OPINIÃO

Por Luiz Carlos Rena e Flávio Martins da Silva

A inteligência artificial generativa (IA) já faz parte do nosso cotidiano e deverá ocupar um lugar ainda mais importante nas eleições de 2026.

Seu potencial para produzir textos, imagens, áudios e vídeos cada vez mais convincentes abre possibilidades extraordinárias, mas também traz um desafio fundamental para a democracia: como distinguir a realidade da manipulação?

Esse é um dos grandes desafios que teremos de enfrentar durante o processo eleitoral. Não se trata apenas do risco de produção de notícias falsas. A inteligência artificial pode transformar profundamente a propaganda política, a disputa pela atenção dos eleitores e a própria capacidade de cada cidadão de avaliar criticamente aquilo que vê, ouve e compartilha.

Afinal, o que é inteligência artificial? Para muitas pessoas, a expressão inteligência artificial ainda parece distante ou difícil de compreender. Uma explicação simples ajuda a aproximá-la do cotidiano. A IA pode ser entendida como um sistema computacional capaz de trabalhar com enormes quantidades de dados e articulá-los para produzir determinados resultados a partir de comandos humanos. Dependendo da ferramenta, ela pode gerar textos, imagens, vídeos, áudios e outros conteúdos. O problema começa quando essa capacidade tecnológica é utilizada para produzir conteúdos que parecem reais, mas não são. A tecnologia, no entanto, não é neutra, pois empresas que as desenvolvem têm interesses comerciais e por vezes até ideológicos. Além disso, o impacto do uso dessas ferramentas depende dos interesses e das finalidades de quem a utiliza e dos vieses presentes nos bancos de dados que as alimentam. 

A relação entre inteligência artificial e verdade é particularmente preocupante no contexto eleitoral. A política sempre conviveu com exageros, manipulações e diferentes formas de propaganda. O conceito de pós-verdade, por exemplo, expressa situações em que fatos são apresentados de maneira exagerada ou manipulada para favorecer determinada ideia, pessoa ou grupo. Num contexto de pós-verdade, fatos objetivos e evidências (inclusive científicas) interessam menos que as emoções e crenças pessoais movimentadas por uma narrativa. `

A inteligência artificial acrescenta uma nova dimensão a esse problema. Ela não destrói necessariamente a verdade, mas pode saturar o ambiente em que o debate sobre a verdade acontece.

É tanta informação, tanto conteúdo produzido e tanta possibilidade de manipulação que o cidadão pode ter dificuldade para identificar o que é verdadeiro, falso, exagerado ou simplesmente uma opinião. As imagens merecem atenção especial. Um vídeo produzido ou alterado por inteligência artificial pode apresentar uma pessoa dizendo algo que nunca disse ou fazendo algo que nunca fez. Com o avanço dessas tecnologias, a diferença entre o real e o artificial pode se tornar cada vez mais difícil de perceber. E quando o falso se torna visualmente indistinguível do verdadeiro, o debate público fica seriamente comprometido.

Outro ponto importante é distinguir fake news de desinformação. Uma notícia falsa pode ser simplesmente um boato ou uma mentira que, após uma verificação cuidadosa, pode ser facilmente desmentida. A desinformação, por sua vez, pode ser muito mais sofisticada. Ela pode envolver ações coordenadas, intencionais e organizadas para enganar um grande número de pessoas. E há uma característica particularmente perigosa: a desinformação frequentemente contém elementos verdadeiros. É justamente essa combinação que torna a manipulação tão eficiente. Imagine, por exemplo, uma informação verdadeira sobre uma determinada pessoa pública à qual se acrescenta uma informação falsa. O conteúdo falso ganha credibilidade porque está associado a um fato real. A consequência é a erosão da confiança. Aos poucos, o cidadão deixa de saber onde termina a verdade e começa a mentira.

