Mais de Dois Maracas lotados…

03.05.2021 - Redação Rio de Janeiro

Mais de Dois Maracas lotados…
(Crédito da Imagem: Capa do último Março da Edição nº 174 da Revista Piauí. Trata-se de uma releitura de Pomb ao quadro “La Danse” (a dança) de Henri Matisse.)
OPINIÃO

 

 

Por Daniel Vila-Nova

 

 

400 mil. Às vezes, se perde a dimensão dos números. O Brasil, muitas vezes (ou amiúde) se autodeclara o “País do Futebol”.

Esse tal esporte bretão tem um Templo Maior. Eu o chamo de “Templo Maior do Esporte” sem qualquer cabotinismo.

Não há esporte possível sem a grandeza que o Maraca evoca. Em meio a tantas perdas e afetos despedaçados, o Maracanã vazio, talvez, seja a maior ironia de ser brasileiro.

O Coliseu está vazio…

Falta pão? Sim. Falta circo? Também. Mas também falta muito mais. Falta vacina. Falta gol de falta do Mais Querido. Falta a Magnética. Falta tudo o que faz do Maracanã o único estádio do planeta a acolher as torcidas de 4 Titãs.

Sim. Desafio quem quer que seja a apontar uma única cidade deste planeta-bola que tenha, em si (e para além de seus muros), os amores e rivalidades do Quarteto Maior do Futebol carioca.

Fluminense, Botafogo, Flamengo e Vasco não são apenas “clubes”. Não: são evangelhos apócrifos. Cada um deles reúne muitas crenças e fiéis. Lamartine Babo foi o evangelista uno a encarnar essas quatro versões maiores sobre o que é o Amor no futebol… E ainda nos legou o lindo hino do América…

Por que chego até aqui? A leitora, o leitor e o queride que lê talvez se pergunte.

Eu respondo. No país do futebol: aquele mesmo que é o único — até aqui — com 5 Taças Mundiais, nós já perdemos, em menos de 13 meses, mais de 400 mil vidas. 400 mil pulmões sufocados e sem ânimo, no último 29 de abril de 2021.

“Hei de torcer, torcer, torcer…

Hei de torcer até morrer, morrer, morrer…” (Hino do América do Rio, por Lamartine Babo).

Em toda a história do estádio Mário Filho — jornalista, rubronegro e autor de “O Negro no Futebol Brasileiro” —, os dois maiores públicos do futebol mundial aconteceram nos anos 1960. O primeiro foi 1 Brasil x 0 Paraguai, a 31 de agosto de 1968, com 183.341 torcedores pagantes e presentes. O segundo, um empate em mais um Fla-Flu histórico, esse sem gols, pelo Carioca de 1963 (num 15 de dezembro), com 177.656 viv’almas.

Pois bem: somados os 9 meses e meio de 2020, (desde a primeira vida brasileira que partiu), com pouco menos de 4 meses deste 2021, foram mais de 2 Maracanãs plenos que, de nós, se despediram. Hei de torcer para que essa história trágica não volte a se repetir — nem como farsa, nem enquanto tragédia em forma de hecatombe em hipérbole.

Isso não é pouca coisa. Você sequer precisa gostar de futebol (grande defeito que confesso e do qual me penitencio), nem ter ido ao Maraca (grande prazer que revelo e do qual me orgulho). Para entender a magnitude desse número, basta projetar o tamanho dessas multidão de cadáveres. Hei de torcer, torcer e de torcer….

São 400 mil famílias, aproximadamente, que perderam entes queridos. São mais de 400 mil covas. 4 centenas de milhares de enterros…

Hei de morrer, morrer, morrer…

A morte desperta o amor em nós. E é pelo direito de honrar cada uma dessas mais de  400 mil vidas que, assim como a luta de Antígona, canto. A revolta é imensa. Quantas outras vidas ainda perderemos nos próximos 13 meses?

Aliás, até lá, em que supostamente estaremos a viver o “Bicentenário da Independência”, que possamos ter a consciência do que queremos para o nosso presente e para o nosso futuro. 2022, aliás, será ano de eleições gerais…

Encerro, no ano de véspera, com a esperança “canalha” que aprendi com o Baú do irmão de Mário. Nelson, o tricolor Nelson Rodrigues de “a vida como ela é”, certa vez, nos disse: “No Brasil, quem não é canalha na véspera é canalha no dia seguinte. O pudor é a mais afrodisíaca das virtudes. A liberdade é mais importante do que o pão. O brasileiro não está preparado para ser o maior do mundo em coisa nenhuma.”

Talvez, o viralatismo de Nelson venha a calhar num ano tão chinfrim e esculhambado como o das últimas 4 estações. O que pergunto é: estamos, então, preparados para sermos os piores do mundo naquilo que mais importa?

Em abril de 2021, mês que acaba de se encerrar, em nenhuma outra Pátria, morreram tantas pessoas em razão de posturas irracionais em relação ao combate ao Coronavírus. Tantas brasileiras e brasileiros com a continuidade da existência negada. Será esse o nosso destino?

Iremos torcer, torcer, torcer…?

Ou morrer, morrer e morrer…?

Será esse o nosso destino? Eis o som que o Maraca “gentrificado” ecoa Hoje. O silêncio é eloquente e produz louquidão e desatino — quiseram os deuses do futebol ordenassem “Lockdown”.

É um silêncio absoluto. O eco nos ensurdece.

Ainda se fala muito sobre o tal do 7 a 1. Bobagem. A mudez que desce sobre nós é aquele do gol que injustiçou o negro Arqueiro Barbosa, em pleno Maracanã, na final da Copa de 1950.

Ficaremos dançando amordaçados diante de tamanho massacre?

Para aludir à imagem que ilustra a nossa Coluna, nesta segunda (3 de maio), veja-se a figura de “Pomb”, artista visual e muralista famoso pelas ruas de Brasília…

A fotografia, registrada por este colunista, é uma cópia digital da Capa do último Março da Edição nº 174 da Revista Piauí. Trata-se de uma releitura de Pomb ao quadro “La Danse” (a dança) de Henri Matisse.

Eis o grito inefável que ouvi de um espelho chamado “povo brasileiro”… A dança macabra encarna o título da obra: “Igual, mas pior”.

Esse, o retrato deste primeiro quadriênio de 2021, quando comparado ao pandêmico 2020 — até então, entre nós, o “Ano da COVID-19”. Parece contagem regressiva, mas é pior: a imagem é de retrocesso.

Dândi-à-Deriva* é o pseudônimo de Daniel Vila-Nova, colunista, às segundas, neste espaço. O autor é  brasiliense (da clara e da gema), poeta de palavras, jurista e professor, com formação em Direito e em Política. Em 2009, publicou, pela LTR Editora, o livro “Rádios Comunitárias, Serviços Públicos e Cidadania: uma nova ótica constitucional para os serviços públicos de (tele)comunicações no Brasil” — fruto de sua dissertação de Mestrado em Direito, Estado e Constituição, pela Universidade de Brasília (UnB). Em 2017, publicou #PoesiaBinária: #Fr4gm3nt0s, pela Editora Cryativa. Neste 2021, defendeu a Tese de Doutorado “Supremologia: o STF nas encruzilhadas da Política & do Direito no Brasil”, pelo Departamento de Ciência Política do Instituto de Ciências Humanas e Filosofia da Universidade Federal Fluminense (DCP/ICHF/UFF). No Instagram mantém o perfil @vila_nov4.
Categorias: Ámérica do Sul, Direitos Humanos, Opinião, Política, Saúde
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