Você sabe o que é ter um amor, meu senhor

10.01.2021 - New York - EUA - Marco Da Costa

Você sabe o que é ter um amor, meu senhor
(Crédito da Imagem: Ilustração por Guilherme Maia)
CRÔNICA

 

 

Por Marco Dacosta

 

 

“Nosso amor está firme, como concreto armado, como uma viga de aço que desliza o trem por onde passo”   – o trecho da carta de amor manuscrita em um folha datilografada, amarelada, foi uma das poucas heranças do meu pai.  Após sua morte, abri sua gaveta e só tinham manuscritos, a maioria cartas de amor datadas entre 1958 e 1961, quando finalmente se casou com minha mãe. Foi um romance que começou e terminou sob a malha ferroviária do subúrbio do Rio. 

 

Foi mais ou menos assim…

O trem lentamente chegou à estação de Sampaio. Era tarde de muito calor no Rio, 1958. As portas se abriram com muita dificuldade. Os trens eram amarelos, antigos e sem manutenção. As janelas eram de um material branco muito arranhado, fosco. As duas adolescentes morenas entraram sorrindo. Uma outra, mais velha, de cabelo bem claro e olhos amendoados, entrou por último, quase prendendo sua saia na borracha envelhecida que separava as portas. Sorriam da sua lentidão.

 

No canto direito do vagão, um jovem lia um jornal. Um grupo de operários, sujos de tinta, uma senhora bem vestida, uma negra com touca na cabeça. Foi uma viagem silenciosa até a estação Central do Brasil. Não era hora de movimento.

 

As adolescentes se entreolharam e riram. Uma, de aparência muito feliz, mostrava um recorte de revista. Era uma edição de noivas. A mais velha que as acompanhava, olhava com indiferença. O balançar do trem, o vento quente que entrava no vagão, o vai e vem nos trilhos. Tudo caminhava para uma tarde normal de verão, monotonia. Na estação seguinte entrou um jovem esbaforido, parecia correndo, apostando com um amigo que entraria primeiro. Usava um terno mal distribuído – aqueles que chegam de doação e que por falta de alfaiate se adapta ao corpo. Era alto, bem magro, tinha cabelos negros e olhos profundamente azuis. Quase imediatamente os olhares se cruzaram. As adolescentes cochichavam – que homem bonito, disse uma delas. A mais velha olhou com reprovação, como se sua tarefa fosse tomar conta das meninas. E era mesmo, tarefa designada pela avó, muito rigorosa. Estavam indo à costureira, na Rua do Ouvidor, para tratar do vestido de casamento de uma delas. Iria se casar no fim do ano com um jovem formado no Colégio Militar, na Tijuca. Todos da família, muito orgulhosos – menos aquela mais velha, já “solteirona” encarregada de levar e tratar sempre do casamento dos outros.

 

Mas foi para a mais velha, a solteirona da família que o jovem de olhos azuis olhou. Sorriu e comentou a seu amigo – que broto, não é ? E o olhar não saiu do alvo. O trem balançava, o sol entrava pelas janelas dificultando a visão, poeira. Ela olhava sem trégua. Os dois sorriram. – vou lá dar meu telefone – disse o rapaz ao amigo. Que telefone? Você não tem telefone naquele barraco em Honório Gurgel ! – Eu sei, respondeu ainda de olhos vidrados. O telefone da repartição…da repartição !

 

Do outro lado do vagão as meninas seguiam encantadas com as revistas, escolhendo os modelos, os cortes de tecido e as cores para o casamento. No canto, a jovem solteira da família, sorrindo para seu pretendente. Ele se aproximou com um papel meio amassado, escrito a lápis. Tinha varios no bolso para suas conquistas, mas nunca tinha feito isso no trem. Seu trajeto favorito era a Gafieira Estudantina, onde dançava até o amanhecer para cair de amor na Praça Tiradentes, cercado de meretrizes e bêbados. – Essa é moça de família, vai com calma, alertou o amigo.

 

Para a surpresa das meninas, a mais velha aceitou o bilhete, dobrou e colocou na bolsa. Tinha que tentar, afinal estava chegando aos trinta e todas suas irmãs e primas estavam casadas. As últimas, ali no vagão, estavam a caminho do altar. Saíram as três sorrindo – os rapazes acenaram com o chapéu. Em uma trêmula chamada telefônica, ela o convidou para uma festa de santo Antônio – na verdade, seu aniversário. Tinha balões, bandeirinhas coloridas, fogueiras.  

 

Se casariam nas festas juninas do ano seguinte em uma cerimônia simples, para poucos convidados como permitia o orçamento do então funcionário da ferrovia. 

Foi um casamento desastroso na maior parte, não deslizou suave como os trens, mas durou décadas até a morte dele nos anos 90. A lembrança daquele encontro e das cartas de amor datilografadas, a história do encontro nos vagões e plataformas ficaram na minha imaginação e moldaram o romantismo na minha infância. 

 

Ele chegou a ser apelidado de “Central” em referência ao prédio onde trabalhou por toda a vida e que por coincidência do destino eu mesmo iria ter minha mesa e cadeira, inclusive no mesmo andar e também como servidor público.  A ferrovia era pra ele mais do que o caminho até o trabalho, uma paixão retratada nas fotos e postais de máquinas incríveis a vapor e elétricas que circulavam no mundo. 

