{"id":103930,"date":"2014-04-28T00:20:34","date_gmt":"2014-04-27T23:20:34","guid":{"rendered":"http:\/\/www.pressenza.com\/?p=103930"},"modified":"2014-04-28T00:21:38","modified_gmt":"2014-04-27T23:21:38","slug":"stedile-o-neodesenvolvimentismo-chegou-ao-seu-limite","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.pressenza.com\/pt-pt\/2014\/04\/stedile-o-neodesenvolvimentismo-chegou-ao-seu-limite\/","title":{"rendered":"St\u00e9dile: &#8220;o neodesenvolvimentismo chegou ao seu limite&#8221;"},"content":{"rendered":"<p>Publicamos a entrevista que Jo\u00e3o Pedro St\u00e9dile deu para L\u00e9a Maria Aar\u00e3o Reis para o Portal Carta Maior<\/p>\n<p>Segundo a lideran\u00e7a mais expressiva do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra, programa do governo de concilia\u00e7\u00e3o de classes &#8220;bateu no teto&#8221;.<\/p>\n<p>&#8220;A reforma agr\u00e1ria fixa o homem no campo e desfaveliza o pa\u00eds.&#8221; \u00c9 a ideia central, hoje, do discurso que, com perseveran\u00e7a, p\u00f5e em pr\u00e1tica h\u00e1 35 anos, o fundador e uma das lideran\u00e7as mais expressivas do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), o economista ga\u00facho Jo\u00e3o Pedro St\u00e9dile, de 61 anos. Carism\u00e1tico, um dos pensadores de raiz marxista e dos ativistas de esquerda mais importantes do pa\u00eds, St\u00e9dile n\u00e3o hesita em dizer: &#8220;Perdeu-se a oportunidade hist\u00f3rica de fazer a chamada reforma agr\u00e1ria cl\u00e1ssica no Brasil.&#8221; Para ele, o importante agora \u00e9 a luta resultante da alian\u00e7a entre os trabalhadores do campo e os da cidade &#8211; os que far\u00e3o a reforma agr\u00e1ria popular. E acrescenta: &#8220;A cidade grande \u00e9 o inferno em vida para o campon\u00eas, pois sobra para ele a favela e a superexplora\u00e7\u00e3o.&#8221;<\/p>\n<p>Ga\u00facho nascido na cidade de Lagoa Vermelha, regi\u00e3o de agropecu\u00e1ria do nordeste do Rio Grande do Sul, nesta entrevista exclusiva a Carta Maior Jo\u00e3o Pedro relembra tr\u00eas datas seminais do MST, 17 de abril: o Dia Nacional da Luta pela Reforma Agr\u00e1ria, o Dia Mundial da  Luta Campesina e os 18 anos do Massacre de Eldorado dos Caraj\u00e1s, no sul do Par\u00e1, quando 1500 trabalhadores rurais foram brutalmente agredidos pela Pol\u00edcia Militar do estado e 18 trabalhadores foram por ela assassinados. Privatiza\u00e7\u00f5es de terras, de acesso aos min\u00e9rios \u2013 do subsolo do pa\u00eds -, de \u00e1guas, fontes naturais, len\u00e7\u00f3is fre\u00e1ticos, e at\u00e9 do ar da Amaz\u00f4nia est\u00e3o na pauta da nossa conversa assim como o tema do agroneg\u00f3cio: &#8220;A m\u00eddia \u00e9 a arma para proteg\u00ea-lo e aos seus lucros,&#8221; lembra o l\u00edder do MST.<\/p>\n<p>Carta Maior: Quais as mudan\u00e7as nas a\u00e7\u00f5es do MST a partir deste ano? <\/p>\n<p>St\u00e9dile: A reflex\u00e3o coletiva no MST e na Via Campesina Brasil \u00e9 a de que, no passado, estava posto um programa de reforma agr\u00e1ria que visava resolver o problema de terra de trabalho, e ao mesmo tempo desenvolver as for\u00e7as produtivas, o mercado interno para a ind\u00fastria nacional e assim participava do processo de desenvolvimento nacional.