{"id":1033271,"date":"2020-02-14T01:44:23","date_gmt":"2020-02-14T01:44:23","guid":{"rendered":"https:\/\/www.pressenza.com\/?p=1033271"},"modified":"2020-02-14T01:44:23","modified_gmt":"2020-02-14T01:44:23","slug":"o-desenvelhecimento-do-mundo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.pressenza.com\/pt-pt\/2020\/02\/o-desenvelhecimento-do-mundo\/","title":{"rendered":"O desenvelhecimento do mundo"},"content":{"rendered":"<p><em>Por<strong> Boaventura de Souza Santos<\/strong><\/em>\u00b9<\/p>\n<p>Na vida pessoal, o envelhecimento depende menos da idade fisiol\u00f3gica do que da idade social. A idade social \u00e9 inversamente proporcional \u00e0 capacidade de pensar, sentir e viver o novo como futuro, como tarefa, como presente por experimentar. \u00c9-se tanto mais jovem quanto maior \u00e9 a capacidade de viver a vida como se ela fosse uma experi\u00eancia de constantes recome\u00e7os que apontassem, n\u00e3o para repeti\u00e7\u00f5es do passado, mas antes para futuros \u2013 mapas por explorar e caminhos por trilhar com disponibilidade para enfrentar riscos, assumir ignor\u00e2ncias e responder a desafios novos. \u00c9 o futuro como antecipa\u00e7\u00e3o, como \u201cainda n\u00e3o\u201d, como lat\u00eancia, como pot\u00eancia. Como sabemos que nunca vivemos sen\u00e3o no presente, o futuro \u00e9 sempre o presente incompleto, o presente como tarefa, como acontecimento, pelo qual somos pessoalmente respons\u00e1veis. Ter futuro \u00e9 ser dono do presente. Pelo contr\u00e1rio, \u00e9-se tanto mais velho quanto mais se vive convencido de que o mundo j\u00e1 decidiu por n\u00f3s o que podemos esperar ou n\u00e3o esperar e que, consequentemente, o futuro est\u00e1 fechado para n\u00f3s. Envelhecer \u00e9, pois, viver de repeti\u00e7\u00e3o ou em repeti\u00e7\u00e3o como se cada repeti\u00e7\u00e3o fosse \u00fanica e irrepet\u00edvel. \u00c9 passar os dias como se fossem os dias a passar com a indiferen\u00e7a do passeio di\u00e1rio.<\/p>\n<p>S\u00e3o tr\u00eas os modos de viver de repeti\u00e7\u00e3o: como se o passado fosse um eterno presente e tanto as rotinas como as institui\u00e7\u00f5es e as not\u00edcias o confirmassem dia-a-dia (envelhecimento por morte viva); como se o passado tivesse passado e tivesse deixado no seu rasto um vazio inabarc\u00e1vel que s\u00f3 o jogo de cartas, a televis\u00e3o ou a conversa sobre doen\u00e7as pode iludir (envelhecimento por vida morta); ou, finalmente, como se tanto o passado como o futuro estivessem igualmente distantes e inacess\u00edveis, criando assim um p\u00e2nico insuper\u00e1vel que s\u00f3 o gasto excessivo do corpo no \u00e1lcool, nas drogas, na academia, na igreja ou na terapia pudesse iludir (envelhecimento por vida sem morte).<\/p>\n<p>Nas sociedades de corpos industrializados e informatizados em que vivemos foram criados servi\u00e7os p\u00fablicos e privados para dar assist\u00eancia \u00e0s pessoas que t\u00eam mais dificuldades com a repeti\u00e7\u00e3o da repeti\u00e7\u00e3o. No fundo, trata-se de normalizar a decad\u00eancia. Nestas sociedades o envelhecimento \u00e9 sempre o resultado de um esgotamento cr\u00f4nico de energias gastas ou por gastar. Consiste em p\u00f4r convictamente o letreiro de lota\u00e7\u00e3o esgotada \u00e0 porta do teatro da vida, mesmo que h\u00e1 muito se n\u00e3o represente nele uma pe\u00e7a, ou mesmo que nunca se tenha feito nele um primeiro ensaio. No caso das duas primeiras formas de envelhecimento, o objetivo \u00e9 investir no passado como se n\u00e3o tivesse passado. Consiste cada vez mais na comercializa\u00e7\u00e3o de servi\u00e7os de co-envelhecimento. S\u00e3o, em geral, eficazes porque a inven\u00e7\u00e3o da repeti\u00e7\u00e3o oculta astuciosamente a repeti\u00e7\u00e3o da inven\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A ideia b\u00e1sica \u00e9 que as experi\u00eancias de envelhecimento, por mais insuport\u00e1veis, s\u00e3o sempre mais suport\u00e1veis quando partilhadas. No caso da terceira forma de envelhecimento, em vez da omnipresen\u00e7a do passado, procura-se a omniaus\u00eancia do passado, um eterno presente que dispensa o futuro de ter de assombrar os vivos com as m\u00e1s not\u00edcias que ainda n\u00e3o s\u00e3o. S\u00e3o as t\u00e9cnicas de envelhecimento por rejuvenescimento. \u00c9 uma vers\u00e3o modificada da met\u00e1fora do filme \u201cThe Curious Case of Benjamin Button\u201d, baseado no conto de F. Scott Fitzgerald, no qual o protagonista nasce velho e vai rejuvenescendo \u00e0 medida que o tempo passa at\u00e9 morrer beb\u00e9. Nas t\u00e9cnicas de envelhecimento por rejuvenescimento o rel\u00f3gio da esta\u00e7\u00e3o de caminho de ferro da pequena cidade do sul dos EUA, em vez de andar para tr\u00e1s, p\u00e1ra, e com ele p\u00e1ra o tempo tamb\u00e9m.