NOTA PRETA
Por Mauro Viana
Nasci em uma família de sindicalistas onde a injustiça social e o racismo eram temas de nossas conversas cotidianas.
Levei essas e outras questões para a graduação das Faculdades Integradas de Comunicação Hélio Alonso, no bairro de Botafogo, nos anos 1980.
No mesmo período, o Movimento Negro Unificado (MNU), o Instituto de Pesquisas das Culturas Negras (IPCN) e a Associação de Moradores da Saúde qualificaram meu discurso, à luz do pensamento de Foucault (1996). Para o autor, “o discurso não é simplesmente aquilo que traduz as lutas ou os sistemas de dominação, mas aquilo pelo que se luta, o poder de queremos nos apoderar”.
Essa nova etapa do movimento pela posse simbólica da Pedra do Sal, por parte da comunidade negra do bairro da Saúde, Região Portuária do Rio de Janeiro, data de 11 de maio de 2000.
São 25 anos de Sal do Samba: Movimento dos Povos Bantu e Jeje-Nagô pela retomada da Pedra do Sal. Esse e outros movimentos de mobilização dos moradores da Região Portuária são passagens históricas pouco estudadas em vários campos do conhecimento acadêmico.
Desta feita, o levante comunitário contra a instalação do Museu Guggenheim na Praça Mauá, em 1998, carece de investigação científica.
Naquele período, por exemplo, a importação do Museu Guggenheim de Nova Iorque, inaugurado em 1937, para o Rio de Janeiro, integrava o plano urbanístico do economista César Maia. Um dos mais longevos prefeitos do Rio de Janeiro, Cesar Maia ficou no cargo por 12 anos.
A resistência dos moradores da Pequena África, a partir de 2008, ao Consórcio Porto Maravilha, por exemplo, encontra respaldo no pensamento da Professora Raquel Paiva:
Em primeiro momento como proposta para discussão, ao observarmos as representações culturais e midiáticas da região portuária do Rio de Janeiro que hoje vivencia o projeto urbano Porto Maravilha nos deparamos com um paradigma.
De um lado, a comunidade portuária com sua herança artística e fluxos, que se organiza e se comunica organicamente; de outro, a tentativa do capital, representado por corporações, empresários, poder público e grande mídia, que tentam de todas as formas organizar e formatar o local ao seu modo, para que assim possam implantar diferentes interesses, em uma espécie de mercantilização que se tem na região. (CURI, PAIVA, 2016, p. 59)
Decidido a ocupar esse lapso histórico e a escrever sobre o Movimento Sal do Samba, retornei aos bancos acadêmicos. No ano de 2010, o Laboratório de Estudos em Comunicação Comunitária da Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (LECC/ECO/UFRJ) foi a porta pela qual acessei a Universidade Federal do Rio de Janeiro.
Vários cursos de extensão, seminários, congressos e participação como aluno ouvinte em disciplinas diversas, na própria UFRJ e, em outras universidades depois, retomei as leituras acadêmicas em 2018. Desta vez, direto no Grupo de Estudos Muniz Sodré sobre Relações Étnicos Raciais (GEMS).
No GEMS, estudei algumas obras do próprio Muniz Sodré, além de Raquel Paiva, Aimé Césaire, Cheikh Anta Diop, Sueli Carneiro, Cida Bento, Lélia Gonzalez, Beatriz Nascimento, Grada Kilomba e um vasto número de autoras e autores do Brasil e do mundo. Essa vivência acadêmica promoveu uma inflexão no meu cotidiano profissional, pessoal e político-social.
Toda essa base epistêmica, adquirida no GEMS, encaminhou-me para outros fóruns, como por exemplo, o da Articulação pela Mídia Negra da Comissão de Jornalistas Negros do Sindicato de Jornalistas de São Paulo Cojira/SP).A Articulação
A Articulação Negra contra o Fascismo da Cor
A Articulação pela Mídia Negra é composta por 55 organizações lideradas por jornalistas e comunicadores de grupos sub-representados de todo o Brasil, entre veículos, empresas de comunicação, entidades e coletivos de produção e difusão de notícias que dizem respeito à comunidade negra e à promoção da igualdade racial na mídia. A Articulação nasceu em novembro de 2022 com missão específica: fomentar a elaboração de políticas públicas voltadas à igualdade racial na mídia.
