O Peru continua num empate técnico, mas agora com a candidata Keiko Fujimori (Fuerza Popular) na liderança, com apenas 1.027 votos de diferença em relação ao candidato Roberto Sánchez (Juntos por el Perú) no momento do fecho desta edição. A possibilidade de qualquer um dos dois candidatos chegar ao governo leva-nos a questionar: qual será o cenário provável caso qualquer uma das duas propostas vença?

Direita: Instabilidade, repressão e de costas para as maiorias

A proposta da direita de Keiko Fujimori já foi experimentada pelo país nos últimos 10 anos — e talvez por isso, em março deste ano, tivesse 43,2% de rejeição eleitoral. A sua bancada, a Fuerza Popular, detinha a maioria no Congresso (73 de 130 assentos) durante o governo de Martín Vizcarra (2018-2020), com quem manteve um confronto permanente, limitando a gestão do Executivo. Hoje, o ex-presidente tem processos em aberto e está inelegível.

A instabilidade política fez com que, durante o mandato de Pedro Pablo Kuczynski (2016-2021), o Peru tivesse quatro (04) presidentes (Kuczynski, Vizcarra, Manuel Merino e Francisco Sagasti). E com a chegada ao poder de Pedro Castillo (2021), gestou-se o crime de conspiração para rebelião, originando novamente a instabilidade política com os governos de Dina Boluarte (quase três anos), José Jerí (130 dias) e José María Balcazar (113 dias até ao presente).

A Fuerza Popular, neste período, participou em aliança com outras forças políticas para a tomada institucional dos poderes do Estado, para se subtrair à justiça em processos abertos contra a líder, para reformar a Constituição com vista ao restabelecimento do sistema bicameral do Congresso da República (apesar de a população ter votado «NÃO» no referendo), regulamentações do referendo e a promulgação de leis pró-crime que mergulharam o país na insegurança cidadã. É de salientar que estas reformas foram realizadas com total rejeição da população; no entanto, as reivindicações foram ignoradas (com uma forte repressão, que deixou o país de luto). Haverá intenção de emenda? Tudo indica que não.

Esquerda: Mudança de rumo e fraqueza institucional

A proposta da esquerda de Roberto Sánchez é uma reivindicação de longa data e já foi tentada em vários períodos da história recente do Peru. Desde o governo de Alejandro Toledo (2001-2006), quando ocorreu a chamada «Marcha dos 4 Suyos», que integrou as três regiões (costa, serra e selva) do país; no entanto, o seu mandato não conseguiu responder às reivindicações sociais e, pior ainda, hoje o ex-presidente foi condenado a mais de 20 anos de prisão por crimes de corrupção.

Outra tentativa da esquerda ocorreu durante o governo de Ollanta Humala (2011-2016), quando o ex-presidente entrou na corrida com um plano de governo denominado «A Grande Transformação», mas que, no segundo turno, transformou na «Rota a Seguir», com uma abordagem mais empresarial, adiando as reivindicações sociais do momento.

E a última tentativa de um governo progressista foi levada a cabo pelo ex-presidente Pedro Castillo (2021-2022), que desde o início foi perseguido pela classe política da época, revelando-se um racismo notável devido à sua origem rural (e à dos seus seguidores). O seu governo caracterizou-se pela instabilidade permanente (duas tentativas de destituição por parte do Congresso), até que, em dezembro de 2022, anunciou a dissolução inconstitucional do Congresso e a instauração de um governo de exceção, o que levou à sua destituição. Sabe-se agora que este fato foi orquestrado pelas forças da oposição, entre elas a Fuerza Popular.

Os antecedentes das propostas políticas da direita e da esquerda que a história peruana apresenta não oferecem um panorama animador para o país, para nenhum dos setores partidários, embora a disposição de Sánchez para o consenso possa ser um indicador importante.

E o que querem os peruanos? Neste novo período, a população espera, antes de mais nada, pôr de lado os antagonismos e trabalhar coletivamente pelas reformas urgentes e de longo prazo; com transparência e sem corrupção, tendo como norte o bem comum e o desenvolvimento do país… Mas estarão os nossos líderes à altura do desafio?