{"id":1006848,"date":"2020-01-07T00:14:10","date_gmt":"2020-01-07T00:14:10","guid":{"rendered":"https:\/\/www.pressenza.com\/?p=1006848"},"modified":"2020-01-07T00:15:07","modified_gmt":"2020-01-07T00:15:07","slug":"a-era-dos-coletivos-de-solidao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.pressenza.com\/pt-pt\/2020\/01\/a-era-dos-coletivos-de-solidao\/","title":{"rendered":"A Era dos Coletivos de Solid\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p><em>Por<strong>\u00a0Boaventura de Sousa Santos<\/strong><\/em><\/p>\n<p><strong>A domina\u00e7\u00e3o social deste s\u00e9culo s\u00f3 sobreviver\u00e1 se criar novos sujeitos. Sociedades, onde os diferentes se relacionam, precisam ser reduzidas a massas inertes de indiv\u00edduos-dados. Esta distopia \u00e9, tamb\u00e9m, o calcanhar de aquiles do projeto<\/strong><\/p>\n<p>A combina\u00e7\u00e3o t\u00f3xica entre capitalismo, colonialismo e patriarcado que caracteriza este in\u00edcio de s\u00e9culo, longe de ser apenas uma domina\u00e7\u00e3o tric\u00e9fala particularmente virulenta nos modos de explora\u00e7\u00e3o e de discrimina\u00e7\u00e3o que privilegia, est\u00e1 assumindo a dimens\u00e3o de um novo modelo civilizat\u00f3rio, uma nova era que, muito al\u00e9m de desfigurar as institui\u00e7\u00f5es, as representa\u00e7\u00f5es e as ideologias preexistentes, prop\u00f5e-se criar novas subjetividades para quem o novo modelo \u00e9 o \u00fanico modo imagin\u00e1vel de vida. \u00c9 um processo em constru\u00e7\u00e3o e obviamente s\u00f3 se consolidar\u00e1 se n\u00e3o houver resist\u00eancia eficaz. Para que tal resist\u00eancia ocorra \u00e9 necess\u00e1rio fazer um diagn\u00f3stico radical do que est\u00e1 em causa. Como qualquer outro processo hist\u00f3rico, tem uma longa e sinuosa evolu\u00e7\u00e3o. Sendo uma evolu\u00e7\u00e3o civilizacional, contou com cumplicidades de for\u00e7as ideol\u00f3gica e politicamente muito d\u00edspares. Foram essas coniv\u00eancias que tornaram poss\u00edvel o consenso de que o processo era irrevers\u00edvel e n\u00e3o havia alternativa.<\/p>\n<p>Podemos ver hoje as principais fases por que foi avan\u00e7ando. A primeira fase consistiu numa cr\u00edtica radical do Estado e na afirma\u00e7\u00e3o da sociedade civil como \u00fanica fonte de virtude e de efic\u00e1cia. A sociedade civil forte, que antes era a outra face do Estado democraticamente forte, passou a ser o oposto do Estado forte e, por isso, s\u00f3 poss\u00edvel se o Estado fosse fraco. Numa segunda fase, uma vez neutralizado o Estado, a sociedade passou a ser questionada em nome da autonomia do indiv\u00edduo. Ou seja, come\u00e7ou por virar a sociedade contra o Estado para depois virar o indiv\u00edduo aut\u00f4nomo contra a sociedade. Mas a autonomia que proclama \u00e9 uma autonomia uberizada, isto \u00e9, a autonomia de indiv\u00edduos que n\u00e3o t\u00eam condi\u00e7\u00f5es para ser aut\u00f4nomos. A autonomia da auto-escravatura.<\/p>\n<p>O objetivo deste modelo civilizacional \u00e9 substituir o conceito de responsabilidade social pelo conceito de culpa. Os problemas que isso pode suscitar n\u00e3o s\u00e3o problemas pol\u00edticos. S\u00e3o problemas de pol\u00edcia ou de terapia. Estamos \u00e0s portas de uma era n\u00e3o relacional em que os atributos que definem grupos de popula\u00e7\u00e3o s\u00e3o naturalizados e separados entre si de modo a n\u00e3o ser vis\u00edvel a rela\u00e7\u00e3o que h\u00e1 entre eles. Criam-se assim segrega\u00e7\u00f5es que n\u00e3o se tomam como tal e antes parecem o resultado natural de diferen\u00e7as que n\u00e3o suscitam outro sentimento que n\u00e3o o da indiferen\u00e7a.