A exemplo do GEMS, um dos temas que atravessa os caminhos da Articulação pela Mídia Negra e a vida da maioria dos integrantes do grupo, no campo da Comunicação é o fascismo da cor: De um lado, o fenômeno (racismo) reflete um aspecto do turbo capitalismo financeiro que enfatiza a preocupação corporativa com a redefinição da “ambiência” social (desde a preservação física do meio ambiente até as barreiras de cor e de gênero). De outro, um giro os direcionamentos epistemológicos centrados nas coordenadas espaciais do Estado-nação. (SODRÉ, 2023).
Na luta antirracista, o entrelaçamento dos saberes comunitários com os saberes acadêmicos e os saberes forjadas na militância produzem olhares negros, uma vez que “a prática de amar a negritude é um ato de resistência”. (HOOKS, 2019)
Por esta razão, o presente artigo propõe a revisitar a recente história da Pedra do Sal por meio do “Sal do Samba”, movimento de preservação, atualização e expansão das culturas dos povos Bantu e Jejê-Nagô da Região Portuária do Rio de Janeiro.
A importância de reativar os olhares Bantu e Jêje-Nagô aponta para uma constante ameaça de gentrificação do território conhecido como Pequena África. Nesse sentido emergem algumas questões. A primeira delas é o apagamento da resistência dos moradores da Pequena África, a partir de 2008, ao Consórcio Porto Maravilha. Afinal, são raros os registros sobre a mobilização dos moradores da Região Portuária contra a “revitalização” neoliberal da Região Portuária.
Cabe ressaltar que os registros sobre os movimentos populares contrários à reforma urbana da Região Portuária ficaram restritos às assembleias de grupos organizados da Pequena África. Economicamente, a mídia se agregou ao chamado projeto Porto Maravilha, apelido do consórcio de empresas privadas.
Na outra ponta da trama, a questão que se apresenta é a natureza das pesquisas, de várias áreas do conhecimento, como História, Economia, Direito, Comunicação, Sociologia, Antropologia.
Na esteira do sucesso do empreendimento público-privado, os bancos de dados acadêmicos estão repletos de pesquisas científicas sobre o renascimento da Pedra do Sal, a partir de 2011. O marco inicial é unânime: Porto Maravilha. Em quase sua totalidade, o Movimento Sal do Samba não figura nas monografias, dissertações e teses no período entre o ano 2000 e o ano de 2015.
Como a história se repete, muitas vezes, o tempo todo; o consórcio público-privado construiu uma historiografia da Zona Portuária carioca, a partir da primeira década dos anos 2000, conforme as lições do chamado city-marketing. Na abordagem mercadológica do planejamento urbano, o city marketing é um “mecanismo institucional de promoção e venda das cidades” (SÁNCHEZ, 1994, p. 298).
Os Movimentos Sociais pela preservação do sagrado da Pedra do Sal
Dos anos 1990 até os anos 2000, a Região Portuária viveu o auge do abandono governamental em todas as três instâncias. Nos gabinetes de alguns parlamentares, no entanto, ocorria o debate em torno da futura revitalização do Porto, a exemplo da cidade de Barcelona, na Espanha.
Nesse contexto, o então Presidente da Associação de Moradores da Saúde, Damião Braga, e sua diretoria decidiram seguir os ensinamentos de Tia Ciata, Tia Perciliana, Heitor dos Prazeres, Pixinguinha, João da Baiana e Donga. No período histórico que vai de 1910 a 1940, eles representavam os povos Bantu e Jêje-Nagô na função política de guardiões da Pedra do Sal. Nos anos 1980, o compositor portelense Wilson Moreira, parceiro do compositor e pesquisador Nei Lopes, e sua mulher, a produtora Ângela Nenzi, retomaram a responsabilidade de preservar o sagrado da Pedra do Sal. Em 20 de novembro de 1984 aconteceu o tombamento da Pedra do Sal.Embora tombado, a história do monumento seguia em adiantado processo de apagamento. O contexto político nos induzia a suspeitar das discussões, em torno do futuro Porto Maravilha.
Como política pública, o debate ao redor do consórcio público-privado, desnudava um eventual plano de soterramento da história dos povos Bantu, Jêje-Nagô da Pequena África. Não por acaso, no ano 2000, esses mesmos povos, por meio da Associação de Moradores da Saúde, plantaram na Pedra do Sal o “Sal do Samba”: Movimento dos Povos Bantu, Jêje-Nagô pela preservação simbólica do sagrado da Pedra do Sal. As reuniões de elaboração e formulação da campanha política, em defesa da Pequena África aconteciam, no então Centro Cultural José Bonifácio, atual Museu da Cultura e História Afro-brasileira (Muhcab) cuja edificação experimentou anos de nulidade.
