DEPOIMENTO

“Nós não morremos…!”

Em um reconhecimento espantoso, isto foi o que eu disse para mim mesma há mais de vinte anos, quando me deparei sem aviso prévio com o Local Onde Não Morremos.

Não sei como cheguei ali – talvez tenha algo a ver com os estímulos nervosos da massagem que recebi para curar a insônia. Mas o “como” pouco importa: corri atrás de mais massagens depois dessa, que sempre me deixaram nas realidades mais comuns.

O que importa é a possibilidade de que nós não morremos.

Para mim, uma massagem aleatória tornou essa possibilidade real, e isso mudou minha vida, preenchendo-a com um significado novo e prazeroso.

Claro que ansiava compartilhar as boas novas com o mundo desde então, embora até agora, exceto em algumas conversas com amigos e uns poemas e histórias, mantive a experiência apenas para mim. No fim das contas, eu não queria ser tachada como uma guru espiritual ingênua, e não via a grande mídia me dando muita bola.

No entanto, agora, acontecimentos recentes mudaram tudo. Com o desânimo avassalador que tantos estão sentindo diante da situação atual, eu não posso mais ficar calada.

Decidi tomar coragem seguindo o exemplo do pensador argentino, Silo, que declarou a própria fé na transcendência em 1980, durante uma conversa sobre o sentido da vida:

“Aqueles que alcançam a fé ou a experiência transcendental, mesmo que não consigam definir em termos precisos, assim como não se define o amor com precisão, vão reconhecer a necessidade em guiar outros em direção ao sentido da vida, embora nunca devam tentar impor suas próprias paisagens àqueles que não as reconhecem.”

“Assim… declaro minha fé e minha certeza perante todos, baseada em experiência, que a morte não interrompe o futuro, que a morte, ao contrário, modifica o estado provisório de nossa existência em transcendência imortal. E não imponho minhas certezas ou minha fé sobre ninguém, vivo em harmonia com aqueles que estão em estágios diferentes no que diz respeito ao significado da vida. Mas sou obrigado, em solidariedade, a oferecer esta mensagem, uma mensagem que reconheço fazer os humanos livres e felizes. De forma alguma deixarei de lado a responsabilidade de expressar minhas verdades, embora elas pareçam duvidosas para aqueles que vivenciam a natureza provisória da vida e o absurdo da morte.” *

Aqui, então, está meu testemunho, tirado de rascunhos feitos imediatamente após retornar de minha “ruptura”.

“Estou aqui de novo, no local que vivi há muito tempo minha juventude agonizante. Agora, como se o tempo não tivesse passado, eu e meus bons amigos estamos juntos de novo, todos jovens e saudáveis, conversando baixo enquanto compartilhamos pão e sopa em nossa mesa de tábuas em nosso canto de pau-a-pique em Santa Cruz. O calor do sol poente atravessa a porta dos fundos, capuchinhas douradas e verdes crescem nos batentes da porta, e tudo que ouço é o som do mar indo de encontro às dunas brancas…

“É tudo igual a quando era jovem e frágil, com uma diferença significativa. Agora, pela primeira vez, estou aqui por inteiro, completo e prazerosamente presente. Nos velhos tempos, quando ainda não tinha o coração jovem o suficiente para conhecer a mim mesma, passava meus momentos desperta voltada à introspecção, fascinada pelas sombras terríveis de meus medos, e mal notava a beleza e o calor ao meu redor, ou o brilho no rosto de minhas companhias…

“Mas agora, pelo menos estou presente de verdade, a vida preenchendo cada célula e cada fibra de meu ser com um oceano de paz e alegria. Eu sei que está tudo bem, sempre esteve, e sempre estará. Sei que nós não morremos, e que nada do que é bom se perde para sempre, e que toda negatividade não é nada além da má interpretação da realidade. Até os anos todos de minha juventude, que pensei estarem perdidos na miséria, estão aqui em todo seu esplendor, porque a essência de cada momento é eterna…”

Foi isso que escrevi. E é tudo. Naquela época, eu sabia que havia muito mais, se ao menos me lembrasse…, mas já havia me escapado…

De volta ao dia a dia, ou quase de volta, me encontro deitada no chão, recebendo minha massagem do jovem que acaba de montar seu consultório em São Francisco.

Ainda com um pezinho naquele abençoado outro tempo e espaço, imaginando se seria possível ficar por lá, perguntei a ele: “Você seria preso por assassinato se eu não voltasse?”

Surpreso, riu incerto e disse: “Você teve uma experiência forte…”

“Sim”, respondi. “Eu estava no Local Onde Não Morremos. Você sabe algo sobre ele?”

Ele não soube responder.

Quanto a mim, deixei, deixei seu consultório de joelhos, encantada além da conta, sentindo-me como se estivesse ganhado uma nova vida, uma vida na qual eu nunca mais teria medo da morte.

