresariais em conluio com Estados. Cada uma destas pr\u00e1ticas fez tremer a normalidade da obedi\u00eancia, sua reprodu\u00e7\u00e3o quotidiana e rotinizada.<\/p>\n<p>A greve feminista, tecida como processo pol\u00edtico, abriu uma temporalidade de revolta. Expandiu-se como desejo revolucion\u00e1rio. N\u00e3o deixou lugar intocado pela mar\u00e9 de insubordina\u00e7\u00e3o e questionamento ao tornar-se a\u00e7\u00e3o de longo f\u00f4lego.<\/p>\n<p>O neoliberalismo precisa agora aliar-se com for\u00e7as conservadoras retr\u00f3gradas, porque a desestabiliza\u00e7\u00e3o das autoridades patriarcais p\u00f5e em risco a pr\u00f3pria acumula\u00e7\u00e3o de capital. Dir\u00edamos assim: o capital \u00e9 extremamente consciente de sua articula\u00e7\u00e3o org\u00e2nica com o colonialismo e o patriarcado, para reproduzir-se como rela\u00e7\u00e3o de obedi\u00eancia. Se a f\u00e1brica e a fam\u00edlia heteropatriarcal n\u00e3o conseguem manter a disciplina, e se o controle securit\u00e1rio \u00e9 desafiado por formas feministas de gerir a interdepend\u00eancia, em \u00e9pocas de precariedade existencial, a contraofensiva recrudesce. E vemos muito claramente por que neoliberalismo e conservadorismo compartilham objetivos estrat\u00e9gicos de normaliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Como o movimento feminista politiza de maneira nova e radical a crise da reprodu\u00e7\u00e3o social, que \u00e9 ao mesmo tempo crise civilizat\u00f3ria e da estrutura patriarcal da sociedade, o impulso fascista que se p\u00f5e em marcha para confront\u00e1-lo prop\u00f5e economias de obedi\u00eancia, para circunscrever a crise. Seja pelo lado dos fundamentalismo religiosos ou da constru\u00e7\u00e3o paranoica de um novo inimigo interno, o que constatamos \u00e9 a tentativa de aterrorizar as for\u00e7as de desestabiliza\u00e7\u00e3o enraizadas num feminismo que rompeu fronteiras e \u00e9 capaz de produzir c\u00f3digo comum entre lutas diversas..<\/p>\n<h4>8.<\/h4>\n<p><strong>O movimento feminista enfrenta agora a imagem mais abstrata do capital: o capital financeiro, esta forma de dom\u00ednio que parece tornar imposs\u00edvel o antagonismo.\u00a0<\/strong>Quando o movimento feminista confronta a financeiriza\u00e7\u00e3o da vida \u2013 ou seja, o regime em que o pr\u00f3prio ato de viver \u201cproduz\u201d d\u00edvida \u2013, desencadeia-se uma disputa com as novas formas de explora\u00e7\u00e3o e extra\u00e7\u00e3o de valor.<\/p>\n<p>No endividamento, aparece uma imagem \u201cinvertida\u201d da pr\u00f3pria produtividade de nossa for\u00e7a de trabalho, de nossa pot\u00eancia vital e da politiza\u00e7\u00e3o (valoriza\u00e7\u00e3o) das tarefas reprodutivas. A greve feminista, quando grita\u00a0<em>nos queremos livres, vivas e desendividadas!,\u00a0<\/em>consegue visibilizar as finan\u00e7as em termos de conflitividade. Portanto enuncia a autodefesa de nossas autonomias. \u00c9 necess\u00e1rio compreender o endividamento maci\u00e7o que fincou ra\u00edzes nas economias populares feminizadas e nas economias dom\u00e9sticas como uma contrarrevolu\u00e7\u00e3o cotidiana. Como uma opera\u00e7\u00e3o realizada no mesmos terrenos que os feminismos sacudiram.<\/p>\n<p>Se o movimento feminista toma as finan\u00e7as como um terreno de luta contra o empobrecimento generalizado, pratica uma contrapedagogia, apresentando este fen\u00f4meno em sua viol\u00eancia, suas f\u00f3rmulas abstratas de explora\u00e7\u00e3o de corpos e territ\u00f3rios. Agregar a dimens\u00e3o financeira a nossas lutas permite mapear os fluxos de d\u00edvida e completar o mapa da explora\u00e7\u00e3o em suas formas mais din\u00e2micas, vers\u00e1teis e aparentemente \u201cinvis\u00edveis\u201d.<\/p>\n<p>Entender como a d\u00edvida extrai valor das economias dom\u00e9sticas, das economias n\u00e3o assalariadas, das economias consideradas historicamente n\u00e3o produtivas, permite captar os dispositivos financeiros como verdadeiros mecanismos de coloniza\u00e7\u00e3o da reprodu\u00e7\u00e3o da vida. E lava a entender a d\u00edvida como dispositivo privilegiado de lavagem de fluxos il\u00edcitos, e portanto de conex\u00e3o entre economias legais e ilegais, como maneira de aumentar a viol\u00eancia direta contra os territ\u00f3rios. O que se busca \u00e9 precisamente uma \u201ceconomia da obedi\u00eancia, que serve aos setores mais concentrados do capital e \u00e0 caridade como despolitiza\u00e7\u00e3o do acesso a recursos.<\/p>\n<p>Tudo isso nos abre, outra vez, possibilidades mais amplas e complexas de entender que o que diagnosticamos como as viol\u00eancias que tomam os corpos feminizados como novos territ\u00f3rios de conquista. Por isso, \u00e9 necess\u00e1rio um gesto feminista sobre o mecanismo da d\u00edvida. Ele \u00e9 tamb\u00e9m um gesto contra o mecanismo da culpabiliza\u00e7\u00e3o, sustentada pela moral heteropatriarcal e pela explora\u00e7\u00e3o explora\u00e7\u00e3o de nossas for\u00e7as vitais.<\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cTiemblan los Chicago Boys. 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