OPINIÃO
Por Luiz Carlos Castelo Branco Rena e Francisco Machado Viana
Vivemos um tempo em que a informação circula com uma velocidade jamais experimentada pela humanidade.
Com um telefone celular na mão, qualquer pessoa pode produzir, compartilhar e fazer uma mensagem chegar, em poucos segundos, a centenas ou milhares de outras pessoas. Essa transformação trouxe novas possibilidades para a comunicação, mas também criou desafios enormes para a democracia, os direitos humanos e a própria convivência social.
Entre esses desafios está o fenômeno das chamadas fake news, expressão em inglês utilizada para designar notícias falsas ou informações manipuladas apresentadas como verdadeiras. Embora a mentira, o boato, a fofoca e o “disse-me-disse” sejam antigos conhecidos da humanidade, há algo novo e particularmente preocupante: a capacidade de disseminação dessas informações pelas redes digitais.
A mentira não é nova. A velocidade, sim. A notícia falsa não nasceu com a internet. Boatos, fofocas, acusações sem fundamento e informações inventadas sempre fizeram parte da vida social. A diferença fundamental está na escala e na velocidade. Ao longo da história brasileira, existem episódios em que informações falsas ou precipitadas provocaram consequências graves. Entre os exemplos lembrados no debate está o caso da Escola Base, em São
Paulo, quando proprietários e funcionários de uma escola foram acusados de abusos sexuais contra crianças. A repercussão das acusações produziu um verdadeiro linchamento moral e quase físico dos envolvidos. Posteriormente, as investigações não encontraram provas que sustentassem as acusações. O episódio tornou-se um dos exemplos mais conhecidos dos perigos da divulgação irresponsável de informações antes que os fatos sejam devidamente apurados.
Hoje, entretanto, a dimensão do problema é ainda maior. A televisão, o rádio e os jornais possuem mecanismos próprios de produção e distribuição da informação. Nas redes sociais, qualquer pessoa pode se transformar simultaneamente em produtora, distribuidora e consumidora de conteúdos. O celular está permanentemente conosco. Está no trabalho, na escola, na sala de casa, no transporte público e até no banheiro. WhatsApp, Facebook, Instagram, TikTok e outras plataformas passaram a ocupar um lugar central na maneira como milhões de pessoas se informam.
Um dos aspectos mais preocupantes da disseminação das fake news é que muitas vezes acreditamos na informação não porque verificamos sua veracidade, mas porque ela chega através de alguém em quem confiamos. Uma mensagem enviada por um amigo, uma irmã, um pai, uma mãe, um colega de trabalho ou alguém da comunidade pode receber imediatamente um selo informal de credibilidade: “se foi ele que mandou, deve ser verdade”. É justamente nesse ponto que a desinformação encontra terreno fértil. A confiança afetiva pode substituir a análise crítica. Em vez de perguntar de onde veio a informação, quem produziu aquele conteúdo, qual é sua fonte ou se outros veículos confirmam o fato, simplesmente compartilhamos. É necessário recuperar uma atitude fundamental diante da informação: duvidar antes de compartilhar. Perguntar não significa desconfiar de todas as pessoas. Significa exercer nossa autonomia e nossa responsabilidade como cidadãos.
A política contemporânea também passou a disputar intensamente os afetos das pessoas. Informações falsas não precisam necessariamente convencer alguém por meio de argumentos racionais. Muitas vezes, seu objetivo é provocar medo, raiva, indignação, ódio, esperança ou entusiasmo. Uma vez mobilizada a emoção, torna-se mais difícil analisar criticamente a informação recebida. É nesse ambiente que a desinformação pode interferir diretamente
nos processos eleitorais. Uma imagem manipulada, um áudio falso, um vídeo produzido artificialmente ou uma fala retirada de contexto podem modificar a percepção de milhares de eleitores.
A inteligência artificial acrescenta uma nova camada de complexidade ao problema. Atualmente, já é possível produzir imagens, vozes e vídeos extremamente convincentes de pessoas dizendo coisas que jamais disseram ou fazendo coisas que nunca fizeram. O eleitor poderá estar diante de um conteúdo aparentemente verdadeiro sem ter condições imediatas de identificar sua falsidade. O processo eleitoral é um momento especialmente sensível para a circulação de informações falsas. Afinal, a escolha dos representantes políticos depende, entre outras coisas, da capacidade de cada cidadão de formar sua opinião a partir de informações confiáveis. A desinformação pode atingir candidatos, partidos, instituições, políticas públicas e até o próprio sistema democrático. Por isso, defender o direito à informação verdadeira é também defender o direito de escolha.Não existe voto verdadeiramente livre quando o eleitor é deliberadamente submetido a uma realidade fabricada.
