“Hoje, mesmo aqueles e aquelas que estão conseguindo uma ocupação, estão em uma ocupação sem direitos: a tal uberização”

Por Camila Aguiar

Apesar de valorizar mais a luta política ampla, por entender que a construção do socialismo não se dá pela via eleitoral, os/as comunistas entendem ser importante participar desse processo. É o que afirma a pré-candidata à Presidência da República pelo Partido Comunista Brasileiro (PCB) Sofia Manzano, nesta primeira parte da entrevista concedida à Camila Aguiar, para Pressenza. De acordo com ela, “Nesse momento, é importante termos candidaturas que mostrem que é possível construir uma alternativa para o Brasil que não dependa das alianças com setores setores reacionários”.

Nesta parte da entrevista, Manzano fala, ainda, a respeito das tentativas de desqualificação dos/das comunistas, explica os porquês de a sua candidatura ser diferenciada em comparação àquelas que estão apontadas como favoritas e ressalta a necessidade de lutar contra a precarização do trabalho. A pré-candidata mostra, também, sua preocupação em estabelecer no país um governo voltado à superação das desigualdades sociais e critica a opção do ex-presidente Lula por aliar-se com setores que têm retirado direitos da classe trabalhadora.

Nascida em 1971, na cidade de São Paulo, Manzano iniciou sua militância no PCB em 1989. Graduada em Economia e Doutora em História Econômica, desde 2013 ela é Professora do curso de Economia da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (UESB), onde ingressou através de concurso público, aprovada em 1º lugar. Casada e mãe de um filho, Manzano já disputou, em 2014, ao lado de Mauro Iasi, a Vice-Presidência da República.

A desqualificação do comunismo por quem se aproveita do capitalismo se dá porque essas pessoas jamais vão admitir uma sociedade na qual elas não tenham todos os privilégios. Essa afirmação é de Sofia Manzano, pré-candidata à Presidência da República pelo Partido Comunista Brasileiro (PCB). De acordo com ela, as/os comunistas querem construir uma sociedade igualitária não apenas na Constituição, mas de fato, no dia a dia das pessoas.

De acordo com Sofia Manzano, as/os comunistas querem uma sociedade na qual a igualdade não esteja apenas escrita nas leis, mas que seja vienciada no cotidiano. “Um jovem negro não tem as mesmas oportunidades que um jovem branco, por exemplo, em acesso à educação, à saúde, ao mercado de trabalho. No cotidiano essa igualdade não existe. Ele não tem o mesmo tratamento policial que um jovem branco de bairro de classe média”, exemplifica.

Proposta mais avançada

Conforme Manzano, o comunismo é apresentado como uma coisa ruim, porque propõe a superação do capitalismo. “Toda essa desqualificação é carregada de muita mentira sobre a proposta comunista, que é mais avançada para a humanidade em todos os sentidos”, ressalta.

Ainda conforme a candidata, o capitalismo está destruindo não somente as vidas humanas através da fome, do desemprego, da discriminação, da violência, da guerra, mas também está impossibilitando a prórpria vida no Planeta, dada sua capacidade de destruir o meio ambiente.

“O capitalismo é uma estrutura social que tem como objetivo principal (e quase que exclusivo), a acumulação privada da riqueza produzida nas mãos de pucos. A demonização que se faz do comunismo, por aqueles que se aproveitam do capitalismo, tem razão de ser, pois essas pessoas jamais vão querer uma sociedade em que elas não tenham os grandes privilégios que têm”, explica.

Por isso, de acordo com ela, resistir aos ataques, como, por exemplo, a Reforma Trabalhista, a qual geraria mais emprego e que afinal gerou mais desemprego, além da queda na renda e a precariedade, deve estar entre os objetivos da luta da classe trabalhadora organizada. “Hoje, mesmo aqueles e aquelas que estão conseguindo alguma ocupação, estão em ocupações sem direitos, a tal da uberização. Você tem que trabalhar 24 horas por dia”, exemplifica, ressaltando a necessidade da organização.

Aliança com setores reacionários

Do ponto de vista específico da disputa eleitoral em 2022, Sofia Manzano afirma que, embora a luta política mais ampla seja a mais importante, é necessário participar da disputa eleitoral, primeiramente porque, em geral, a sociedade está mais atenta e aberta a discutir política nos períodos eleitorais; e, em segundo lugar, porque atualmente no Brasil vivemos um panorama de disputa eleitoral polarizado: uma candidatura de extrema-direita e outra que está querendo juntar todo um campo de centro-esquerda e até com a direita, mas que não está falando em nome da classe trabalhadora.

“Esta outra candidatura está priorizando as alianças com setores políticos que historicamente destruíram os direitos dos trabalhadores”, ressalta. De acordo com ela, nesse momento é importante termos candidaturas que mostrem a possibilidade de construir uma alternativa para o Brasil que não dependa das alianças com setores reacionários, inclusive setores que destruíram direitos da classe trabalhadora e que combatem a própria organização dos trabalhadores.

Manzano diz que, assim como o bolsonarismo reacionário de extrema-direita está implementando projeto neoliberal no Brasil, a candidatura do ex-presidente Lula também não sai do projeto neoliberal. “Ele (Lula) apenas melhora algumas coisinhas, mas não se apresenta como um projeto político de enfrentamento real ao neoliberalismo no país; até por conta das alianças que procurou fazer e está fazendo nesse momento”. Conforme ressalta, “é possível governar o país mesmo ainda no capitalismo, com um projeto de enfrentamento ao neoliberalismo”.

Para acompanhar essa primeira parte, na íntegra, é só acessar o vídeo abaixo.