OPINIÃO
Por Sérgio Mesquita
Recebi da amiga Gabrielle Beira, de Brasília, duas ferramentas para auxílio no planejamento de projetos e/ou processos que trabalhem a partir do futuro, para o meio público – que também podem ser usados no meio privado.
Uma ferramenta aberta a todas as áreas públicas. A outra, que também pode ser usada nas demais áreas, mas com seu texto voltado para a questão jurídica, na previsão de Leis e Normas que possam atender em tempos futuros. Sair da reação para a proatividade.
Como ambas tratam de pensar o futuro, primeiro trago abaixo algumas considerações sobre o mesmo.
A primeira, do Mestre e Dr. Silvio Meira que nos diz lá do Recife, que o futuro é hoje, ele se faz no presente. Quando pensamos em um processo ou produto que não exista hoje, e começamos a trabalha-lo, na realidade estamos trazendo o futuro para o hoje.
A segunda trata-se de fragmentos de texto de uma matéria publicada no Jornal Outras Palavras, Futuro, sua Filosofia e Disputa (https://outraspalavras.net/crise-civilizatoria/futuro-sua-filosofia-e-disputa/), que seguem abaixo:
(…) Para Ernst Bloch, inspirando-se diretamente nos escritos de Marx, o futuro não é uma abstração adiada para o amanhã, mas uma força ativa que está imersa no presente, lutando para emergir de suas limitações.
(…)
No capitalismo, o futuro do calendário é tratado como algo administrável — como algo a ser previsto, programado, avaliado, garantido e gerenciado por instituições que se apresentam como neutras. Suas decisões são apresentadas como necessidades técnicas, e não como escolhas políticas, como questões a serem reguladas em nosso nome por especialistas, mercados, Estados e aparelhos de segurança. Essas instituições não oferecem um horizonte de emancipação, mas apenas a continuação controlada da catástrofe.
(…)
O futuro não é um horizonte vazio que aguarda para ser preenchido pelas aspirações humanas. É ativamente planejado, estruturado e condicionado por forças poderosas que buscam reproduzir as relações de dominação existentes. Os inimigos do futuro não são tendências abstratas: são forças concretas determinadas a prolongar a ordem atual no futuro (Instituto Tricontinental, 2024a). (…)
A terceira, que combina com a primeira, trata-se de uma frase do Mahatma Gandhi: O Futuro dependerá daquilo que fazemos no presente.
Outro ponto interessante que discute o futuro, trata-se do amigo Paulo Correia – professor de História, IA e dono da Startup Ludotopia Games, que tem a seguinte filosofia: A Ludotopia Games nasce com esse propósito: criar jogos que, ao invés de promoverem o apocalipse, inspirem a construção de futuros possíveis. Em uma palestra em Maricá, ele diz que estão cancelando o futuro de nossos netos. Explica a partir da grande produção de filmes e jogos digitais que tratam de futuros apocalípticos, distópicos, onde não existem governos e quem comanda são as grandes corporações. Na linha do que defende Curtis Yarvin (Mencius Moldbug), seguido de perto pelo Peter Thiel (PayPal) e pelo Marc Andreesen (Andreessen Horowitz/Netscape), que defendem o fim da democracia e a ascensão da monarquia dirigida por Ceo das BigTechs.
Voltando a amiga Gabrielle e suas postagens.
Toda esta introdução, diz respeito a uma das ferramentas apresentadas que trabalha na filosofia do Dark House, expressão inglesa que define o cavalo azarão, aquele que ninguém acredita, mas chega em primeiro. Tem como título: Protótipos para futuros: roteiro, usos e aplicações para políticas e estratégias antecipatórias de cenários pós-normais e seus principais benefícios; um estudo do Dark Horse.
(https://www.councilor.com.br/post/prot%C3%B3tipos-dark-horse-roteiro-usos-e-aplica%C3%A7%C3%B5es-parapol%C3%ADticas-e-estrat%C3%A9gias-antecipat%C3%B3rias-de-cen).