O Jornalista Mauro Viana e a Produtora Cultural Maria Lucia Luzia assinam a autoria do projeto comunitário SAL DO SAMBA: Movimento dos Povos Bantu e Jêje-Nagô Pela Preservação Simbólica do Sagrado da Pedra do Sal.
A ideia do movimento comunitário saiu do papel e se instalou no bairro da Saúde no dia 11 de maio do ano 2000. Era um belo domingo de sol quando as novas gerações de Bantu e de, Jêje-Nagô, receberam o título de guardiãs da Pedra do Sal do Século XXI.
Naquele momento, o principal objetivo era denunciar, por meio da “reagregação social” (LATOUR, 2012), o abandono da Pequena África como tática política. A Pedra do Sal retomava os princípios estruturantes de religiosidades matriciais africanas (THEODORO, 1998).
Para quê? Para se afirmar como tecnologia político-social dos povos Bantu e Jêje-Nagô. Essa produção de conhecimento ancorada nos saberes ancestrais primava em preservar o patrimônio material e imaterial do território. Em síntese, o Movimento Sal do Samba, no ano 2000, se projetou sobre as identidades forjadas, na pós-colonialidade (HALL, 2013).
Na primeira década do século XXI, portanto, essas identidades reagregadas na Pedra do Sal foram retransmitidas aos compositores e compositoras do projeto Samba na Fonte. De fato, o grupo de poetas do samba recebeu a missão de operar como guardião da Pedra do Sal, a partir do ano de 2010. Na sequência, o Samba na Fonte repassa o título de guardião da Pedra do Sal ao grupo Batuque na Cozinha que animava as segundas-feiras da Pequena África.
Nesse sentido, busco responder, por meio deste artigo aos questionamentos teóricos de problemas demandados pelas recorrentes tentativas de silenciamento histórico das organizações políticas da comunidade negra da Pequena África, na perspectiva de transversalidades e imbricamentos das relações sociais, de classe e raça, especificamente na cena da cultura do samba carioca. Nessa direção, a importância do Movimento Sal do Samba reside no fato da ação comunitária ter se constituído, entre os anos 2000 e 2008, como tribuna de problematizações frente ao projeto neoliberal de abandono da Região Portuária, e em particular, da Pedra do Sal, no bairro da Saúde. Acredita-se, portanto, que fragmentos teóricos poderão se delinear, conforme o andamento da pesquisa.
Como metodologia, entrevistas semiestruturadas on-line e a chamada pesquisa ação junto aos atores das comunidades da Pedra do Sal mais a reunião e a catalogação do acervo da situação de pesquisa.
Esse caminho metodológico nos assegura uma trajetória profícua rumo à emergência de diferentes abordagens em estudos das culturas Bantu e Jeje-Nagô. No epicentro deste conjunto de saberes, emergem as estratégias políticas e militares pela preservação de diferentes identidades oriundas do continente africano, amalgamadas na Pequena África.
Associação Quilombo Pedra do Sal
Por esta razão, a prioridade foi o levantamento bibliográfico, a partir de três eixos de investigação:
1) construir representações da diáspora da Pedra do Sal;
2) conceber e estudar formulações que mesclam samba, raça e classe;
3) compreender o samba como dispositivo político da Pedra do Sal.
O quarto momento foi a pesquisa documental no acervo da Associação de Moradores da Saúde (AMS) e, nos arquivos digitais da Organização Não Governamental Comunidades Catalisadoras (Comcat) cujo apoio consistia em fazer transmissões simultâneas das edições mensais do Sal do Samba.
Estão, ainda no caminho da pesquisa, os bancos de imagens dos fotógrafos Maurício Hora, Jorge Ferreira, Carlos Junior e Ierê Ferreira. As edições do Jornal Inverta e as peças institucionais completam o quadro de reconstituição do recente movimento da Pedra do Sal.
Em andamento estão os relatórios analíticos acerca dos embates culturais, a fim de produzir dados categóricos para fins reflexivos.
Na etapa final, aplicabilidade das fundamentações teóricas. Nesse sentido, coloco-me à disposição para aprender novos marcos e referenciais teóricos que possam me fazer compreender melhor o campo e o(a)sujeito(a)s de pesquisa.
