Enquanto a contagem dos votos segue o seu curso, o país mantém-se num clima tenso e alguns gestos vão revelando a verdadeira face da «nova ordem».

Hoje, por volta das 17h, um grupo de peruanos que se auto-organizaram e apoiantes do partido Juntos pelo Peru (JP), que realizavam uma vigília pacífica em frente ao Jurado Nacional de Eleições (JNE) para exigir a contagem adequada dos votos, foi alvo de uma tentativa de desalojo abrupto, com água de rega, por parte da Câmara Municipal Distrital de Jesús María, na área metropolitana de Lima.

Como se pode ver nas imagens divulgadas imediatamente pelo portal TomaLaCalle TV e outros meios da imprensa alternativa, os camiões-cisterna que regam periodicamente as áreas verdes do distrito de Jesús María derramaram o líquido sobre as tendas que tinham sido instaladas em frente ao JNE, pelo que os manifestantes tiveram de as retirar momentaneamente.

Será esta a forma como as nossas autoridades «exortam a população a manter a calma», enquanto se aguarda os resultados eleitorais? Não será antes uma forma de provocar a reação indignada daqueles que exercem o seu direito constitucional à manifestação?

A medida tomada pelo distrito de Jesús María, cujo presidente da câmara, Jesús Gálvez Olivares, pertence ao partido Renovación Popular, aliado do Fuerza Popular, não é a única demonstração do abuso de poder por parte das nossas autoridades. No mesmo dia, o presidente da câmara interino de Lima, Renzo Reggiardo, (também do Renovación Popular) afirmou que estavam em «alerta máximo para evitar a violência face aos anúncios de mobilizações que, como era de esperar, iriam ocorrer. Alerto que o Centro Histórico é intocável e que a irresponsabilidade de alguns será punida com o poder da legalidade».

Os autarcas citados deveriam recordar que uma das principais funções dos presidentes de câmara, enquanto funcionários públicos, é exercer a governação promovendo o direito à participação cidadã e respeitando a cultura local. Hoje, o Peru vive uma vigília permanente até conhecer os resultados das Eleições Gerais de 2026. A desconfiança social instalou-se, em resultado das diferentes crises político-sociais das últimas décadas.

O papel das autoridades locais é crucial, uma vez que devem apelar à calma e transmitir confiança aos cidadãos, para que o processo seja concluído. E ter claro que este é um novo marco na nossa história, porque a população se mantém vigilante, ativa e com voz política… e que assim se manterá nos sucessivos governos. Não ver isso é de tolos. A democracia real tornou-se tangível.