CRÔNICA

 

 

Por Marco Dacosta

 

 

De onde vens? Da cadeia montanhosa do oriente. O que fazias ali? Buscava a paz. A fênix, à beira da morte, se dirigia ao templo, no altar solar, ardia em chamas. Depois de um período, ela retornou à vida, simbolizando assim os ciclos naturais de morte e renascimento.

Era para ser apenas uma leitura. Mas foi mais que isso. Fecho o livro tentando memorizar esse trecho – “de onde vens”? – a mais difícil pergunta da humanidade. São seis horas a mais que no pacífico, olho pela janela e os prédios estão iluminados pelo neon das propagandas gigantescas de Nova Iorque. San Francisco amanhece enquanto a lua aqui, na costa leste, brincava no céu. Hoje teve “Manhattanhenge” – o que chamamos o fenômeno durante o qual o sol poente ou o sol nascente está alinhado com as ruas da grade de ruas principais de Manhattan. O pôr do sol e o nascer do sol se alinham duas vezes por ano, em datas uniformemente espaçadas entre o solstício de verão e o solstício de inverno.

Susi ainda está dormindo na Califórnia, cercada de livros, bolsas, caixas. Há alguns dias me disse que havia renascido, falou em fênix, em começar do zero, em uma nova vida. Eu, que carrego nas agendas tantas reinvenções, bem mais velho e experiente, entendo perfeitamente quando chega nossa época de revirar em vida de cabeça pra baixo até que todas as chaves e moedas caiam. Amanhece lentamente no vale do silício e aqui sob a sombra dos arranha-céus de Nova York, em uma praça escura, penso na fênix e naquela frase que sempre ilustrou minhas caminhadas – De Camus, “E no meio de um inverno eu finalmente, aprendi que havia dentro de mim um verão invencível” – E lembro das frases do livro que acabei de ler “De onde vens”?

Susi caminhou para o norte até encontrar a Califórnia, ao contrário do que sempre fiz, pedindo licença a senhora liberdade, invadindo as águas de Ellis Island. Cada um de nós tem um porto seguro. O meu sempre foi aqui, perdido nas ruas retas e calculadas. Ela também já foi e voltou, mas acompanhou a volta invencível do verão nas águas geladas do oceano pacífico. Deve ter pensado, como são lindas as flores que brotam depois do longo inverno ! E são. Hoje vi centenas de tulipas, as cerejeiras rosas, o cheiro de eucalipto, menta. A primavera boreal é a mais forte, venceu o gelo e a tristeza cinza dos dias curtos.

Susi me avisou que nasceu de novo, como dálias e lírios, germinando em novos jardins. Como somos imigrantes ficamos mais delicados a esse novo jardim. Somos também árvores arrancadas e replantadas em outro hemisfério. Recomeços necessitam cuidados, temos que recriar cascas, nos acostumarmos a novas estações.

Conheci Susi há muito tempo – incontáveis bits por segundo – mas foi há pouco que nos aproximamos de forma integral, depois de uma breve visita minha a San Francisco e de uma deliciosa semana dela em Charleston, na Carolina do Sul. Apresentei a minha descoberta doce, ruas de pedras e corações macios. Na Califórnia fez caminho semelhante: me levou ao topo da cidade, onde vimos as luzes. Ela conhece cada ponto da cidade mesmo na escuridão e também cada brilho. Ela consegue até ver pessoas brilhando no escuro. Observadora de almas que reluzem. Foi lá há muito tempo atrás que chegou, olhou o mar gelado e a névoa encobrindo o casario vitoriano. E ficou.

Susi como eu, delira. Não é ação de ácidos, que nos leva aos céus com diamantes, como na velha canção dos Beatles. É um delírio genial, dosado de hiperatividade e gentileza. Pode causar reações adversas, mas é uma dose exata para amar. Como todo delirante sofremos muito com tudo a nossa volta.

Hoje uma pessoa me disse que eu me envolvo demais com lutas alheias. Eu me pergunto, qual sofrimento de outro nos pode ser alheio? E seguimos assim querendo abraçar o mundo e por isso carregando muito peso nas costas. Acredito que as amizades são baseadas nesses reconhecimentos do outro: tudo que nos incomoda ou abala, todas as formas de humanidade que temos em comum, nos unem para sempre.

Em falar em peso – estamos em acordo e vamos nos livrar de muitos – físicos e emocionais. Livros, caixas, roupas e também sentimentos empoeirados. É hora Susi – disse ao telefone – jogue tudo fora. Tenho a louca mania de incentivar a que as pessoas façam o pacote completo de reinvenção, livrando-se dos pesos, das coisas materiais que nos conectam com o passado – “Voa, livre” disse repetidamente.

Ela nasceu de novo em julho e depois. Como eu, perdi as contas de quantas vezes renascemos. Eu que já estou nesse mundo por tantos julhos aproximo nossas datas de recriação. Sim, nós não apenas nascemos, claro. Estamos destinados a muito mais do que passar calados por essa época turbulenta. Queremos deixar livros, filmes, poesias. Como já disse o poeta mexicano Octavio Paz, somos únicos na terra a ter sensação de que não somos eternos – e por isso nos eternizamos em obras, pirâmides, obeliscos, estátuas. Deixamos obras para negar a morte. Nossa obra também é composta pelas portas que abrimos aos outros.

No céu com diamantes, fênix que sacode as penas, azaleias descaradas voltando forte após o inverno, carne de pescoço. Escolha o que quiser. É isso ai do que somos formados. Eu que perdi as vezes que me reinventei só posso dizer a todas as Susis do mundo: sejam bem vindas a essa sensação absurda de liberdade de acordar pela manhã, sentir-se vivo e radiante, olhar para a janela ensolarada e poder começar de novo.