<\/p>\n<p>Esse tipo de reforma agr\u00e1ria ficou conhecido como reforma agr\u00e1ria cl\u00e1ssica. Ele se realizava quando havia condi\u00e7\u00f5es de uma alian\u00e7a t\u00e1cita entre os camponeses que precisavam de terra e a burguesia industrial, que precisava de mercado interno. No Brasil, chegamos mais pr\u00f3ximo dessa possibilidade na crise da d\u00e9cada de 60 quando o governo Goulart apresentou um projeto de reforma agr\u00e1ria cl\u00e1ssica, que era tamb\u00e9m revolucion\u00e1rio para a \u00e9poca. Ele apresentou o projeto dia 13 de mar\u00e7o e caiu dia 1 de abril. Mais tarde, esse programa poderia ainda ter sido implementado na redemocratiza\u00e7\u00e3o do pa\u00eds, no governo Tancredo, quando Jos\u00e9 Gomes da Silva, nosso maior especialista em reforma agr\u00e1ria cl\u00e1ssica foi presidente do Incra. Ele preparou um plano que previa assentar 1,4 milh\u00f5es de fam\u00edlias em quatro anos. Apresentou ao Sarney dia 4 de outubro e caiu dia 13 de outubro de 85. Quando Lula chegou ao governo tamb\u00e9m imagin\u00e1vamos que esse programa poderia ser retomado. Mas a\u00ed o contexto econ\u00f4mico e pol\u00edtico j\u00e1 era outro. E a reforma agr\u00e1ria cl\u00e1ssica ficou nas calendas.<\/p>\n<p>CM: A reforma agr\u00e1ria cl\u00e1ssica, ent\u00e3o, n\u00e3o tem mais sentido aqui no Brasil? E o que \u00e9 projetado no lugar dela para que se cumpra, enfim, a justi\u00e7a social e econ\u00f4mica no campo?<\/p>\n<p>Como eu disse: a reforma agr\u00e1ria cl\u00e1ssica visava resolver a quest\u00e3o do trabalho no campo e o desenvolvimento industrial com mercado interno. Nos tempos atuais, o que hegemoniza o capitalismo \u00e9 o capital financeiro e as empresas transnacionais que controlam o mercado mundial de alimentos. Para essa classe dominante n\u00e3o interessa mais reforma agr\u00e1ria, de nenhum tipo, pois eles n\u00e3o precisam de mercado interno, nem de camponeses, nem de ind\u00fastria nacional. E por isso est\u00e3o implementando um novo modelo de controle da produ\u00e7\u00e3o agr\u00edcola pelo capital, que \u00e9 o agroneg\u00f3cio.<\/p>\n<p>O agroneg\u00f3cio representa os interesses apenas dos grandes propriet\u00e1rios de terra, do capital financeiro e das empresas transnacionais. Um modelo baseado na monocultura, em que cada fazenda se especializa num s\u00f3 produto como soja, cana, pastagens ou eucalipto. (No Brasil de agora, 80% de todas as terras se dedicam apenas a esses quatro cultivos.) Em lugar de usar m\u00e3o-de-obra eles fazem uso intensivo de m\u00e1quinas agr\u00edcolas e de venenos, ambos controlados pelas empresas transnacionais. Destroem o meio ambiente, pois o \u00fanico objetivo \u00e9 o lucro m\u00e1ximo. E est\u00e3o completamente dependentes do capital financeiro, que adianta o cr\u00e9dito para que comprem os insumos das empresas transnacionais &#8211; e assim se fecha o ciclo.<\/p>\n<p>Meia d\u00fazia de empresas fica com o lucro, e o povo fica desempregado e com passivo ambiental, que j\u00e1 est\u00e1 afetando o clima at\u00e9 nas cidades. Por isso, n\u00e3o interessa mais reforma agr\u00e1ria cl\u00e1ssica para a classe dominante atual. E ela est\u00e1 inviabilizada para os camponeses. Ent\u00e3o, n\u00f3s temos levantado a tese da necessidade de lutar por um novo tipo de reforma agr\u00e1ria que chamamos de reforma agr\u00e1ria popular.<\/p>\n<p>CM: O que voc\u00ea chama de &#8220;reforma agr\u00e1ria popular&#8221;?