TEATRO
Por Marrom Glacê
Famoso conto de Clarice Lispector chega aos palcos cariocas numa criação cênica realizada por Ana Hartmann, que produz, encena o solo e assina a direção com Joana Medeiros
Quem passa pela orla do Leme e vê a estátua de Clarice Lispector (1920-1977) homenageando a ilustre moradora pode não saber, mas nem sempre a zona sul carioca foi o lar da escritora no Rio de Janeiro. Dentre tantas moradas na capital fluminense, a Tijuca foi um dos bairros que primeiro acolheu a escritora ucraniana, e é por lá, mais especificamente no Teatro Ziembinski, que no dia 4 de setembro, às 20h, estreia uma rápida temporada de “O Ovo e a Galinha”. O espetáculo inédito é encenado e produzido por Ana Hartmann que, com Joana Medeiros, divide a direção cênica para o enigmático texto publicado em 1964 na coletânea “A Legião Estrangeira”.
Transpondo o famoso conto de Clarice para os palcos, que parte da observação filosófica de uma mulher sobre um ovo na mesa da cozinha, o espetáculo passou por alguns formatos até chegar ao atual. Da performance realizada por Joana pela primeira vez em 2017, passando pela sua encenação na programação do Thursday Night Live , do Instituto Het Nieuwe, da Holanda – com direito a apresentação em Roterdam – em 2019, ano em que também aconteceu a entrada de Ana nos estudos sobre o texto e indo até o ensaio aberto no Teat(r)o Oficina Uzyna Uzona, em São Paulo, já com Ana como atriz da peça, o espetáculo chega ao Rio de Janeiro em sua forma definitiva.
“Partimos de um acontecimento real, a leitura do texto que Clarice fez em 1975, durante o Primeiro Simpósio de Bruxaria de Bogotá, na Colômbia. A partir daí, tínhamos um lugar, uma personagem e uma ação muito clara: alguém tentando contar ao outro uma experiência pessoal tão profundamente transformadora que desestabiliza a própria noção de realidade. Mas como convidar o público a participar dessa metamorfose? Porque ‘o ovo’ é isso, é descobrir que tudo é uma coisa só. Como transformar uma conclusão tão vasta e tão abstrata em algo concreto, que possa ser vivido no teatro?”, pondera Ana Hartmann, que enfrenta o desafio de dar vida à escritora e suas múltiplas facetas.
A resposta foi transformar esse fluxo de consciência na personagem Clarice e materializar os diferentes estados de sua consciência: a alucinação, a nudez, o silêncio, a euforia e o desespero diante do inefável. Ao longo de sua vida e durante a sua obra, a escritora demonstrou curiosidade e fascinação sobre a vida interior das galinhas, além da capacidade de epifania diante de objetos cotidianos. Tendo a personagem e um fluxo de consciência, surgiu a dramaturgia. Para isso, a montagem contou ainda com os recursos da iluminação, som e elementos que foram surgindo ao longo da pesquisa, como o theremin, um instrumento de sonoridade quase fantasmagórica, capaz de criar uma atmosfera espectral.
“Incorporamos também documentos e materiais de arquivo daquele simpósio em Bogotá, além de uma cenografia que ancora toda essa experiência em uma realidade concreta”, complementa Ana, que observa os caminhos da provocação de Lispector indo sempre além. “Ela não vai apenas no sentido do ovo, de Deus, mas também do cotidiano e de coisas tão importantes como o amor. Sua visão sobre o amor é uma provocação, por exemplo, que nos inquietou todo esse tempo. Ela nos convida, portanto, a olhar para nossa própria performatividade no amor e como chegar na maior simplicidade das coisas”, analisa.
Para quem conhece o conto, um adendo importante: ele não foi mudado em nada para a encenação e é apresentado na íntegra, o que, para Ana, é um dos grandes prazeres da peça. “Mudar o texto seria fazê-lo vir até nós. E o barato dessa peça é a gente ir em direção ao texto. Quem já conhece o conto talvez encontre a surpresa da audácia de vê-lo encenado. Mas, mais do que isso, encontrará o prazer de compartilhar esse deslumbramento com outras pessoas. Acho que quem chega ao fim de ‘O ovo e a galinha’ não consegue escapar do seu magnetismo. Já quem nunca o leu pode esperar ser provocado e reencontrar o deslumbramento diante da vida, do teatro e suas possibilidades infinitas. E, talvez, descobrir uma Clarice diferente daquela que imaginava, porque este espetáculo parte de uma experiência muito pouco convencional. Ele propõe uma nova maneira de perceber a consciência e de experimentar a realidade”, finaliza Ana Hartmann.
FICHA TÉCNICA
Dramaturgia: Clarice Lispector, Joana Medeiros e Ana Hartmann
Direção: Joana Medeiros e Ana Hartmann
Produção Executiva: Ana Hartmann, Cian Klein, Lucas Andrade e Pedro Uchoa
Assistente de Direção: Victor Rosa
Direção de Arte: Marília Pirajú
Direção de Som: Adriano Salhab
Iluminação: Victoria Pedrosa
Projeção e Video-mapping: Ciça Lucchesi
Figurino: Felipe Samorano
Kino-atuador: Luz Barbosa
Músico em Cena: Jefferson Placido
Ponto: Ana Cantanhede
Mídias Sociais: Pedro Martins Comunicação – Ana Cantanhede, Pedro Martins, Ciça Lucchesi e Luz Barbosa
Assessoria de Imprensa: Marrom Glacê Comunicação – Gisele Machado e Bruno Morais
Design: Ciça Lucchesi
SERVIÇO
“O OVO E A GALINHA”
Temporada: 04 a 27 de setembro de 2026
Horário: Sexta-feira e Sábado, às 20h; Domingo, às 19h
Ingressos: R$ 35 (meia-entrada) / R$ 70 (inteira)
Link de Compra do Ingresso: https://bileto.sympla.com.br/event/124168/d/401085/s/2631909?share_id=1-
Local: Teatro Ziembinski
Endereço: Av. Heitor Beltrão, s/nº – Tijuca – Rio de Janeiro
Classificação Indicativa: 14 anos
Duração: 60 minutos
Instagram: @ovoeagalinha
Contato: producaooovoeagalinha@gmail.com







