Boa noite, John-Boy

14.02.2021 - New York - EUA - Marco Da Costa

Boa noite, John-Boy
(Crédito da Imagem: Ilustração por Guilherme Maia)
CRÔNICA

 

 

Por Marco Dacosta

 

 

O autógrafo de Susan Richardson ainda está visível na foto que ela me enviou, no verão de 1979. Foi inacreditável para um menino do subúrbio receber uma carta de um estúdio de Hollywood com uma grande foto autografada pela família Bradford de Sacramento, na Califórnia.  Eram os atores e atrizes do seriado “Oito é demais”, que assistia na minha pequena televisão preto e branco. Me enviaram uma carta assinada pelo ator William Aames e uma grande foto colorida autografada por todo o elenco. 

Guardei por anos essa recordação, em uma caixinha de sapato, com algumas notas de dólares e um isqueiro com um brasão comemorativo do bicentenário norte-americano, ocorrido alguns anos antes. 

 

Antes da internet, da web, de tudo, havia o tubo mágico da televisão e era por ele que eu recebia as imagens do seriado, nas manhãs de sábado. Passei a infância assistindo Jeannie era um gênio, a feiticeira e Agente 86, que eram comédias que de certa forma moldaram meu gosto pelo humor  e nos finais de semana,era a vez das famílias, “Os Waltons” e “Oito é Demais” que estreiam a sequência de dramas e comédias, que mostravam ao filho único como seria a vida em uma grande família, em um contexto de uma grande casa –  “Boa noite, John-Boy. Boa noite, Mary Ellen” era a frase de despedida de cada episódio, que ficou eternizada e até hoje marca a carreira do protagonista, Richard Thomas. 

 

Que similaridades poderia ter a minha vida no subúrbio do Rio nos anos 70 com aquela família do meio rural do estado da Virgínia, entre a Grande Depressão e a Segunda Guerra Mundial?  Nunca soube responder essa pergunta, mas acredito que eram as histórias de amor e resiliência, os dramas familiares e escassez, que ambos contextos possuíam. Minha rua era Sacramento e ao mesmo tempo Rockfish, Virginia. Acordei e dormi na garrafa de Jeannie e atravessei o túnel do tempo algumas vezes, como agora enquanto organizo esses parágrafos. 

 

Décadas se passaram até que meus olhos se depararam com os cabelos ruivos de Susan Richardson, em um trailer parque, na Flórida. Envelhecida, doente e vivendo em meio a fotos e recordações. Lembrei do autógrafo que o estúdio havia me enviado naquela época.  Descoberta pelo diretor George Lucas, hoje aos 65 anos, Susan nem de longe lembra a menina do seriado – você também mudou – me disse sorrindo, como se lembrasse dos que do outro lado da tela assistiam o programa  “todos nós envelhecemos – uns mais que outros”  me disse.  

 

  • Não sou da família Waltons ! Não sou tão velha assim –  sorriu

 

Expliquei que a TV Brasileira demorava muito a passar os seriados americanos e os seriados se misturavam nas tardes dos fins de semana – “Terra de Gigantes”, “Túnel do Tempo” se alternavam com “Dallas” e “Os Waltons”, na mesma sequência vinham os mais recentes. Até os anos 80 eram raros os lançamentos dublados que chegaram no mesmo ano.

 

Susan em minha memória falava em português, com sotaque carioca. A pequena cidade de Sacramento era íntima minha porque havia localizado no mapa, que guardava junto às lembranças do seriado.  Nas páginas de um antigo diário ficaram registradas em maio de 1979 ” Um dia vou a Sacramento..”  Nunca fui conhecer a casa da família Bradford na Califórnia e nem a Virgínia, onde fazendas se parecem com o casarão dos Waltons. No entanto, transformei aquela caixa na minha vida, me inseri ali, me tornando parte daquele mosaico.  

 

Susan Richardson foi minha vizinha por dois anos, em um trailer parque. Era como se parte do passado estivesse ali me rondando, me trazendo o que não consegui materializar. Assim como ela centenas de outros atores e atrizes dos anos 70, desapareceram das telas, vivem no anonimato.  O piano de Susan toca toda tarde no verão. Não é trailer de filme, é trailer de morar – mais pobre dos formatos residenciais na América do Norte.   São notas musicais que a mantém lúcida, e me lembram que a fantasia da televisão  muitas vezes se mistura com a realidade das vidas, nem sempre glamourosas e prósperas.

 

Minha cabeça mergulha em um álamo: John “John Boy” Walton, Maxwell Smart,  numa terra de gigantes que me perdi para sempre.  Olho no espelho e tenho saudades da criança que abriu um dia aquele envelope, chorou ao ver as fotos dedicadas a ele. É um carrossel de lembranças, de ilusões, de vidas que pensei que fosse viver e que através da tela me fizeram sonhar.   Na falta de um videocassete, que seria popularizado só na década seguinte, eu gravava os episódios e os guardava em fitas cassetes. Escutava a dublagem e imaginava as cenas da TV para que não desaparecessem da memória.  Dezenas de cassetes, registrados com caneta e letra torta, dia de exibição, um resumo.  Acredito que hoje minha capacidade de criar e imaginar tenha sido exercitada profundamente graças a todos aqueles anos em que o som despertava emoções. Resgatei a era do rádio dos meus avós por anos, ao guardar os sons dos seriados. 

 

Susan não deu importância a minha história, de caixas de recordações e de sua foto autografada.  Para uma criança norte-americana branca, de classe média da época, era inimaginável a realidade de um país pobre. Vivíamos no Brasil uma ditadura militar, era inalcançável para ela a ideia de superação que alguém daquela realidade estivesse ao seu lado, como vizinho. 

 

Sou mais um –  das centenas de fãs que a escrevem frequentemente. Sua mesa da sala está repleta delas e ela descansa em uma cadeira de balanço, sorrindo da minha ingenuidade. Seu sorriso é interrompido apenas por um insight ” lembra do tema da série “?  Me pergunta. E canta. 

 

Existe uma magia no início da manhã, nós descobrimos, Quando o nascer do sol sorri para tudo ao redor. É um retrato da felicidade que sentimos e sempre sentiremos… “Eight is enough” é  suficiente para encher nossas vidas de amor. E na minha cabeça, vou embora. Desapareço. Boa noite, John-Boy. Boa noite, Mary Ellen…

Categorias: América do Norte, Ámérica do Sul, Cultura e Mídia
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