<\/p>\n<p>Diante dessa nova realidade agr\u00e1ria, com o dom\u00ednio do capital internacional e financeiro, fizemos um intenso debate dentro do MST que envolveu toda nossa milit\u00e2ncia, nossa base, intelectuais e professores, amigos, durante dois anos. E terminamos com a realiza\u00e7\u00e3o do evento do VI Congresso Nacional h\u00e1 menos de dois meses, em fevereiro deste ano onde aprovamos essa formula\u00e7\u00e3o da necessidade de uma reforma agr\u00e1ria popular.<\/p>\n<p>Reforma agr\u00e1ria popular porque agora ela precisa atender n\u00e3o s\u00f3 as necessidades dos camponeses sem terra, que precisam trabalhar. Mas as necessidades de todo o povo. E o povo precisa de alimentos, alimentos sadios, sem venenos, precisa de emprego, precisa de desenvolvimento da agroind\u00fastria, precisa de educa\u00e7\u00e3o e cultura. Ent\u00e3o, o nosso programa de reforma agr\u00e1ria de novo tipo, parte da necessidade de democratiza\u00e7\u00e3o da propriedade da terra, fixando limites, e prop\u00f5e a reorganiza\u00e7\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o agr\u00edcola, priorizando a produ\u00e7\u00e3o de alimentos sem venenos. Para isso precisamos adotar e universalizar uma nova matriz tecnol\u00f3gica que \u00e9 a agroecologia. E foi isso que pedimos ao Silvio Tendler para mostrar em seu novo document\u00e1rio, O veneno est\u00e1 na mesa 2.<\/p>\n<p>Como \u00e9 poss\u00edvel e necess\u00e1ria a matriz da agroecologia para produz alimentos sadios que beneficiam toda a popula\u00e7\u00e3o e evitam as enfermidades, sobretudo o c\u00e2ncer, provocado pelos alimentos contaminados por agrot\u00f3xicos. O Instituto Nacional do C\u00e2ncer advertiu que, neste ano de 2014 teremos 526 mil novos casos de c\u00e2ncer entre os brasileiros. A maior parte deles de mama e de pr\u00f3stata. Precisamos uma reforma agr\u00e1ria que valorize a vida no interior, gerando emprego para jovens. E para isso propomos a implanta\u00e7\u00e3o de milhares de pequenas agroind\u00fastrias na forma de cooperativas que v\u00e3o dar emprego a milh\u00f5es de jovens que precisam estudar. Propomos a democratiza\u00e7\u00e3o da educa\u00e7\u00e3o para que todos tenham os  mesmos direitos e oportunidades sem sair do meio rural.<\/p>\n<p>CM: Voc\u00ea tem denunciado que nesse modelo do agroneg\u00f3cio privatiza-se at\u00e9 o ar. Como \u00e9 isso?<\/p>\n<p>De fato, entre as caracter\u00edsticas desse novo modelo do capital, \u00e9 que este, agora mais poderoso, pois \u00e9 dominado pelo capital financeiro e pelas empresas transnacionais, quando chega \u00e0 agricultura, eprocura se apropriar de todos os recursos naturais para tirar lucro m\u00e1ximo.<\/p>\n<p>Em per\u00edodos de crise capitalista no hemisf\u00e9rio norte, como o que estamos vivendo, essa necessidade deles aumenta, pois a apropria\u00e7\u00e3o privada dos recursos naturais, seja terra, min\u00e9rios, \u00e1gua, energia el\u00e9trica, \u00e9 fonte inesgot\u00e1vel de uma renda extraordin\u00e1ria, mais al\u00e9m da explora\u00e7\u00e3o do trabalho. Pois os recursos est\u00e3o na natureza, e eles, ao se apropriarem desses recursos, colocam no mercado a pre\u00e7os bem acima do seu valor, medido pelo custo de produ\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Para isso, desde a implanta\u00e7\u00e3o da hegemonia do