\u00a0 Assim, diferen\u00e7as e hierarquias, que at\u00e9 h\u00e1 pouco eram consideradas chocantes e revoltantes, tendem hoje a ser percebidas como triviais e at\u00e9 aceit\u00e1veis porque express\u00e3o de caracter\u00edsticas inatas em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s quais a sociedade pouco pode fazer. Por exemplo, a concentra\u00e7\u00e3o da riqueza aumentou escandalosamente nas \u00faltimas quatro d\u00e9cadas e a ostenta\u00e7\u00e3o da riqueza convive indiferentemente com a mais abjeta pobreza. Por sua vez, as discrimina\u00e7\u00f5es por motivos raciais, sexuais, religiosos ou outros ganham crescente aceita\u00e7\u00e3o entre p\u00fablicos insens\u00edveis \u00e0s lutas dos movimentos anti-racistas, anti-sexistas, anti-homof\u00f3bicos, anti-fundamentalistas, os mesmos p\u00fablicos que est\u00e3o sempre dispon\u00edveis para ignorar ativamente as conquistas contra a discrimina\u00e7\u00e3o que esses movimentos t\u00eam obtido. Assim, quem \u00e9 rico merece ser rico porque tem as qualidades para o ser, tal como quem \u00e9 pobre merece ser pobre por n\u00e3o ter as qualidades necess\u00e1rias para deixar de o ser. Na constru\u00e7\u00e3o deste modelo civilizat\u00f3rio est\u00e3o envolvidos v\u00e1rios processos. Muitos dos quais parecem nada ter a ver com ele.<\/p>\n<p><em>1. Do conhecimento \u00e0 informa\u00e7\u00e3o.\u00a0<\/em>O novo modelo civilizat\u00f3rio assenta na produ\u00e7\u00e3o aparentemente ilimitada de informa\u00e7\u00e3o e na confus\u00e3o entre informa\u00e7\u00e3o e conhecimento. \u00c9 cada vez mais comum a ideia de que vivemos numa sociedade de informa\u00e7\u00e3o. A abund\u00e2ncia de informa\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 um bem incondicional. Lembremos que em caso de inunda\u00e7\u00e3o o recurso mais escasso \u00e9 \u00e1gua pot\u00e1vel. Semelhantemente, vivemos hoje inundados por informa\u00e7\u00e3o, mas carecemos cada vez mais de informa\u00e7\u00e3o pot\u00e1vel, isto \u00e9, confi\u00e1vel. Por outro lado, informa\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 conhecimento (qualquer que seja o tipo de conhecimento). A informa\u00e7\u00e3o fornece dados, enquanto o conhecimento visa compreender ou explicar a origem, o significado e as implica\u00e7\u00f5es dos dados. A informa\u00e7\u00e3o \u00e9 o presente simultaneamente eterno e ef\u00eamero, enquanto o conhecimento \u00e9 a ponte entre o passado, o presente e o futuro. Estas diferen\u00e7as tornam-se cada vez menos evidentes quando, para sonho de uns e pesadelo de outros, parece pr\u00f3ximo o tempo em que um supercomputador desvendar\u00e1 o segredo da vida e do universo ao prever a estrutura tridimensional das prote\u00ednas em todas as suas (infinitas) sequ\u00eancias. E, n\u00e3o por acaso, a mais poderosa biom\u00e1quina, um \u00edcone exemplar da intelig\u00eancia artificial, chama-se Mente Profunda (deep mind) e os seus processos designam-se como tecnologia de aprendizagem profunda. A verdade \u00e9 que, mesmo que tal seja poss\u00edvel, a m\u00e1quina nunca poder\u00e1 explicar ou entender os resultados a que chegar. Mas para o novo modelo civilizat\u00f3rio o significado dos dados est\u00e1 cada vez mais reduzido \u00e0 utilidade econ\u00f4mica que eles possam ter para quem os detenha.<\/p>\n<p><em>2. Das rela\u00e7\u00f5es sociais aos dados.