<\/p>\n<p>Como referi, a idade social n\u00e3o coincide com a idade fisiol\u00f3gica, mas a descoincid\u00eancia \u00e9 maior ou menor consoante os per\u00edodos hist\u00f3ricos, os contextos sociais e os factores colectivos que os caracterizam. O mesmo acontece com as sociedades. O mundo industrializado em que vivemos come\u00e7ou a envelhecer aceleradamente na d\u00e9cada de 1980. De repente, o futuro fechou-se, o novo senso comum de que n\u00e3o havia alternativa \u00e0 sociedade capitalista injusta, racista e sexista em que viv\u00edamos entrou nas nossas casas mais rapidamente do que qualquer pizza delivery ou ubereats, propagou-se pelos notici\u00e1rios, pelas redes sociais emergentes, pela sabedoria pronto-a-vestir da comentocracia.<\/p>\n<p>Novas experi\u00eancias e expectativas de vida coletiva estavam para sempre desacreditadas, o mundo era naturalmente injusto, os ricos eram ricos porque mereciam e os pobres eram pobres de tudo, mas sobretudo de ju\u00edzo, t\u00ednhamos de viver com a imperfei\u00e7\u00e3o, ainda que a pud\u00e9ssemos minorar substituindo a racionalidade dos mercados pela irracionalidade do estado \u00e0 custa do qual viviam os menos capazes de sobreviver numa sociedade competitiva. A Primeira Ministra da Inglaterra, Margaret Thatcher, decretou melhor que ningu\u00e9m a morte do futuro: \u201cThere is no Alternative\u201d, a c\u00e9lebre TINA. E Francis Fukuyama transformou essa morte no triunfo final da sociedade ocidental \u2013 \u201co fim da hist\u00f3ria\u201d \u2013 prevalecendo-se do fato de que Friedrich Hegel, estando morto desde 1831, n\u00e3o poderia insurgir-se contra t\u00e3o idiota interpreta\u00e7\u00e3o da sua filosofia da hist\u00f3ria. O cimento desarmado com a queda do Muro de Berlim foi-se rearmando em mil cemit\u00e9rios do futuro que se foram construindo em todo o mundo. E muitos foram necess\u00e1rios para enterrar tanto futuro.<\/p>\n<p>Este grande procedimento para envelhecer o mundo traduz-se hoje predominantemente na primeira forma de envelhecimento que referi acima, o envelhecimento por morte viva. Mas as duas outras formas de envelhecimento est\u00e3o igualmente presentes. O envelhecimento por vida morta \u00e9 a forma de envelhecimento preferida pelos fundamentalismos religiosos. Atuam sobre o vazio causado pelo passado e prometem faz\u00ea-lo renascer sob a forma de um futuro glorioso num outro mundo. Para os promotores deste envelhecimento, a vida que vivemos est\u00e1 morta e s\u00f3 pode ressuscitar quando os rel\u00f3gios da hist\u00f3ria come\u00e7arem a andar para tr\u00e1s ou quando todos, em un\u00edssono, come\u00e7arem a dar a hora derradeira da eternidade. N\u00e3o h\u00e1 responsabilidade social pela injusti\u00e7a. H\u00e1, sim, culpa por sofr\u00ea-la, e a \u00fanica solu\u00e7\u00e3o \u00e9 expi\u00e1-la.<\/p>\n<p>A terceira forma de envelhecimento (vida sem morte) \u00e9 a que domina na gera\u00e7\u00e3o dos millenials, a que nasceu no in\u00edcio do per\u00edodo em que o teatro do mundo fechava a cortina de um futuro diferente e melhor. Foi uma gera\u00e7\u00e3o condenada a nascer velha. Nasceram sem o passado do futuro porque a ideia da alternativa tinha entretanto desaparecido do horizonte. Por isso, nunca lhes ocorreu derrubar o sistema injusto que lhes roubava a esperan\u00e7a de um futuro diferente e melhor. O seu objetivo foi ter \u00eaxito pessoal dentro do sistema. Sacrificaram tempo, direitos, lazer e prazer na esperan\u00e7a de uma vit\u00f3ria que, para a grande maioria, nunca chegou. Queriam vencer o sistema, vencendo no sistema. Era isto que o sistema queria para mais eficazmente os vencer. Essa gera\u00e7\u00e3o \u00e9 hoje a que domina na terceira forma de envelhecimento (vida sem morte).