neoliberalismo, foram impondo condicionamentos jur\u00eddicos, em todos os pa\u00edses do mundo, sob orienta\u00e7\u00e3o dos Estados Unidos e dos organismos internacionais a seu servi\u00e7o, como FMI, OMC, Banco Mundial, para garantir a propriedade privada de bens da natureza. Ent\u00e3o, pela lei de patentes (aprovada em 1995), eles agora podem ser donos das sementes. Para isso fazem mudan\u00e7as gen\u00e9ticas e dizem que \u00e9 um novo ser vivo, transg\u00eanico, produzido em laborat\u00f3rio. Privatizaram as \u00e1guas. Seja nos len\u00e7\u00f3is fre\u00e1ticos, seja nas fontes naturais. Privatizaram o acesso aos min\u00e9rios.<\/p>\n<p>CM: As riquezas do subsolo do pa\u00eds, propriedade da popula\u00e7\u00e3o e que deveriam estar a servi\u00e7o do povo n\u00e3o escaparam desse processo de espolia\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O Brasil concedeu, nos \u00faltimos anos, sob a gest\u00e3o da velha Arena, que at\u00e9 hoje n\u00e3o largou a teta do Minist\u00e9rio de Minas e Energia, mais de oito mil licen\u00e7as de minera\u00e7\u00e3o no nosso subsolo para empresas privadas que deveriam estar a servi\u00e7o de todo povo. E agora, como voc\u00ea disse, est\u00e3o tentando privatizar o oxig\u00eanio produzido pelas florestas nativas. Medem pelo GPS a quantidade de oxig\u00eanio produzido pelas florestas, emitem um documento que estabelece certo valor e isso se converte em d\u00f3lares como cr\u00e9dito de carbono que \u00e9 vendido na Europa para as empresas poluidoras se justificar e assim continuarem poluindo. Aqui, no Brasil, at\u00e9 a empresa Natura est\u00e1 praticando isso.<\/p>\n<p>CM: Como agem as transnacionais dessa \u00e1rea no Brasil, hoje? <\/p>\n<p>Para se ter uma ideia, por outro lado, em termos de valores,  da crise mundial de 2008 para c\u00e1 entraram no Brasil mais de 200 bilh\u00f5es de d\u00f3lares que foram aplicados em recursos naturais. Somente no setor sucroalcoleiro, que era propriedade da tradicional burguesia nacional, agora apenas tr\u00eas empresas transnacionais (Cargill, ADM e Bungue) controlam mais de 50% de todo setor.<\/p>\n<p>CM: Muito importante voc\u00ea enfatizar estes temas: mudan\u00e7a de par\u00e2metros da agricultura no pa\u00eds e uma agricultura voltada para a produ\u00e7\u00e3o de alimentos. Quais os novos par\u00e2metros?<\/p>\n<p>Nossa an\u00e1lise coletiva considera que a organiza\u00e7\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o de alimentos e dos produtos agr\u00edcolas tem que estar submetida a outros par\u00e2metros. Os capitalistas, com seu modelo do agroneg\u00f3cio, fundam sua a\u00e7\u00e3o baseados apenas no paradigma da produ\u00e7\u00e3o de mercadorias para o mercado mundial, na busca incessante do lucro m\u00e1ximo, do aumento da produtividade do trabalho e da produtividade f\u00edsica de cada palmo de terra.