Aderente à produção do Professor Muniz Sodré, e da Professora Raquel Paiva, a pesquisa se articula com as formulações sobre a História Social do Samba. Nesse quesito, as contribuições do Professor Joel Rufino, do pesquisador Nei Lopes, do jornalista Rubens Confete, do sociólogo, Carlos Moura e do professor Carlos Nobre, da Professora Helena Theodoro, e dos Professores Paulo Cesár de Oliveira, Vinícius Natal, Mauro Cordeiro são imprescindíveis.
Operante, mas não totalizante, a ideologia racista não resistirá às contradições implícitas na cultura popular.
Alinhado à defesa da cultura popular como local estratégico de contestação (HALL, 2013), o trabalho aposta na rasura da cultura do samba de mercado para elaborar uma plataforma cujas bases antirracistas dialoguem com os estudos pós-coloniais de pensadora(e)s, brasileira(e)s e estrangeira(e)s.
Por esse ângulo, o Sal do Samba, como movimento comunitário fomentou a recuperação de estratégias de luta, conforme os saberes políticos antirracistas da histórica militância de personalidades como Tia Ciata, Tia Perciliana, Pixinguinha, João da Baiana, Sinhô e Heitor dos Prazeres, Entre os 1910 e 1940 do século XX, a civilização Jêje-Nagô institui a Pedra do Sal como monumento sagrado para a diáspora africana.
Não por acaso, a Pequena África, amargou o abandono governamental em todas as instâncias: municipal, estadual e federal. O descaso das autoridades pela riqueza histórica da Pequena África aguçou a revolta de artistas voluntários que formavam o Sal do Samba.
A lista vai da cantora Adriana Passos, do Grupo Panela Di Barro, Julieta Brandão, Tia Surica, à filósofa Helena Theodoro. A Escola de Samba Vizinha Faladeira, o compositor Djalminha da Providência, a Ekede Maria Moura, o compositor e cantor Cláudio Camunguelo, o sindicalista Elias José, o jornalista e cineasta Délcio Teobaldo, o pesquisador Haroldo Costa, o cantor Aroldo Melodia, a jornalista Geisa Keti, a compositora, cantora e ativista Tia Rosa, a bisneta de Tia Ciata, Gracy Mary, o produtor cultural, Mauro Souza Santos, Mestre de Capoeira, Arerê, o pesquisador Hiram Araújo, o jornalista Rubem Confete, a cantora Beth Carvalho, a partideira, Márcia Moura, o produtor Renato Radical, e a matriarca Dona Eunice. entre várias outras pessoas e organizações.
É bom lembrar que diversos desses nomes também militavam na Associação de Moradores da Saúde. Nesse sentido, o grupo de ativistas utilizou o Movimento Sal do Samba como base argumentativa no processo de fundação da Associação Quilombo Pedra do Sal, ArqPedra, no ano de 2004.
Em 2014, o reconhecimento oficial do Quilombo Pedra do Sal: O estudo sobre a Pequena África e suas relações com o Movimento Sal do Samba revela a importância de manter vivas a história e as culturas Bantu e Jeje-Nagô.
Como o risco de apagamento, causado pela gentrificação, é um desafio para as políticas culturais e urbanas, é imprescindível que haja esforços coletivos para garantir que essas culturas sejam preservadas e valorizadas, promovendo não apenas o reconhecimento histórico, mas também a justiça social para as comunidades que carregam essas identidades.
Considerações Finais
Por essa razão, este artigo busca contribuir para a ativação da história recente da Pedra do Sal, como monumento histórico carioca, enfatizando o protagonismo das diferentes etnias, provenientes do continente africano na construção simbólica do samba. Ao articular-se com os estudos de Muniz Sodré, Raquel Paiva, Stuart Hall e outros intelectuais das epistemologias decoloniais, este trabalho pretende expandir o debate sobre a miscigenação entre as etnias africanas em solo carioca.
Além disso, reitera-se a necessidade de políticas públicas que comuniquem a contribuição de diferentes culturas africanas na formação da identidade da cidade do Rio de Janeiro. Trata-se de medida de contenção do processo de gentrificação e mercantilização como tecnologias de apagamento da história do território.
Com efeito, o Sal do Samba se insere nesse contexto como um movimento de (re)existência, buscando ressignificar as identidades culturais da Pequena África, em meio às transformações urbanas e sociais.
Dessa forma, reafirma-se a importância do Movimento Sal do Samba como expressão da hegemonia dos saberes comunitários herdados dos povos Bantu e Jeje-Nagô. em um contexto de constantes disputas simbólicas e materiais na construção de subjetividades.