<\/em> A confus\u00e3o entre conhecimento e informa\u00e7\u00e3o \u00e9 fundamental para ocultar ou trivializar as rela\u00e7\u00f5es sociais e as desigualdades de poder que est\u00e3o por detr\u00e1s dos dados. As formas de domina\u00e7\u00e3o modernas reproduzem-se por via da extra\u00e7\u00e3o de recursos assente em rela\u00e7\u00f5es de poder desigual que tornam poss\u00edveis decis\u00f5es unilaterais e a apropria\u00e7\u00e3o indevida de valor. Historicamente, essa extra\u00e7\u00e3o teve duas formas principais: os recursos naturais (a explora\u00e7\u00e3o da natureza) e os recursos humanos (de que o trabalho escravo \u00e9 a forma mais brutal). Hoje, a estas duas formas juntam-se uma terceira: a extra\u00e7\u00e3o de dados. Esta extra\u00e7\u00e3o \u00e9 cada vez mais massiva em fun\u00e7\u00e3o da imensa agrega\u00e7\u00e3o de dados tornada poss\u00edvel pelas novas tecnologias de informa\u00e7\u00e3o e comunica\u00e7\u00e3o, os\u00a0big data. Ali\u00e1s, a obten\u00e7\u00e3o destes dados tem a mesma designa\u00e7\u00e3o que o extrativismo mineiro: escava\u00e7\u00e3o de dados (data digging). O pr\u00f3prio termo \u201cdados\u201d cont\u00e9m em si toda a ambival\u00eancia da armadilha digital. Os dados s\u00e3o efetivamente roubados; mas, depois de manipulados e vendidos a utilizadores comerciais ou pol\u00edticos, s\u00e3o devolvidos ao p\u00fablico como sendo oferecidos e, de fato, propriedade comum. O pa\u00eds com o maior n\u00famero de utilizadores do facebook \u00e9 a \u00cdndia, mas os centros de dados obtidos por este meio est\u00e3o localizados nos EUA, na Europa e em Singapura. A apropria\u00e7\u00e3o do valor dos dados est\u00e1 concentrada numa empresa, mas quem \u00e9 que se sente ao servi\u00e7o de uma empresa quando o uso, a entrada e a sa\u00edda da empresa s\u00e3o livres?<\/p>\n<p>A manipula\u00e7\u00e3o destes dados por parte das grandes empresas de comunica\u00e7\u00e3o eletr\u00f4nica \u00e9 a grande respons\u00e1vel pela progressiva substitui\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es sociais pelos dados enquanto explica\u00e7\u00e3o, fundamento, sentido e valoriza\u00e7\u00e3o da vida coletiva. Os dados s\u00e3o obtidos por instrumentos tecnol\u00f3gicos cujos par\u00e2metros e crit\u00e9rios n\u00e3o s\u00e3o do dom\u00ednio p\u00fablico por estarem protegidos por patentes. Esta opacidade \u00e9 a condi\u00e7\u00e3o essencial da suposta transpar\u00eancia dos dados e, portanto, da sua utiliza\u00e7\u00e3o aparentemente neutra. A sociedade m\u00e9trica em que estamos a entrar visa transformar o car\u00e1ter relacional da vida social em desempenhos individuais quantificados e sem outra rela\u00e7\u00e3o entre si sen\u00e3o as diferen\u00e7as num\u00e9ricas e as agrega\u00e7\u00f5es que s\u00e3o feitas a partir delas. Tudo o que n\u00e3o \u00e9 quantific\u00e1vel \u00e9 desqualificado mesmo que seja a felicidade ou sentido da vida e da morte.<\/p>\n<p><em>3. Da pol\u00edtica \u00e0 pol\u00edcia e \u00e0 terapia.\u00a0<\/em>As rela\u00e7\u00f5es sociais e as desigualdades de poder que podem explicar os dados deixam de ser vis\u00edveis e relevantes enquanto causas. S\u00e3o tratadas quando muito como consequ\u00eancias. Os conflitos que fatalmente geram s\u00e3o despolitizados. Passam a ser assunto de pol\u00edcia e nisso consiste a criminaliza\u00e7\u00e3o crescente do protesto social. Em alternativa, s\u00e3o temas para terapia contra a depress\u00e3o, a aliena\u00e7\u00e3o, a fadiga cr\u00f4nica, o impulso suicid\u00e1rio. A terapia permite que indiv\u00edduos solit\u00e1rios n\u00e3o se sintam s\u00f3s. Fazem parte de comunidades imaginadas de consumidores de ansiol\u00edticos, de \u00e1lcool, de drogas, de medicinas alternativas, de academias de prontid\u00e3o f\u00edsica, de medita\u00e7\u00e3o. S\u00e3o coletivos de partilha de destino sem esperan\u00e7a ou cuja esperan\u00e7a reside em perder o medo de viver sem ela.<\/p>\n<p><em>4. Das redes \u00e0 solid\u00e3o coletiva.