<\/p>\n<p>N\u00f3s queremos reorganiz\u00e1-la baseada em outros par\u00e2metros. Baseados na hist\u00f3ria da civiliza\u00e7\u00e3o que sempre viu os alimentos como um bem &#8211; e n\u00e3o como mercadoria. Vis\u00e3o de que todos os seres humanos t\u00eam direito a se alimentar. Na produ\u00e7\u00e3o agr\u00edcola em equilibro com a natureza, e n\u00e3o contra ela. E, sobretudo, organizando a produ\u00e7\u00e3o para d\u00ea trabalho para as pessoas, para que  elas tenham renda e possam viver em boas condi\u00e7\u00f5es e felizes, no interior, sem cair na ilus\u00e3o de que somente ser\u00e3o felizes se vierem para a cidade grande. Cidade grande \u00e9 o inferno em vida para o campon\u00eas. Pois sobra para ele apenas a favela e a superexplora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>CM: Mas e a bancada ruralista, com tr\u00e2nsito livre nos pal\u00e1cios de Bras\u00edlia&#8230; e o agroneg\u00f3cio &#8211; n\u00e3o aceitam esses par\u00e2metros&#8230;<\/p>\n<p>Claro, eles s\u00e3o os porta-vozes da classe dominante. Os capitalistas, para manterem seus altos lucros no campo espoliam a natureza e expulsam o povo do interior e se protegem num estado burgu\u00eas, que \u00e9 o estado brasileiro. Protegem-se fazendo leis apenas para seus interesses, como fizeram nas mudan\u00e7as do c\u00f3digo florestal etc. Protegem-se com o seu poder judici\u00e1rio que \u00e9 o poder ainda mon\u00e1rquico, que inviabiliza as desapropria\u00e7\u00f5es para reforma agr\u00e1ria, que impede a legaliza\u00e7\u00e3o das terras ind\u00edgenas e de quilombolas, que impede inclusive as desapropria\u00e7\u00f5es das fazendas com trabalho escravo, como determina a Constitui\u00e7\u00e3o &#8211; mas que eles n\u00e3o cumprem.<\/p>\n<p>E tudo isso \u00e9 respaldado pela m\u00eddia televisiva, sobretudo a Globo, a Bandeirantes, SBT, que manipulam todos os dias o nosso povo para lhes dizer que o agroneg\u00f3cio \u00e9 a \u00fanica solu\u00e7\u00e3o. Que o agroneg\u00f3cio \u00e9 que sustenta o Brasil, quando \u00e9 justamente o contr\u00e1rio. A m\u00eddia \u00e9 a arma ideol\u00f3gica para proteger o agroneg\u00f3cio e seus lucros.<\/p>\n<p>CM: Como se dar\u00e1 a mudan\u00e7a do foco das a\u00e7\u00f5es, deslocado para o urbano? Como \u00e9 esta alian\u00e7a do MST com as cidades?<\/p>\n<p>O nosso programa de reforma agr\u00e1ria popular implica agora em envolver todo o povo, pois ela n\u00e3o interessa apenas aos sem-terra. E, portanto, temos que explicar ao povo, \u00e0 classe trabalhadora que a reforma agr\u00e1ria \u00e9 necess\u00e1ria para ele se alimentar melhor, de forma sadia, sem venenos. Que o programa de agroind\u00fastrias vai dar emprego, que universalizar a educa\u00e7\u00e3o no interior vai gerar milh\u00f5es de empregos para educadores etc.<\/p>\n<p>Esta alian\u00e7a vai se fazendo atrav\u00e9s da constru\u00e7\u00e3o de uma consci\u00eancia coletiva de todas as classes trabalhadoras. Por um plano de lutas conjunto que envolva a todos na luta por mudan\u00e7as sociais. E, sobretudo, num programa pol\u00edtico de mudan\u00e7as para o pa\u00eds que unifica todos os setores da classe trabalhadora da cidade e do campo.<\/p>\n<p>Tudo isso leva tempo, exige energias, mas \u00e9 o caminho para construirmos verdadeiras mudan\u00e7as na cidade e na agricultura. Para isso teremos que travar muitas batalhas, passar por muitos &#8220;ped\u00e1gios&#8221; que a classe dominante vai nos impor.<\/p>\n<p>CM: E as cidades? A cidade virou um grande neg\u00f3cio que alija os mais pobres cada vez mais para os seus confins. Mas como mudar isto? <\/p>\n<p>Os territ\u00f3rios urbanos, as cidades e suas periferias tamb\u00e9m est\u00e3o sendo vitimas desse modelo do grande capital que igualmente quer a renda extraordin\u00e1ria nas cidades, conquistada atrav\u00e9s da especula\u00e7\u00e3o sobre os pre\u00e7os dos pr\u00e9dios, dos terrenos, dos espa\u00e7os urbanos. A diferen\u00e7a entre o valor real de uma casa, de uma pra\u00e7a, de um pr\u00e9dio, e o pre\u00e7o de mercado, que eles imp\u00f5em, \u00e9 que representa a renda da qual eles se apropriam e que toda sociedade acaba pagando.