NOTA PRETA
Por Mauro Viana
O pesquisador nos explica porque MACUMBA É SAMBA E O SAMBA É MACUMBA nos caminhos narrativos da Unidos de Vila Isabel
Sou Gustavo da Silva Vicente dos Santos, pesquisador em Comunicação, mestre e doutorando pelo PPGCOM/Uerj, onde desenvolvo pesquisas voltadas às relações entre comunicação, escolas de samba e narrativas negras. Nascido e criado no subúrbio do Rio de Janeiro, mais precisamente em Turiaçú/Madureira, carrego em minha trajetória a ancestralidade afro-brasileira, sem contar que as experiências vividas no subúrbio da cidade atravessam minha formação humana, política e intelectual.
Filho de uma mãe psicóloga, que foi a primeira da família a ir para o ensino superior, (Valdicéa Maria) e neto de uma cozinheira de profissão (Jorgita da Silva) cresci cercado pelas narrativas familiares, pela força das mulheres e pelas memórias transmitidas entre essas gerações. Daí surgiu a grande paixão pelo universo das escolas de samba do Rio.
Católico de batismo, durante a infância e a adolescência, desenvolvi essa forte relação com os sambas-enredo, a multiplicidade da religiosidade popular, o carnaval e ao longo do tempo fui conhecendo ainda mais expressões culturais negras. Todos esses elementos mais tarde se tornariam centrais na minha trajetória acadêmica.
Meu interesse pela pesquisa surge justamente da inquietação diante das disputas de memória, identidade e representação presentes nas mídias e nos espaços culturais brasileiros.
Atualmente, minhas investigações dialogam com temas como colonialidade, comunicação, religião e cultura afro-diaspórica. Tudo isso buscando compreender como os Enredos-afro da década de 2020 do carnaval carioca são exemplos de uma luta anti epistemicídio da cultura preta, capazes de produzir sentidos, resistências e novas narrativas que ressignificam o papel do negro como protagonista no ato de contar as suas próprias histórias no espaço público contemporâneo.
De todos os tons, a Vila negra é!
Resumo: A partir da controvérsia gerada pela fala de Paulo Barros sobre enredos-afro no carnaval carioca de 2025, este estudo interpreta a relação entre a lógica da colonialidade e o epistemicídio negro. Por meio de revisão bibliográfica, o estudo articula o pensamento de Sueli Carneiro (2023) para discutir o apagamento e a desqualificação dos saberes afro-brasileiros nas mais variadas esferas do cotidiano. Em contraponto, destaca-se o papel das escolas de samba do Rio de Janeiro como espaços de resistência cultural, capazes de mobilizar símbolos, memórias e identidades negras. A partir dessas disputas ficam evidenciadas as tensões persistentes na valorização das narrativas afro-brasileiras no campo das artes carnavalescas.
Ao longo de quase um século de existência, os desfiles oficiais de escolas de samba do Rio de Janeiro se consolidaram como uma fonte de expressão artística, política e cultural. No entanto, a disputa em torno da representação de narrativas afro-brasileiras continua sendo um ponto de tensão na dinâmica da festa. Às vésperas do carnaval de 2025, o então carnavalesco da Unidos de Vila Isabel, Paulo Barros – um dos principais nomes da arte carnavalesca contemporânea – afirmou que desfiles com temática africana “são todos iguais” e que “ninguém entende nada”3.
O artista deu tal declaração dentro de um cenário em que dez das doze agremiações do grupo especial do carnaval carioca de 2025 desfilaram com enredos ligados à cultura afro-brasileira. Comandada por Barros, a Vila Isabel era uma das duas escolas a não abordar tal temática. Após a repercussão negativa de sua entrevista, Paulo Barros foi demitido da agremiação, e, no carnaval de 2026, pela primeira vez não trabalhou em nenhuma escola do carnaval carioca desde sua estreia, em 2004.
Para 2026, a Vila Isabel trouxe o enredo “Macumbembê, Samborembá: Sonhei que Um Sambista Sonhou a África!”, contando a história do multiartista Heitor dos Prazeres. O samba-enredo da escola contava com os versos “De todos os tons, a Vila negra é!” e “Macumba é samba e o samba é macumba”, que podem inclusive ser interpretados como “respostas” ao ex-carnavalesco.
Por meio de revisão bibliográfica, o estudo pretende explicitar a colonialidade da fala de Paulo Barros relacionando-a com o epistemicídio negro (CARNEIRO, 2023) ao englobar o espectro cultural afro-brasileiro em “uma única caixa”, chancelando as variadas narrativas negras como incompreensíveis. Ao mesmo tempo, pretende-se debater que as escolas de samba, quando estão em comunhão com seu povo, mobilizam símbolos e memórias coletivas que ajudam a consolidar uma identidade local manifestada na valorização do samba enquanto símbolo de resistência, cultura popular e expressão de identidade negra (VIANNA, 1995).
Ao afirmar que os enredos-afro no carnaval carioca são “todos iguais” e que “ninguém entende nada”, o carnavalesco Paulo Barros expressa, de forma consciente ou não, uma epistemologia marcada pelo apagamento das heranças culturais africanas no Brasil. Ao simplificar e estereotipar tais temáticas como incompreensíveis, o artista reforça a lógica que Sueli Carneiro denuncia no que diz respeito ao epistemicídio negro no país: algo que “para além da anulação e desqualificação do conhecimento dos povos subjugados (…) implica em um processo persistente de produção da indigência cultural” (2023, p.88).
Essa negação simbólica da possibilidade do negro ser reconhecido como um sujeito provedor de conhecimento se mostra um processo contínuo que desqualifica os saberes africanos e afro-brasileiros, negando-lhes o acesso à educação de qualidade e produzindo assim a inferiorização intelectual e cultural do negro. Dessa forma, a estrutura de poder se consolida no exercício do controle sobre os corpos e mentes negras, sequestrando também a autoestima desse sujeito, que passa a acreditar que é inferior ao branco em todos os aspectos possíveis. Isso pode ser encarado como um ciclo, onde se normaliza a inferioridade racial, impedindo o florescimento genuíno de novas intelectualidades negras.







