Um fracasso moral: bilhões de pessoas sem acesso à água potável

10.04.2021 - Organização das Nações Unidas - Inter Press Service

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Um fracasso moral: bilhões de pessoas sem acesso à água potável
(Crédito da Imagem: Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento - UNDP)

Por: Volkan Bozkir*

A ONU comemorou no 22 de março o Dia Mundial da Água.

A água é essencial para o desenvolvimento sustentável, mas estamos muito atrasados para alcançar os objetivos e metas que estabelecemos.

Pelas estimativas atuais:
– Cerca de 2,2 bilhões de pessoas – quase um terço da população global – continuam sem acesso à água potável tratada com segurança;
– 4,2 bilhões de pessoas – mais da metade da população do planeta – vivem sem saneamento tratado com segurança;
– 2 bilhões de pessoas não têm um banheiro decente;
– e 3 bilhões não tem instalações básicas para lavar as mãos – mesmo em meio a uma pandemia global.

Se posso ser sincero: é um fracasso moral vivermos em um mundo com níveis tão altos de inovação e sucesso tecnológico, mas continuarmos permitindo que bilhões de pessoas permaneçam sem água potável ou sem as instalações básicas para lavar as mãos. E não se engane, este é um fracasso global que tem implicações a longo prazo para todos nós.

Devemos lembrar:
– Água é vida. Simplesmente não podemos viver neste planeta – e certamente não em qualquer capacidade saudável – se formos privados desta necessidade humana mais básica. Todo o nosso sistema agrícola – todos os alimentos que consumimos – depende do abastecimento de água. O mesmo se aplica a todas as outras formas de vida neste planeta. Cada ecossistema, cada espécie depende da água.
– Água é sustentabilidade. Sistemas seguros de água potável e saneamento adequado são essenciais para garantir que as cidades cresçam de forma sustentável. Sem esses serviços e necessidades essenciais atendidos, nossa capacidade de fornecer educação, saúde e empregos e meios de subsistência serão prejudicados.
– E Água é empoderamento.

Embora tenhamos reconhecido o papel central das mulheres na provisão, gestão e preservação da água, a implementação desse princípio básico ainda está longe de ser adequado.

Para mulheres e meninas em todo o mundo, a jornada diária para coletar água pode ser um obstáculo ao acesso à educação, saúde ou trabalho. Não podemos empoderar as pessoas, não podemos levantá-las quando estão impedidas.

Cumprir o Objetivo de Desenvolvimento Sustentável 6 – ODS6 (Sustainable Development Goal – SDG6, em inglês) e garantir água e saneamento para todos é uma vitória em todos os aspectos. A água é um bem econômico e um acelerador dos ODS, facilitando o progresso em cada um dos outros ODS.

Por esta razão, devemos ver a recuperação da COVID-19 como um ponto de mudança na Década Internacional para a Ação, “Água para o Desenvolvimento Sustentável”, e redirecionar nossos esforços para a gestão sustentável e integrada da água.

Eu poderia apontar dezenas de exemplos em que a falta de água ou saneamento está afetando as pessoas em todo o mundo, mas o mais óbvio e mais atual é a pandemia em curso da COVID-19.

O fato de que bilhões de pessoas tiveram que enfrentar esta pandemia sem instalações básicas para lavar as mãos e que os profissionais de saúde em alguns dos Países Menos Desenvolvidos não tenham água encanada é impossível de aceitar, especialmente quando vivemos em um mundo com tanta abundância e de uma inovação tão profunda.

Este forte exemplo de desigualdade global pode e deve nos levar à ação.

Embora não possamos voltar atrás e mudar o que aconteceu, devemos reconhecer nossas falhas e usar esta oportunidade para eliminar as lacunas sistêmicas que permitiram que a crise florescesse. Quando a próxima pandemia ou crise global ocorrer, e sabemos que acontecerá, não teremos desculpa por não ter agido agora.

À luz de tudo o que acabo de mencionar, as nossas discussões e declarações atuais devem se concentrar em ações tangíveis e concretas que as entregam para os povos do mundo.

Entre as muitas áreas onde espero ver progresso está o suporte para o Quadro de Aceleração Global ODS6, que promete entregar resultados rápidos em escala, com ênfase na resposta e recuperação da COVID.

O quadro, e outros esforços como este, oferecem um caminho claro para acelerar os progressos no nível do país, mas continuam a ser muito subfinanciados. Assim como, a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico -OCDE observa que há uma necessidade crítica de investimentos em infraestrutura hídrica no valor de US $ 500 bilhões de dólares até 2030.

Por esta razão, apelo à comunidade internacional para que preste um maior apoio financeiro e de capacitação para as atividades relacionadas com água e saneamento, particularmente por meio de seu apoio à melhora da COVID-19.

Ao fazê-lo, peço que considerem e priorizem os países em situações especiais, especialmente os Países menos desenvolvidos, os Países em desenvolvimento sem litoral e aos Pequenos Estados Insulares em Desenvolvimento, e que façam todos os esforços para apoiar aqueles que suportaram o peso do impacto do déficit hídrico, especialmente mulheres e meninas.

Por último, solicito que nós, enquanto comunidade internacional, trabalhemos em estreita colaboração com os grupos da sociedade civil e com os jovens para reforçar os objetivos e atividades relacionadas com a água.

Jovens e grupos locais, com os seus ouvidos atentos e sua veloz habilidade de agir, são frequentemente os primeiros a introduzir novas tecnologias ou abordagens, devemos aproveitar esta ferramenta e capacitar todas as pessoas neste processo.

Os governos não conseguem cumprir a Agenda 2030 sozinhos e o forte engajamento das partes interessadas é essencial para a realização de todos os ODS. Por isso, é importante que possamos capacitar as partes interessadas de diferentes setores, desde a sociedade civil e a academia, até o setor privado para participar plenamente das discussões em eventos relacionados. 

Para este propósito, designei uma parte especial do painel de discussão, denominado “CSO Spotlight”, para dar a tantas partes interessadas quanto pudermos uma oportunidade de expressar suas preocupações, visões, planos, sucessos e lições, e chamadas para ação.

Para encerrar, permita-me enfatizar que nossa discussão hoje não é apenas sobre o líquido em uma garrafa… É sobre a sua presença ou ausência que significa muito mais.

É sobre dignidade.
É sobre oportunidade.
É sobre nossa saúde e nossa capacidade de sobreviver.
E é sobre igualdade.

* Volkan Bozkir, Presidente da 75ª sessão da Assembleia Geral das Nações Unidas, em seu discurso à Reunião de Alto Nível sobre a Implementação dos Objetivos e Metas relacionados à Água da Agenda 2030 em 18 de março.


Traduzido do inglês para o português por Doralice Silva / Revisado por Larissa Dufner

Categorias: Direitos Humanos, Ecologia e Meio Ambiente, Internacional
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