As eleições são um momento privilegiado de debate público. É quando candidatos apresentam propostas, defendem ideias e procuram conquistar a confiança dos eleitores. Nesse contexto, a inteligência artificial pode tanto contribuir para a comunicação política quanto ser utilizada para manipular o eleitorado. Em debates ao vivo, por exemplo, existe menor possibilidade de alteração daquilo que foi efetivamente dito. Já conteúdos gravados, editados e posteriormente distribuídos podem sofrer diferentes formas de manipulação. Uma edição pode retirar uma fala de seu contexto, esconder uma informação importante ou criar uma combinação de imagens e sons que dê ao espectador a impressão de que determinada coisa aconteceu quando, na realidade, não aconteceu.

Por isso, a qualidade do debate eleitoral não dependerá apenas daquilo que os candidatos dizem, mas também da qualidade das informações que chegam ao cidadão. Diante desse cenário, não basta esperar que as instituições públicas criem regras. É fundamental desenvolver uma cultura de verificação das informações.

Cada cidadão precisa aprender a desconfiar, verificar e comparar. Uma mensagem recebida pelo WhatsApp, uma publicação no Instagram ou TikTok, um vídeo no YouTube ou uma informação exibida na televisão não deve ser automaticamente considerada verdadeira apenas porque parece convincente. Antes de compartilhar, é necessário fazer algumas perguntas: Quem produziu essa informação? De onde ela veio? Existe outra fonte confirmando o conteúdo? A imagem ou o vídeo pode ter sido manipulado? Qual é a intenção de quem está divulgando essa mensagem? Esse cuidado é especialmente importante durante as campanhas eleitorais, quando a disputa política aumenta a circulação de conteúdos destinados a convencer, emocionar e mobilizar os eleitores.

As instituições eleitorais também têm um papel fundamental nesse processo. O Tribunal Superior Eleitoral vem estabelecendo regras para o uso da inteligência artificial nas eleições, inclusive mecanismos destinados a identificar conteúdos produzidos ou modificados por essas tecnologias. Mas nenhuma regulamentação será suficiente se não houver uma população preparada para reconhecer os riscos da manipulação digital. A democracia depende não apenas do direito de votar, mas também do direito de receber informações confiáveis para poder escolher livremente. Por isso, educação midiática, educação digital e educação em direitos humanos tornam-se cada vez mais 

Há uma diferença importante entre desenvolver uma postura crítica e simplesmente desconfiar de tudo.

Não se trata de acreditar que toda informação é falsa. Trata-se de compreender que, em uma sociedade marcada pela circulação acelerada de informações, não podemos compartilhar automaticamente aquilo que recebemos. A dúvida pode ser uma ferramenta de cidadania. Se uma notícia parece absurda, emocionante demais, perfeita demais ou especialmente dirigida contra determinado candidato, vale a pena parar e verificar. A tecnologia que permite criar uma imagem falsa também pode ser utilizada para produzir conteúdos educativos, ampliar o acesso à informação e fortalecer a comunicação democrática. O problema não está apenas na tecnologia, mas no uso que fazemos dela.

As eleições de 2026 colocam diante de nós uma responsabilidade coletiva. Candidatos, partidos, meios de comunicação, plataformas digitais, instituições públicas e cidadãos têm responsabilidades diferentes, mas complementares. Ao eleitor cabe também uma tarefa simples e poderosa: não colaborar com a mentira. Podemos apoiar candidatos, defender ideias, participar da disputa política e tentar convencer outras pessoas. Mas precisamos nos recusar a espalhar imagens falsas, vídeos manipulados e informações que não foram verificadas. O direito de votar pressupõe liberdade de escolha. E não existe escolha verdadeiramente livre quando o cidadão é deliberadamente enganado.

Por isso, diante dos desafios impostos pela inteligência artificial, defender a democracia significa também defender o direito à informação, o direito à verdade e o direito de não ser manipulado. Nas eleições que se aproximam, talvez uma das maiores demonstrações de responsabilidade cidadã seja justamente esta: antes de clicar em “compartilhar”, parar, desconfiar e verificar. Porque, em tempos de inteligência artificial, pensar antes de compartilhar também é um ato político.