<\/p>\n<p>A geopol\u00edtica das estrat\u00e9gias de envelhecimento merece uma an\u00e1lise mais detalhada que n\u00e3o cabe aqui fazer. Basta por agora ter em mente que nem o mundo envelheceu uniformemente, nem as formas de envelhecimento se distribu\u00edram por igual no planeta. Foi sobretudo no chamado norte global que, paradoxalmente, as pessoas passaram a querer viver mais tempo sem, no entanto, serem consideradas velhas. O que quero salientar neste momento \u00e9 que est\u00e3o a surgir sinais concludentes de que o processo de envelhecimento do mundo n\u00e3o \u00e9 irrevers\u00edvel. N\u00e3o se trata de rejuvenescer, o que, como referi acima, \u00e9 uma forma de enganar o envelhecimento.<\/p>\n<p>Trata-se antes de desenvelhecer, ou seja, de voltar a acreditar num futuro diferente e na capacidade para lutar por ele. Trata-se de rejeitar a repeti\u00e7\u00e3o infinita do presente porque tal repeti\u00e7\u00e3o est\u00e1 a conduzir-nos inexoravelmente para o abismo. Emerge uma vontade do novo que n\u00e3o seja uma barb\u00e1rie porque a barb\u00e1rie \u00e9 onde estamos j\u00e1. Por todo o mundo est\u00e3o a surgir levantes de pessoas de todas as idades fisiol\u00f3gicas porque, como disse, a diferen\u00e7a fisiol\u00f3gica n\u00e3o conta na perspectiva do envelhecimento ou desenvelhecimento do mundo. Presen\u00e7as coletivas de jovens e velhos enchendo as ruas e as pra\u00e7as p\u00fablicas do mundo contra a pol\u00edtica da repeti\u00e7\u00e3o e os pol\u00edticos repetidos, do Chile \u00e0 It\u00e1lia, do L\u00edbano \u00e0 \u00cdndia. S\u00e3o os novos insurgentes inconformados com a iminente cat\u00e1strofe ecol\u00f3gica, a concentra\u00e7\u00e3o escandalosa da riqueza, a captura das institui\u00e7\u00f5es democr\u00e1ticas por anti-democratas, a irracionalidade dos mercados ditos racionais, o roubo de propor\u00e7\u00f5es gigantescas da nossa privacidade e da nossa intimidade pelos novos robber-barons Google, Facebook, Amazon ou Alibaba, a indiferen\u00e7a grotesca pelo sofrimento de imigrantes e refugiados mortos no mar, na selva, no deserto ou depositados em campos de concentra\u00e7\u00e3o, como se Auschwitz fosse apenas uma mem\u00f3ria cruel, hoje superada pela vit\u00f3ria do bem sobre o mal.<\/p>\n<p>As for\u00e7as pol\u00edticas de direita, que sempre se alimentaram do envelhecimento do mundo, clamam assustadas contra o que designam como desaforo, como se n\u00e3o fosse desaforo tudo o que levou os novos jovens e os novos velhos a decidir virem para a rua desenvelhecer. As mesmas for\u00e7as argumentam que n\u00e3o h\u00e1 propostas, ou seja, repeti\u00e7\u00f5es, as \u00fanicas novidades que reconhecem. Mas a verdade \u00e9 que h\u00e1 propostas. Da \u00cdndia ao Chile, as for\u00e7as repressivas e os partidos pol\u00edticos confrontam-se com a indigna\u00e7\u00e3o dos desenvelhecidos contra a letra morta de tanta constitui\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Confrontam-se com propostas de assembleias constituintes populares plurinacionais. Confrontam-se com propostas de transportes p\u00fablicos eficientes e gratuitos como exerc\u00edcio da economia de cuidado para com a natureza. Mas confrontam-se, sobretudo, com a celebra\u00e7\u00e3o da diversidade nacional, cultural, religiosa, sexual, com a procura de zonas libertadas de capitalismo, colonialismo e patriarcado, com a busca de formas de economia comunit\u00e1ria camponesa, ind\u00edgena, familiar, feminista, cooperativa.<\/p>\n<p>Na medida em que o mundo desenvelhecer, os poderes que produziram o envelhecimento do mundo e fizeram dele a ind\u00fastria da sua eterniza\u00e7\u00e3o v\u00e3o ser cada vez mais confrontados com o desaforo causado pelo seu desaforo. Ir\u00e3o envelhecer?<\/p>\n<hr \/>\n<p>\u00b9 Soci\u00f3logo, diretor do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Boaventura de Souza Santos\u00b9 Na vida pessoal, o envelhecimento depende menos da idade fisiol\u00f3gica do que da idade social. 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