Para começar com a minha implicância: não acredito em expressões como “novo normal”, “pós normal”, e outras que tentam nos enganar com a falácia de que o mundo mudou nos pós pandemia. Tirando o aumento dos entregadores por aplicativos e o tal do home office, que não é um nem outro, a merda continuou a mesma, a exceção do respeito à Ciência, que vem se recuperando a passos largos, apesar da extrema direita e o negacionismo vigente no mundo.
Em sua introdução encontramos a frase: materializam futuros improváveis, porém plausíveis, para provocar reflexão estratégica, e estimulam debates éticos e políticos sobre riscos negligenciados e oportunidades emergentes. O termo negligenciados, me trouxe a cabeça, as figuras do cisne negro e do cisne vermelho (ou rinoceronte). O cisne negro representa o acontecimento que ninguém pensou ou previu – Covid-19, como exemplo. O cisne vermelho ou
rinoceronte em alguns trabalhos, é aquele evento que todos sabem que vai acontecer, ninguém faz nada e, acontece.
O problema, como colocado nas considerações apresentadas no início do texto e, em especial nos ensinamentos do Darcy Ribeiro, pode nos dizer que o negligenciado faz parte de um projeto que deu certo. Darcy cita como exemplo o Projeto Brasil. Ele não deu errado, foi projetado para dar errado! O Brasil é um projeto que deu certo para o andar de cima e deu errado para nós, pobres mortais da classe trabalhadora. Nessa linha, pensar a partir do negligenciado é a continuação controlada da catástrofe, ou o futuro ativamente planejado, estruturado e condicionado por forças
poderosas que buscam reproduzir as relações de dominação existentes.
Pensar o futuro a partir de catástrofes que estão anunciadas, negligenciadas, é aplicar hoje projetos de racionamento de água, em vez da recuperação dos mananciais, das matas ciliares e da água, não como commodity, mas como bem público, por exemplo. É distribuir ar condicionado pensando nas mudanças climáticas, e continuar desmatando nossas florestas.
Sei que estiquei a corda, é uma característica minha – provocar. Mas se prestarmos atenção ao Meira, Gandhi e muitos outros por este mundo a fora, e quisermos futuro para os nossos netos e não seus cancelamentos, deve-se reler o artigo do Keynes, que trata do futuro dos netos dele, escrito há 96 anos, e entender que nosso futuro começa hoje.
Keynes previu nosso futuro em 2030, a partir de medidas que deveriam ser tomadas em 1930, e não foram.
O povo das bigtechs querem é suas cidades estados, seus elysiuns. Jev Bezos (Amazon) já anunciou que lançará um robô que provocará a demissão de um milhão de seus funcionários. Vamos pensar um projeto que no futuro tratará de bilhões de desempregados ou vamos pensar hoje, o que fazer hoje?
Curtis Yarvin, Peter Thiel (Palantir e PayPal) e Marc Andreessen (Netscape) defendem abertamente que democracia e liberdade não combinam, porque atrapalha o crescimento de seus negócios no Vale do Silício. Vamos em um futuro, que pode ser próximo, retornarmos ao regime Monárquico como insinuam? Onde o “rei” será um ceo de uma grande corporação?
A segunda ferramenta também é um protótipo, parecido, mas que trabalha em outra linha de pensamento. Pensa-se no futuro, mas imaginando-o melhor. Podemos imaginar a população do mundo, ou do Brasil pleno em sua qualidade de vida e, a partir desse futuro, repensar o presente de maneira a chegar lá.
Um filme bem interessante que trabalha bem os avanços tecnológicos, onde a tecnologia é usada para benefício de todos, é Em Um Piscar de Olhos. Vale a pena assisti-lo com atenção. Interliga três eras, o período entre o neandertal e o homo sapiens, os dias atuais, e um futuro onde a Terra não apresenta mais condições para a vida humana. É inspirador.
Há braços.
Sérgio Mesquita
Maricá-RJ