<\/em>\u00a0Os\u00a0big data\u00a0n\u00e3o visam individualmente os indiv\u00edduos (passe o pleonasmo); visam coletivos homog\u00eaneos de indiv\u00edduos, organizados invisivelmente segundo os seus gostos de consumo, de pol\u00edtica ou de religi\u00e3o. Desta forma, os\u00a0big data\u00a0permitem combinar a m\u00e1xima personaliza\u00e7\u00e3o com a m\u00e1xima massifica\u00e7\u00e3o. Os indiv\u00edduos, longe se sentirem s\u00f3s ou isolados, sentem-se auto-escolhidos por grupos mais ou menos vastos com quem n\u00e3o t\u00eam outras rela\u00e7\u00f5es sen\u00e3o as que a internet permite. As redes sociais s\u00e3o a express\u00e3o mais acabada da nova solid\u00e3o, a perten\u00e7a superficial, seletiva, isenta de compromissos extra-comunicacionais a colecivos cada vez mais organizados pelo mercado comercial, pol\u00edtico ou religioso dos\u00a0big data. Claro que as redes sociais tamb\u00e9m permitem intensificar a comunica\u00e7\u00e3o que come\u00e7ou por ser f\u00edsica e presencial, mas do ponto de vista dos\u00a0big data\u00a0a \u00fanica dimens\u00e3o comunicacional que conta \u00e9 a digital. E \u00e9 mesmo crucial que entre o indiv\u00edduo massivamente personalizado e o objeto de consumo n\u00e3o existam intermedi\u00e1rios. O indiv\u00edduo tem \u00e0 sua disposi\u00e7\u00e3o um mundo que considera feito por si, apesar de ter sido feito por outros, e que pensa ser seu, apesar de ser propriedade, muitas vezes patenteada, de outros.<\/p>\n<p><em>5.\u00a0Do pensamento cr\u00edtico \u00e0 peritagem.\u00a0<\/em>O estudo cr\u00edtico, livre e independente das assimetrias sociais n\u00e3o \u00e9 bem-vindo neste mundo da sociedade m\u00e9trica. Os dados s\u00e3o \u201ctratados\u201d por especialistas que aparentemente n\u00e3o t\u00eam nenhuma lealdade ou prefer\u00eancia sen\u00e3o a que se espelha nos dados. S\u00e3o considerados objetivos por serem tidos por neutros e n\u00e3o por serem conhecidos os crit\u00e9rios e os m\u00e9todos que mobilizam as suas an\u00e1lises. Enquanto no caso do liberalismo cient\u00edfico a neutralidade (que, de fato, nunca existiu) era o resultado da aplica\u00e7\u00e3o de metodologias que garantiam a objetividade, na a\u00e7\u00e3o dos especialistas a objetividade \u00e9 o resultado da suposta neutralidade. O especialista \u00e9 o juiz sempre parcial na farsa da imparcialidade da era n\u00e3o-relacional.<\/p>\n<p>Este tipo de especializa\u00e7\u00e3o \u00e9 um h\u00edbrido entre informa\u00e7\u00e3o e conhecimento, e traduz-se em an\u00e1lises e relat\u00f3rios preparados por encomenda de quem tem interesse em que os dados sustentem certas conclus\u00f5es, e n\u00e3o outras. Este h\u00edbrido dificilmente pode ser produzido nas universidades e centros de investiga\u00e7\u00e3o, pelo menos enquanto umas e outros se pautarem pelo princ\u00edpio de que o valor do conhecimento nunca \u00e9 redut\u00edvel ao valor de mercado que possa ter ou n\u00e3o ter. N\u00e3o admira, pois, que a a\u00e7\u00e3o dos especialistas seja cada vez mais um monop\u00f3lio de empresas de consultoria. Estas empresas nunca podem oferecer conclus\u00f5es desconfortantes para os clientes e nunca podem prever os piores cen\u00e1rios sob pena de os seus pr\u00f3prios acionistas as desertarem. Foi por isso que nenhuma dela previu a crise financeira de 2008 nem prever\u00e1 qualquer crise futura. Na era dos coletivos de solid\u00e3o, a consultoria \u00e9 a voz dos poderes que criam os coletivos e o silenciamento dos indiv\u00edduos coletivamente solit\u00e1rios.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por\u00a0Boaventura de Sousa Santos A domina\u00e7\u00e3o social deste s\u00e9culo s\u00f3 sobreviver\u00e1 se criar novos sujeitos. Sociedades, onde os diferentes se relacionam, precisam ser reduzidas a massas inertes de indiv\u00edduos-dados. 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