NOTA PRETA

Por Mauro Viana 

Texto de Julia Barroso da Silveira

O trabalho busca refletir sobre a aplicação da ritmanálise ancestral (Silveira, 2025) como metodologia para pensar o negro no Brasil, indicando pontos de convengência entre os estudos de raça e os estudos de som.

Aqui, parte-se da ideia de que os dois campos se vinculam à Comunicação devido à relacionalidade e transdisciplinaridade das temáticas, além de, em suas epistemologias, trazerem potencial de questionar o arcabouço moderno-colonial na produção de conhecimento. O debate teórico apresentado faz parte da tese em desenvolvimento, que trata do processo de identificação racial de pessoas negras no Rio de Janeiro. Nesse recorte de investigação, parecem emergir simultaneamente os ritmos da colonialidade e da resistência – ritmos que atravessam não só os corpos, mas o tempo.

A racialização é um elemento crucial nas configurações simbólicas, da mesma forma que outras estratégias de poder da modernidade que buscam justificar processos exploratórios e de exclusão (Silva, 2001). O racismo, naturalizado e difundido a partir do arcabouço colonial (Sodré, 2023), continua produzindo uma alienação que é consequência de movimentos diaspóricos e das inúmeras expropriações sofridas por povos minorizados – essa alienação não é, portanto, uma questão individual (Fanon, 2020).
Dentre os principais obstáculos para o processo de identificação racial no Brasil, atrelada ao ideal da branquitude e ao mito da democracia racial, está a desestruturação da memória de pessoas negras. O apagamento da origem de pessoas pretas escravizadas, bem como as tentativas de limpar a “mancha da escravidão” da cultura nacional (Sodré, 2023), são manifestações coletivas de desmemoriação, mas o esquecimento se revela também uma tentativa de proteção diante de situações de sofrimento, como o racismo. O ideal civilizatório e as violências da colonização ainda reverberam nos processos identitários do negro brasileiro.

Como o regime de outrificação do negro permanece, a construção de identidades negras contemporâneas só é possível com uma retomada do passado e o entendimento das ferramentas coloniais ainda em voga.
Devido ao valor político da identificação e, consequentemente, da mobilização de grupos minorizados, pensar a relacionalidade na construção de uma identidade racial significa se atentar para os fluxos presentes nessa construção. Diante deste contexto, o resumo expandido tem como objetivo explicitar a pertinência de uma abordagem rítmica para pensar a racialidade e, de forma mais ampla, trazer percepções das epistemologias sônicas (Voegelin, 2024) para os estudos de raça. O ponto de partida é a proposta metodológica da ritmanálise ancestral (Silveira, 2025), cujas características fundamentais são: a relacionalidade; a corporalidade e, por consequência, uma percepção multisensorial; a reversibilidade ou não-linearidade temporal; a transdisciplinaridade. Devido à centralidade das relações e do aspecto de linguagem comum do ritmo, a ritmanálise ancestral apresenta um potencial metodológico para os estudos em Comunicação, além de vincular-se aos estudos de som – que, segundo Sterne (2012), é um conjunto de aspirações intelectuais compartilhadas, incluindo a consciência da parcialidade e uma ampla curiosidade transdisciplinar.

Na tese em desenvolvimento, pretende-se notar de que forma reverberam os ritmos da colonialidade na memória intergeracional de pessoas negras, considerando que o trauma colonial é retomado no racismo cotidiano seja por choque violento, fragmentação ou atemporalidade, como posto por Kilomba (2019). A metodologia também abre espaço para o diálogo com arquivos pessoais, como documentos e fotografias, elementos que fazem parte da construção e transmissão de memória. Tais recursos também são percebidos por meio da ritmanálise ancestral, de forma análoga à investigação realizada por Tina Campt (2017) com fotografias de identificação. Por fim, a pesquisa quer compreender o que aparece de forma frequente, regular, nos relatos sobre a experiência racial de pessoas negras, sem ignorar o que emerge nessas conversas como espaço de fuga ou ausência. Assim como na ritmanálise, nos estudos de som há a possibilidade de lidar com o silenciado, com o não-dito e com recortes imprecisos.

Doutoranda e bolsista Capes no Programa de Pós-Graduação em Comunicação na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (PPGCom-Uerj), e mestre pelo mesmo programa. Bacharel em Jornalismo pela Universidade Veiga de Almeida (2021) e em Administração pela Universidade Estácio de Sá (2019). Faz parte do Grupo de Estudos sobre a Mestiçagem (Gesam) e dos seguintes grupos de pesquisa: Comunicação, Cultura Aural e Tecnologias de Si (Cats); Trama – Comunicação, Arte e Redes Sociotécnicas; e POPMID – Reflexões sobre Gêneros e Tendências em Produções Midiáticas. Em sua pesquisa atual, investiga o papel da memória no processo de identificação racial de pessoas negras no Brasil.