OPINIÃO

Por Luiz Carlos Rena e Tatiane Melo

Nas últimas décadas, o Brasil tem convivido com uma sucessão de enchentes, deslizamentos, secas prolongadas, ondas de calor, incêndios florestais e outros eventos que afetam profundamente a vida das pessoas.

Diante dessa realidade, torna-se cada vez mais necessário refletir sobre um tema que, embora não esteja explicitamente previsto na Declaração Universal dos Direitos Humanos de 1948, é fundamental para a garantia da dignidade humana: o direito à convivência segura e sem riscos com a natureza.

A discussão ganha ainda mais relevância durante a Semana do Meio Ambiente, período em que somos convidados a repensar nossa relação com o planeta e com os recursos naturais. Afinal, proteger a natureza é também proteger a vida humana. Muitas pessoas ainda interpretam desastres ambientais como manifestações da vontade divina ou castigos da natureza. Entretanto, especialistas apontam que essa visão simplifica excessivamente um fenômeno muito mais complexo. Chuva, secas, ventos fortes, movimentações geológicas e outros eventos naturais sempre fizeram parte da dinâmica do planeta. O risco é um elemento natural da vida. O problema surge quando a ação humana amplia os riscos e transforma fenômenos naturais em tragédias sociais. O desastre acontece quando a sociedade ignora ou administra inadequadamente esses riscos.

A lógica econômica predominante ao longo dos últimos séculos contribuiu para o distanciamento entre seres humanos e natureza. Rios passaram a ser vistos apenas como recursos hídricos, florestas como fontes de matéria-prima e territórios como espaços de exploração econômica. Essa visão reduziu a capacidade de reconhecer os limites naturais e de construir formas sustentáveis de convivência com o ambiente. Um exemplo simples ajuda a compreender essa questão. A proximidade de um vulcão oferece solos férteis para a agricultura, mas também envolve riscos conhecidos. Da mesma forma, encostas, margens de rios e áreas sujeitas a inundações podem ser ocupadas por razões econômicas ou pela falta de alternativas habitacionais. Quando essas ocupações ocorrem sem planejamento e sem infraestrutura adequada, o risco se transforma em desastre.

Nesse contexto, o papel do Estado é fundamental. Cabe aos governos monitorar áreas vulneráveis, fiscalizar construções, desenvolver sistemas de alerta, realizar obras preventivas e implementar políticas públicas capazes de proteger a população. Dados recentes do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (CEMADEN) revelam a gravidade do cenário brasileiro. Milhares de alertas de risco geológico e hidrológico são emitidos todos os anos, indicando a necessidade permanente de ações preventivas. Mas a responsabilidade não é apenas do poder público. A construção de uma cultura de prevenção depende também da participação das comunidades e da sociedade civil organizada.

Moradores de bairros, associações comunitárias, movimentos sociais e organizações locais possuem um conhecimento valioso sobre seus territórios. São eles que observam mudanças em encostas, percebem alterações no comportamento dos rios e identificam sinais de perigo muitas vezes antes dos órgãos oficiais. Além disso, a solidariedade comunitária desempenha papel decisivo em situações de emergência. Redes de apoio mútuo podem salvar vidas ao compartilhar informações, auxiliar famílias em situação de risco e fortalecer a capacidade de resposta coletiva.

Outro aspecto frequentemente negligenciado é a questão dos resíduos sólidos. O descarte inadequado do lixo contribui para o entupimento de redes de drenagem, aumenta os riscos de enchentes e produz impactos ambientais de longo prazo. O lixo não desaparece quando é colocado para coleta; ele continua existindo e produzindo consequências que afetam toda a sociedade.

A crise climática torna esses desafios ainda mais urgentes. Eventos extremos de calor, frio, secas e tempestades vêm se tornando mais frequentes em várias partes do mundo. Embora a natureza possua seus próprios ciclos, a interferência humana tem potencializado seus efeitos, ampliando a vulnerabilidade das populações. Por isso, é necessário superar a ideia de que desastres são inevitáveis ou resultado exclusivo da ação da natureza. Eles são, em grande medida, consequência de escolhas sociais, econômicas e políticas que podem — e devem — ser transformadas.

Defender o direito à convivência segura com a natureza significa reconhecer que seres humanos e meio ambiente fazem parte de uma mesma comunidade de vida. Significa compreender que proteger rios, florestas, montanhas e
ecossistemas não é apenas uma questão ambiental, mas também uma questão de direitos humanos.

O futuro dependerá da nossa capacidade de construir relações mais equilibradas com a natureza, fortalecendo políticas públicas, ampliando a participação social e assumindo responsabilidades compartilhadas. Afinal, cuidar da natureza é, acima de tudo, cuidar de nós mesmos.

1 Pedagogo (1986) e Mestre em Psicologia Social (1996) pela UFMG. Professor na Educação Básica entre 1980 e 2002 e na Educação Superior atuando na PUC Minas ente 2000-2018. Sócio fundador da Arandu Assessoria e Formação Continuada. Ativista de Direitos Humanos e membro da Diretoria do Centro de Defesas dos Direitos Humanos de Betim e participa da rede internacional Ágora dos Habitantes da Terra. Integra a coordenação da Rede Brasileira de Educação em Direitos Humanos/Seção MG. Fundador e coordenador do Projeto Fala Comigo:
masculinidades em debate. lcastellobrancorena@gmail.com  https://www.instagram.com/luiz.rena/
2 Psicóloga, Mestre e Doutoranda em Administração pelo PPGA PUC Minas. Coordenadora da Comissão de Orientação em Psicologia no contexto de Riscos, Emergências e Desastres do CRP-MG. Atualmente é consultora da Organização Panamericana/Organização Mundial de Saúde, coordenando o Grupo de Trabalho responsável pela construção do Plano estadual para atenção integral à saúde das populações atingidas por desastres minerários e residentes em regiões mineradoras. tatyeac@yahoo.com.br