 

A ferrovia é o pano de fundo da história deles – e também da minha.  Nasci dessa relação conturbada em um hospital na frente de uma estação ferroviária, em uma noite de trovoadas em que os raios pareciam brincar de beijar os cabos de eletricidade, iluminando o quarto onde eu abri os olhos pela primeira vez.   Passei minha infância viajando pela serra da Mantiqueira, cortando os vales e montanhas que ligavam a estação Central do Brasil a Minas, para visitar meus avós em Juiz de Fora.  

 

Com poucos meses de vida, diziam, eu gritava a noite toda provocando a revolta dos passageiros da Litorina, um velho trem italiano, recauchutado para a RFFS –  mas confortável,  que seguia trilhos, túneis e muitas curvas que separam as duas cidades, com uma parada em Petrópolis.  Eu não me lembro bem, mas minha mãe garante que a única que conseguia me fazer parar de chorar era minha bisavó Virginia, uma “nonna” italiana de temperamento difícil que se derretia quando me tinha em seus braços.  Não tenho lembranças concretas dela, apenas vultos, memória fragmentada de uma casa grande de chão de madeira que fazia ruídos quando andávamos nos primeiros da infância.  Lembro-me de entrar correndo com minhas botas ortopédicas e de uma festa de aniversário em especial, quando sem que percebessem e numa cozinha dos fundos comi todo o confeito feito de estrelinhas que havia no bolo. Horas antes da festa lembro da confusão para refazer o estrago. Afinal, como essa criança conseguiu subir numa mesa ?

 

No dia dessa festa, meu tio Ricardo, um jovem de vinte e poucos anos, me segurou na cintura e me levantou. Ele tinha um arco e flecha na parede do quarto, fotos de violão e uma namorada de cabelos longos e negros, como uma índia. Foi a última lembrança dele, que morreria em um acidente de carro naquele mesmo ano de 1971.  Novamente fragmentos, gritos e sussurros.  Ficou a lembrança apenas daquele bolo desfigurado, dos objetos hippies e do chão de madeira que estalava. Novamente o trem me levou embora e a cada volta eu estava mais alto, mais magro e mais indiferente a família.  

 

O trem e as viagens eram como as balas que minha mãe e tias faziam na cozinha antes do Natal, balas de “puxa-puxa”, quentes e escorregando manteiga nas mãos, moldando e esticando, mudando a cada volta que fazia nas mãos enrugadas de minha avó.  Assim como a bala, eu ia e voltava naquela estrada de ferro, estava meu corpo e crescia, sentia dores nas juntas, passava álcool para atenuar as dores  “Ele está virando um homenzinho” disse um médico ao ouvir meu pai relatar o sofrimento durante as noites quando minhas pernas pareciam reproduzir os movimentos do confeito das balas, estica..estica…e se transforma em outra coisa. 

 

Cresci e de novo fui morar próximo a uma estação de trem, no subúrbio do Rio, em Oswaldo Cruz, um bairro onde a vida girava em torno de sua estação ferroviária e era dividido pela linha do trem.  Ou você morava aqui, ou “do lado de lá”.  Meu trajeto até a escola, minhas visitas a amigos, tudo era mais rápido e fácil com o trem – especialmente no início dos anos 80, quando nos surpreendiam os chamados “trens japoneses”, metálicos e brilhantes, que começaram a substituir os antigos trens azuis e vermelhos, sem portas e sem esperança. Foi também encharcado de perfume e com calça boca de sino que pegava o trem para o baile de charme e soul na adolescência.

 

Garotos de classe média suburbanos sonham com carros e sabem as marcas de vários de memória.  Eu confesso que era tudo muito distante de mim. Minha única experiência com carro foi um velho landau que troquei por uma câmera de super oito e que nunca saiu da calçada. Era um lugar para encontrar amigos, para ouvir música e fingir que dirigia.  Virou um monumento a nossa monotonia e nem me lembro que fim levou, mas desapareceu de nossas calçadas, assim como as brigas de rua, a festa junina e as rodas de samba.  Tudo se foi em um piscar de olhos, e quase todos casados e com filhos, repetindo os rituais. Eu não fiz parte desse processo, peguei o trem e fui para todas as estações de trem que meu pai sonhava e imaginava nos cartões postais. 

 

Lembrei dele quando pisei na estação central em Berlim, na Gare Du Nord em Paris, na Victoria Station em Londres.  A Grande Central Station em Nova Iorque tem os mesmos cheiros das plataformas, dos bancos de madeira e da graxa. Segui percorrendo estradas de ferro e de ar. As ferrovias não só carregam pessoas de um lugar para o outro.  Elas são as artérias de um país. 

 

Eu mesmo sou uma prova dessa mágica que é essa rede de trilhos.  Me foi dito que sou filho de uma estrada de ferro,  do ranger dos trilhos nas tardes quentes da estrada de ferro Central do Brasil.

 

 

Categorias: América do Norte, Ámérica do Sul, Cultura e Mídia
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