Nunca tive outra experiência como essa, e sei que do ponto de vista racional nada disso faz sentido. Mas nem por um segundo duvidei dessa verdade. Mesmo hoje, quando a experiência é só uma memória, ainda carrego a certeza. Sei com toda certeza de que nós não morremos.

Não que esteja tentando convencer alguém. Eu sei que cada um tem a sua própria verdade. Só quero compartilhar minha experiência porque ela me preenche com tanto alívio e satisfação, que tenho vontade de cantar de cima do telhado e trazer prazer aos outros.

Imagine o caos maravilhoso quando nossa imortalidade, de repente, se torna senso comum!

Nas manchetes:

NÓS NÃO MORREMOS!

REVELAÇÃO! A MORTE É UMA IMPOSTORA

E então a história:

Após sete milhões de anos de enganação, a Morte, o antigo chefão da humanidade, é finalmente exposta como uma fraude sem vergonha. Fontes internas revelam que após enormes perdas de natureza desconhecida, a Morte foi forçada a abandonar suas várias mansões em todos os continentes e agora vive em seu carro aos arredores de Las Vegas, Nevada…

E então, quase como um posfácio, em um quadradinho preto na página de última página, o obituário da Morte.

Com as porteiras abertas, e os testemunhos inundando o feed do Twitter de todo mundo: Viva! Eu tive a mesma experiência! E, por fim, os cientistas começam a testar a nova e radical “Teoria Completamente Benigna” da existência humana…

Quando este dia chegar, e ele vai chegar, imagine os rituais celebratórios de dança e canto que vão acontecer em todo o planeta! As empresas farmacêuticas irão perder uma fatia considerável de seus negócios, porque não haverá mais ansiedade, depressão ou estresse. Até a mãe de todos os medos, o medo da Morte, vai finalmente relaxar e começar a aproveitar a vida, talvez comece a pintar com aquarela…

É em antecipação a este dia que compartilho minha história. Sei que meu relato é uma piada, e anseio pelo dia que aqueles com credibilidade comprovada confirmarão esta verdade de uma vez por todas, poupando bilhões de céticos de sofrimento desnecessário. Até lá, relato minha parte como mais uma evidência de que é possível viver sem medo.

Não me leve a mal, não sou um iluminado. Enquanto a descoberta de que não morremos mudou algo profundamente em mim, infelizmente deixou quase intacto o frágil

castelo que minha vida aparenta ser. Eu ainda acordo todos os dias incerta, e ainda temo adoecer, perder as pessoas que amo, minha casa, meu dinheiro, minha vida física, como dita este reino de dor e prazer e mudanças constantes.

Mas, e essa é a melhor parte de saber que não morremos, minha vida não é mais regida pelo medo. Eu ainda me deparo com momentos de pânico, mas tenho raízes profundas, e através delas consigo sentir a calma que vem dessa profundidade.

E sei para onde vou e o que eu quero. Estou indo em direção ao Lugar Onde Não Morremos, e quando chegar lá, quero, mais do que tudo, abrir a porta para que todos, todos, todos possam entrar.

Até lá, fico feliz por estar aqui com todo mundo, nesta montanha-russa que chamamos de vida. Para evitar a queda, tento fazer o que os sábios sugerem: rezar, meditar, viver feliz, ser gentil, e agradecer.

Então, em gratidão por trilhar o caminho da vida, e em apreciação profunda por todos os avisos, pirâmides de pedra, bandeiras tremulantes de esperança e encorajamento deixada por outros viajantes no caminho, deixo ao meu lado minha própria bandeira de estímulo:

“Nós Não Morremos.

O que é bom nunca se perde

Negatividade é apenas uma má interpretação de uma realidade essencialmente benigna…”

*da conversa com Silo, no “Sentido da Vida”, Cidade do México, 1980.

Clique no link para ver o vídeo da autora lendo seu depoimento:

Relatos do Local Onde Não Morremos

(https://www.youtube.com/watch?v=GrgRksHAtac)


Sobre a autora:

Trudi Lee Richards

Escritora siloista, poeta, e cantora/compositora, curadora do Winged Lion Press Cooperative; tradutora Espanhol-Inglês. Seus trabalhos publicados incluem: The Confessions of Olivia; On Wings of Intent, a biography of Silo; Soft Brushes with Death, a Jorge Espinet Primer; Fish Scribbles; and Experiences on the Threshold. Projetos em andamento incluem: gravações em áudio e possivelmente um podcast sobre seu trabalho literário e musical. Trabalhos publicados anteriormente à internet incluem: Human Future, uma resenha independente publicada entre 1989-96 em São Francisco, CA, e La Mamelle, uma publicação de arte de São Francisco dos anos 1980, da qual ela foi co-fundadora. Graduada na Universidade de Stanford, é mãe de cinco filhos/enteados e cinco netos. Atualmente vive em Portland, Oregon, onde é membro da Comunidade da Mensagem do Silo de Portland.


Traduzido do inglês para o português por Fabricio Altran / Revisado por Larissa Dufner