<\/p>\n<p>Pior, os trabalhadores acabam sendo expulsos para as periferias de uma maneira permanente, e ali os transportes p\u00fablicos n\u00e3o chegam. Ou foram privatizados. Ou s\u00e3o car\u00edssimos. Por isso, a bandeira de luta de tarifa zero para os transportes p\u00fablicos em todas as grandes cidades \u00e9 mais do que justo e \u00e9 necess\u00e1ria.<\/p>\n<p>A par de tudo isso, como tem defendido nossa querida professora Erm\u00ednia Maricato, somente uma grande reforma urbana que devolva ao povo o direito de usar a sua cidade. As cidades foram usurpadas do povo, e agora pertencem apenas aos especuladores, aos bancos e \u00e0 ind\u00fastria automobil\u00edstica.<\/p>\n<p>CM: O mais recente governo do PT foi decepcionante?<\/p>\n<p>Os governos Lula e Dilma n\u00e3o foram governos do PT, nem da classe trabalhadora. Foram governos de composi\u00e7\u00e3o de classe, que gerou um programa de governo do neodesenvolvimentismo, que se propunha a fazer a economia crescer, distribuir renda e retomar o papel do estado suplantando o mercado (dos tempos do neoliberalismo). Nesse sentido eles cumpriram o programa, e nesse programa todas as classes ganharam um pouco, sendo que, como diz o pr\u00f3prio Lula, os banqueiros foram os que mais ganharam.<\/p>\n<p>Mas esse programa e essa composi\u00e7\u00e3o de classes, na opini\u00e3o dos movimentos sociais, bateram no teto. E agora j\u00e1 n\u00e3o conseguem mais resolver os problemas fundamentais do povo que ainda padece com falta de moradia digna, emprego qualificado, acesso \u00e0 universidade, e transporte p\u00fablico civilizado. As manifesta\u00e7\u00f5es do ano passado foram o sinal de que o modelo do neodesenvolvimentismo chegou ao seu limite.<\/p>\n<p>E como disse antes, espero que os setores organizados da classe trabalhadora construam um programa unit\u00e1rio de mudan\u00e7as, e retomem a iniciativa das mobiliza\u00e7\u00f5es de massa. Isso permitiria termos, no futuro, governos tamb\u00e9m populares, que possam fazer as mudan\u00e7as estruturais de que precisamos. Por ora, os movimentos sociais de todo pa\u00eds constru\u00edram uma unidade em torno da necessidade de uma reforma pol\u00edtica que devolva ao povo a soberania para escolher seus representantes.<\/p>\n<p>J\u00e1 que, no regime atual, as empresas sequestraram as elei\u00e7\u00f5es. Veja: segundo o TSE, em torno de 2262 empresas gastaram mais de 4,6 bilh\u00f5es de reais, nas \u00faltimas duas elei\u00e7\u00f5es sendo que 80% desses recursos foram de apenas 117 empresas. Ou seja, o novo col\u00e9gio eleitoral que decide quem deve ser eleito, s\u00e3o essas 117 empresas que usam o dinheiro para eleg\u00ea-los. Isso precisa mudar, para salvar uma democracia fr\u00e1gil e capenga. Ent\u00e3o, a necessidade urgente de uma reforma pol\u00edtica. Para tanto, ser\u00e1 necess\u00e1rio convocar uma assembl\u00e9ia constituinte soberana (na forma de ser eleita) exclusiva para essas mudan\u00e7as.