NOTA PRETA
Por Mauro Viana
Texto de Adriano Rodrigues
A pesquisa analisa a atuação do Manguinhos On-line, coletivo de comunicação comunitária e midiativismo digital situado no conjunto de favelas de Manguinhos, no Rio de Janeiro. O estudo parte da compreensão de que as favelas são historicamente representadas pela mídia hegemônica a partir de uma narrativa limitada, marcada pela associação entre violência, crime e pobreza. Em oposição a esse enquadramento, a pesquisa investiga como o Manguinhos On-line produz contra-narrativas capazes de afirmar a complexidade da vida no território, valorizar saberes locais e disputar o imaginário social sobre a favela.
O trabalho propõe o conceito de epistemologia da sobrevivência, entendido como um saber-práxis construído na experiência cotidiana da favela, na luta pela vida, pela dignidade e pela cidadania comunicacional. A pesquisa também discute como o coletivo atua como forma de resistência ao epistemicídio e ao racismo algorítmico, uma vez que disputa visibilidade em plataformas digitais que nem sempre favorecem vozes periféricas.
Metodologicamente, o estudo assume a posição de pesquisador-morador, articulando escuta territorial, imersão paciente e participação direta na experiência analisada. Assim, a pesquisa busca demonstrar que a comunicação comunitária não é apenas uma prática informativa, mas também uma forma de produção de conhecimento, resistência política e transformação social.
Incluindo informações pessoais:
Sou Adriano Mello Rodrigues, nascido em 14 de novembro de 1998, no Hospital Geral de Bonsucesso, na Zona Norte do Rio de Janeiro, e criado em Manguinhos. Minha história começa antes de mim, nas trajetórias de uma família negra, pobre e trabalhadora, marcada por migrações, apagamentos documentais, trabalho doméstico, trabalho rural e luta cotidiana pela sobrevivência. Pelo lado materno, sou neto de Marli Mello de Souza, mulher que trabalhou como empregada doméstica desde cedo; pelo lado paterno, sou neto de Antônia Alves de Sousa e Antônio Rodrigues de Sousa, trabalhadores rurais do Ceará. Sou filho de Adriana Mello de Souza, diarista, nascida e criada em Manguinhos, e de Marcelo Rodrigues de Sousa, cearense de Ipu, trabalhador que migrou para o Rio de Janeiro ainda jovem e construiu sua vida entre padarias e, posteriormente, seu próprio bar na comunidade. Também sou irmão de Juliana Raimundo de Souza e Rian de Souza Batista.
Minha infância foi atravessada por afeto familiar, mas também por dificuldades materiais, insegurança alimentar, experiências de racismo, bullying e pela vivência cotidiana em uma favela marcada tanto pela potência comunitária quanto pela violência estrutural. Cresci entre a casa, a rua, a escola e os conflitos de um território muitas vezes narrado de fora para dentro. Na adolescência, por ser um jovem negro, gay e periférico, enfrentei violências que me fizeram buscar nos estudos uma forma de sobrevivência, elaboração e transformação. Ainda no ensino médio, comecei a trabalhar informalmente, vendendo doces na escola e nas ruas, ao mesmo tempo em que tentava seguir estudando. Mais tarde, minha passagem pelo Museu da Vida, na Fiocruz, em Manguinhos, abriu novos horizontes e me ajudou a compreender a universidade como uma possibilidade real.
Ingressei no curso de Jornalismo da UniCarioca, com formação viabilizada pelo PROUNI, e segui para o mestrado e o doutorado em Comunicação no PPGCOM/UERJ. Minha trajetória acadêmica não se separa da minha trajetória territorial. O objeto da minha pesquisa nasce da minha própria experiência em Manguinhos e da atuação na comunicação popular, especialmente no Manguinhos On-line. A partir dessa vivência, investigo como a comunicação comunitária e o midiativismo de favela produzem contra-narrativas, enfrentam o epistemicídio, disputam imaginários urbanos e afirmam epistemologias periféricas. Assim, minha pesquisa não parte apenas de um interesse teórico, mas de uma história de vida marcada pela necessidade de narrar o território a partir de dentro, reconhecendo a favela como lugar de conhecimento, resistência, cidadania e produção de futuro.







