No livro ”A Arte de Viajar” o filósofo Alain de Botton fala dos prazeres e desilusões de viajar de famosos autores. É um trabalho provocador porque nos revela as motivações escondidas, expectativas e complicações nas jornadas de escritores e poetas. Afinal onde é o nosso lugar ? Proust que diz que a real viagem da descoberta não consiste apenas em lugares novos, mas em passar a ver com outros olhos e por isso cada jornada, mesmo que para os mesmos lugares, nos deixa sensações e memórias diferentes.

Não é necessário cruzar estradas e ventanias para fazer a experiência de transporte no tempo. Um velho hábito que carrego – de visitar bibliotecas e feiras de antiguidades por onde passo – me enche de experiências sensoriais e muitas vezes me transporta para outros tempos. Comecei em San Telmo, Buenos Aires, dos anos 90, um mar de prataria, vasos, moedas e selos cercado de móveis e ao som do tango. Olho os rostos a minha volta, vejo os passos do tango que toca na esquina, um casal desliza no asfalto em delicados sapatos riscando o chão. Em segundos pude imaginar as ruas cheias de imigrantes, gritos em árabe, francês e espanhol. O casario com portas verdes e altas, as pessoas exalando perfume e charutos pela manhã.

Anos depois inicio outra caminhada, como um caçador de curiosidades nas feiras em Nova Iorque, O’Brick Lane Market, na Old Truman Brewery, em Londres. Já explorei com cuidado as cidades da Geórgia em Stone Mountain, percorri inúmeras lojinhas no interior da Flórida, em Nova Jerseio, Boston e Georgetown, em Frankfurt e Berlim. Em toda cidade que visitei até hoje. Nenhuma no entanto me fascinou tanto e com tanta frequencia como a Feira da Praça XV no Rio. A que ficava embaixo do elevado e que desapareceu com ele.

Era quase um ritual, aos sábados visitar a Praça XV. Foi lá que achei partituras para meu piano – que até hoje não aprendi a decifra-las, vinil – muito vinil, baratinhos a três reais cada, em ótimo estado. Foi lá que achei livros antigos, um casaco de farda do exército da Bósnia – pra que serve isso? Me perguntou Sandra, uma amiga intrigada com minha lista de novas aquisições . Era imenso prazer em vasculhar barraca por barraca. No inicio não gostava muito do lixão – parte fora da feira, sem a menor preocupação com antiguidades – que mistura lixo com algumas coisas que os vendedores nem tem ideia do que sejam. Depois virou parada obrigatória. É nos lixões das cidades que encontramos as mais interessantes relíquias urbanas.

Hoje no mundo mais de 200 milhões de pessoas vivem em diferente país de onde nasceram. Se estivessem em um lugar único seria uma potência mundial. Um país de quase a mesma população do Brasil formado por viajantes, nômades, exporadores de outras terras, imigrantes, exilados, despatriados.

Volto ao livro de Alain – É interessante conhecer o pensamento de famosos escritores, artistas e pensadores que foram inspirados pelas viagens e explorações locais em todas as suas formas: Gustave Flaubert, Edward Hopper, Baudelaire, Wordsworth, Van Gogh, Ruskin – Por que é que escolhemos um tal lugar em primeiro lugar ? O que nos liga a certos lugares e não a outros ? Nós somos um pouco de todos esses lugares que desejamos conhecer. Temos uma imagem – muitas vezes romantizada e irreal – mas é o mundo que construimos internamente. Não são só os lugares que idealizamos, não é ? Muitas vezes também fazemos o mesmo com pessoas. Muitas vezes amamos a imagem que criamos – não a pessoa.

O Rio de Janeiro – e a antiga feirinha da praça XV – do meu pensamento é totalmente diferente a de outras pessoas. Criado no subúrbio carioca, também longe das salas de estar de classe média da zona sul das novelas de Janete Clair, de um Rio longe do Leblon do Manoel Carlos, também fui sempre seduzido pelo que vinha de fora. Achava que as histórias sem neve, sem carros enormes e casas sem muro eram menos interessantes. Levei tempo para entender que cada cultura, cada lugar tem sua beleza, única. E que nenhum lugar está isolado, todos são a soma de todos seus viajantes assim como nós somos resultado de todos que passaram por nós.

Somos no mundo globalizado um povo transitório, passageiro e adquirimos hábitos, jeitos, expressões, gostos culinários e literários de diferentes lugares e culturas. Somos um mosaico, cujo lar não é mais físico. O lar somos nós mesmos.