<\/p>\n<p>CM: Mas a for\u00e7a do MST est\u00e1 intacta &#8211; ou n\u00e3o? Vinte mil trabalhadores foram protestar defronte do Planalto, dois meses atr\u00e1s. Acabaram sendo recebidos pela Presidenta Dilma.<\/p>\n<p>O MST \u00e9 uma pequena parcela do conjunto das for\u00e7as populares do povo brasileiro. N\u00f3s temos procurado nos manter unidos, resistindo \u00e0 avalanche do capital e mantendo nossos projetos de mudan\u00e7a. Outros setores da classe, influenciados pela pequena burguesia ou pela m\u00eddia, foram derrotados em seus projetos. Levamos nossos 15 mil militantes ao VI Congresso, como um espa\u00e7o de unidade e de celebra\u00e7\u00e3o de nossa m\u00edstica da mudan\u00e7a. Por isso, fomos recebidos pela Presidenta, e apresentamos nossas id\u00e9ias, sem ilus\u00f5es. As mudan\u00e7as n\u00e3o v\u00eam de pal\u00e1cios; v\u00eam das ruas e de um povo consciente e organizado; sempre foi assim na historia da humanidade. E n\u00f3s vamos seguir esse caminho.<\/p>\n<p>CM: Esta semana, dia 17 de abril, mais uma vez \u00e9 lembrada a data dos 18 anos do Massacre de Eldorado dos Caraj\u00e1s, quando 1500 trabalhadores sem terra foram brutalmente agredidos pela Pol\u00edcia Militar do Par\u00e1 e 18 deles cruelmente assassinados por agentes daquela PM. Como est\u00e1 a situa\u00e7\u00e3o do processo de puni\u00e7\u00e3o dos policiais que participaram da a\u00e7\u00e3o criminosa? Como o MST est\u00e1 agindo sobre o assunto? <\/p>\n<p>Nunca mais poderemos esquecer aquele  17 de abril de 1996, sendo presidente Fernando Henrique, quando a Pol\u00e1cia Militar do Par\u00e1, financiada pela empresa Vale, assassinou cruelmente 19 companheiros nossos. Posteriormente, outros dois vieram a falecer e h\u00e1 ainda at\u00e9 hoje 69 feridos, com sequelas graves.<\/p>\n<p>O processo judicial se arrasta at\u00e9 os nossos dias. Apenas os dois comandantes foram condenados a mais de 200 anos de pris\u00e3o. Por\u00e9m apelaram, e est\u00e3o em pris\u00e3o domiciliar num quartel da PM de Bel\u00e9m, em apartamentos com todas as regalias de oficiais. Tradicionalmente, todos os anos repetimos, no mesmo local, um grande acampamento com a nossa juventude do MST da regional amaz\u00f4nica, para que os nossos jovens n\u00e3o se esque\u00e7am, e ajudem a lutar por justi\u00e7a e por reforma agr\u00e1ria.<\/p>\n<p>Em todo Brasil vamos fazer manifesta\u00e7\u00f5es, cultos ecum\u00eanicos, e protestar perante o poder judici\u00e1rio, que protege descaradamente apenas os interesses dos ricos e fazendeiros do pa\u00eds. Entre as suas reformas estruturais, o Brasil precisa de uma reforma do judici\u00e1rio que democratize e coloque esse poder sob controle da sociedade. Haja visto como se comporta o imperador Joaquim Barbosa, com suas estripulias, megalomanias e di\u00e1rias em tempos de f\u00e9rias. Ainda bem que ele comprou um apartamento em Miami, e imagino que seu sonho \u00e9 ir morar l\u00e1&#8230;<\/p>\n<p>Em todo mundo, nos mais de cem pa\u00edses em que a Via Campesina est\u00e1 organizada haver\u00e1 manifesta\u00e7\u00f5es, pois esse dia 17 de abril foi declarado Dia Mundial da luta camponesa. E at\u00e9 aqui no Brasil, envergonhado, no \u00faltimo ano de seu governo, FHC assinou um decreto, declarando o dia 17 de abril, Dia Nacional de Luta pela Reforma Agr\u00e1ria. 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