O problema se torna ainda mais complexo quando conteúdos falsos são produzidos ou potencializados por tecnologias de inteligência artificial. A Justiça Eleitoral terá diante de si o desafio de acompanhar uma transformação tecnológica que acontece em velocidade muito maior do que a capacidade de criação de mecanismos de controle e fiscalização. Isso exige não apenas legislação e fiscalização, mas também educação para a cidadania digital.
Diante de um problema dessa dimensão, é comum pensar que a responsabilidade pertence exclusivamente às plataformas digitais, aos governos ou à Justiça Eleitoral. Todos eles possuem responsabilidades importantes. Mas nós também temos. A primeira atitude é simples: não compartilhar imediatamente aquilo que recebemos. Antes de encaminhar uma mensagem, precisamos perguntar:
- Quem produziu essa informação?
- Qual é a fonte?
- Outros veículos confiáveis divulgaram o mesmo fato?
- A informação é atual ou está sendo retirada de outro contexto?
- A imagem ou o vídeo pode ter sido manipulado?
- A mensagem procura informar ou provocar uma reação emocional?
- Existe algum interesse político, econômico ou ideológico por trás daquele conteúdo?
A checagem tornou-se uma responsabilidade cidadã. Também precisamos aprender a denunciar conteúdos comprovadamente falsos e utilizar os mecanismos disponíveis para isso. As redes sociais, a imprensa profissional e os órgãos públicos possuem instrumentos que podem ser acionados diante de situações de desinformação. Mais do que isso: precisamos utilizar as próprias redes para fazer circular informação de qualidade. Se uma pessoa possui centenas de contatos e cada uma dessas pessoas possui outras centenas, uma informação correta também pode alcançar rapidamente milhares de cidadãos. A mesma rede utilizada para espalhar a mentira pode ser utilizada para fortalecer a verdade.
Outro aspecto importante do debate é a utilização do discurso religioso para dar aparência de legitimidade a informações falsas. A religião ocupa um lugar profundo na vida de milhões de pessoas. Por isso, uma mensagem acompanhada de referências religiosas pode adquirir uma força emocional ainda maior. É preciso, entretanto, separar fé de manipulação. Nenhuma pessoa se torna automaticamente portadora da verdade simplesmente porque fala em nome de Deus, da Bíblia, da Igreja ou de qualquer tradição religiosa. A autoridade religiosa não deve substituir a capacidade de reflexão. A história mostra que discursos religiosos também podem ser utilizados para manipular, humilhar, excluir e produzir medo. Por isso, independentemente da religião, da igreja ou da tradição espiritual, é necessário manter o exercício da crítica e da responsabilidade diante daquilo que ouvimos e compartilhamos.
O problema das fake news não é apenas político ou eleitoral. Ele pode ter consequências concretas sobre a vida e a morte das pessoas. A experiência da pandemia de Covid-19 mostrou como informações falsas relacionadas à saúde podem produzir consequências extremamente graves. Boatos e conteúdos enganosos sobre vacinas, tratamentos e medidas de prevenção circularam intensamente pelas redes sociais. Quando uma mentira é apresentada como verdade e milhões de pessoas acreditam nela, as consequências deixam de ser virtuais. A desinformação pode levar alguém a abandonar um tratamento, rejeitar uma vacina, acreditar em uma teoria conspiratória, atacar outra pessoa ou tomar decisões que colocam sua própria vida e a de outras pessoas em
risco. Por isso, combater as fake news é também uma questão de saúde pública, de proteção da vida e de defesa dos direitos humanos.
A democracia precisa de cidadãos capazes de pensar por conta própria. Isso não significa que todos tenham de concordar sobre política, religião ou qualquer outro assunto. Pelo contrário. A democracia pressupõe divergências, conflitos de ideias e diferentes visões de mundo. O que não podemos aceitar é que o debate público seja construído deliberadamente sobre mentiras. O direito à informação está diretamente relacionado à possibilidade de cada pessoa exercer sua cidadania com liberdade. Sem informações confiáveis, a autonomia fica comprometida. Sem autonomia, a liberdade de escolha se enfraquece. Por isso, defender o direito à verdade não significa defender uma verdade única determinada por alguém. Significa defender o direito de cada cidadão de buscar informações, confrontar fontes, questionar versões, reconhecer manipulações e construir sua própria posição de maneira consciente. No ambiente digital, cada cidadão tornou-se também responsável pelo que ajuda a colocar em circulação.
A pergunta, portanto, deveria acompanhar cada mensagem que recebemos: isso é verdadeiro? E, antes de apertar o botão “compartilhar”, talvez devêssemos fazer uma segunda pergunta, ainda mais importante: Que consequências essa informação poderá produzir na vida de outras pessoas? Combater as fake news começa justamente aí: na responsabilidade de cada um de nós. Porque democracia não se sustenta apenas na liberdade de votar. Ela depende também da liberdade de pensar, de questionar e de decidir a partir de informações que possam ser confiáveis. Defender o direito à verdade é, portanto, defender o direito de ter direitos.







