Abrace as comunidades para salvar a humanidade e o planeta

12.01.2021 - Limache, Chile - Howard Richards

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Abrace as comunidades para salvar a humanidade e o planeta
(Imagem de Ricardo de la Fuente)

É chegado o momento de enfatizar o que deveríamos sempre ter feito, ou seja: alinhar todos os setores rumo ao bem comum. Essa ideia ainda indefinida inclui compartilhar o excedente, deslocar os recursos de onde eles não são necessários para onde são necessários, seguindo o antigo princípio que o Papa Francisco agora repete, de uma forma ou de outra, quase todos os dias: nossos bens não são exclusividade nossa, mas também àqueles a quem podemos ajudar com o nosso excedente. Trata-se de promover a paz por meios pacíficos; educação, ética e aplicações práticas; mais do que fazer jogo duro com pessoas que escolhem viver de acordo com uma filosofia diferente.

Neste editorial, refiro-me especialmente aos Estados Unidos, onde o futuro da democracia agora está em jogo. Certamente considerações semelhantes se aplicam, pelo menos em certa medida, a outros lugares. Recentemente, a historiadora Kathleen Belew, da Universidade de Chicago e sua equipe vêm documentado meticulosamente como os movimentos antidemocráticos são abrangentes, bem organizados e bem armados. Quando seus membros são presos e levados a julgamento (até agora apenas em estados majoritariamente republicanos), eles são constantemente absolvidos, porque os júris compartilham dos mesmos valores. A presidência de Trump os encorajou. A principal publicação de  Kathleen Belew, baseada em sua tese de doutorado, chama-se Bring the War Home: The White Power Movement and Paramilitary America (Traga a guerra para casa: o movimento do poder branco e a América paramilitar, em tradução livre), publicado pela Harvard University Press, em 2018. Ela e outros especialistas atualizam constantemente a tese e a relacionam com eventos atuais em declarações frequentes que aparecem na imprensa e em matérias on-line. 

Discutirei duas prioridades na situação de hoje. A primeira é sobre o resgate do Partido Republicano de Trump. Esse partido deve voltar à sua antiga marca registrada: o partido favorável aos negócios, com ênfase em um corolário: o governo é favorável aos negócios, e os negócios são favoráveis à comunidade. Essa formulação reconhece o que sempre foi verdade: as repúblicas modernas não foram projetadas para resolver problemas sociais e não podem resolvê-los. Esse foi um dos pontos enfatizados por Joseph Schumpeter, quando ele renunciou ao cargo de Ministro das Finanças da Áustria, em 1918. Foi reafirmado em The Legitimation Crisis, por Jurgen Habermas, em 1974, e demonstrado em um estudo multicultural sobre o fracasso de sete democracias sociais, em The Dilemmas of Social Democracies, por Joanna Swanger e por mim, em 2006.

Considerando que as economias de governo totalitários também não funcionam, muitas pessoas estão depositando suas esperanças – sem necessariamente expressá-las em nosso vocabulário – no que alguns de nós chamamos de organização sem limites. Nós e os outros estamos descobrindo que os prováveis candidatos para salvar a humanidade de sua crise civilizacional nos EUA e em outros lugares são os alinhamentos entre setores – público, privado, cívico, trabalhista, educacional, comunidades religiosas etc. – para se chegar ao bem comum. O alinhamento entre esses setores na luta contra o apartheid na África do Sul foi um precedente importante.

Sobre a necessidade de colaboração intersetorial, o Fórum Social Mundial (com ênfase na organização de territórios) e o Fórum Econômico Mundial estão chegando a conclusões semelhantes.

Uma vez que nos EUA e na maioria dos lugares durante e após a Covid-19 quase todas as empresas dependem de alguma forma de resgate ou estímulo do governo para sobreviver, é um momento oportuno para apresentar um argumento ético do qual poucos discordariam: um governo favorável aos negócios e negócios favoráveis à comunidade andam juntos.

Pensando em necessidades básicas, vemos que os negócios favoráveis à comunidade não são novidade nos EUA. Em cada cidade os empresários que têm como objetivo principal sustentar a família e deixar algo de valor para seus filhos (que formam o que o economista argentino José Luis Coraggio chama de economia do povo) ingressam em clubes de serviço como Kiwanis, Rotary ou Lions; enquanto isso, as crianças ingressam nos escoteiros e muitas vezes frequentam escolas que exigem serviços comunitários para se formar. Em muitos casos, a família toda frequenta uma igreja que ainda se lembra que é mais glorioso dar do que receber.

Mas como as pessoas que não são republicanas podem contribuir para separar o Partido Republicano de Trump? Se elas tentarem, não vão persuadir involuntariamente esse partido a manter Trump, por que vai parecer que sua atração magnética de obter votos é o que os democratas mais temem?

Minha sugestão é apostar no impulso que o serviço comunitário já tem e, fora isso, não abordar diretamente a política. Em vez disso, ser voluntário para atividades que construam comunidades saudáveis, onde a violência em geral diminui e a paz se estabelece. A construção comunitária é o que temos que fazer para tornar o homo sapiens e a terra uma espécie e planeta viáveis, respectivamente, com ou sem a ameaça à democracia existente nos EUA hoje e que provavelmente não desaparecerá em breve. Agora é um momento apropriado para expor tudo isso. Muitos conselhos práticos e fáceis de seguir sobre como construir uma comunidade, apoiados por pesquisas confiáveis, estão disponíveis no Search Institute. O foco está na juventude, mas os resultados afetam todas as idades.

Embora essa fonte particular de orientação prática possa ou não ser aplicável em uma cultura diferente daquela em que a pesquisa que a validou foi feita, eu afirmaria os seguintes princípios gerais: a humanidade e o planeta precisam de mais comunidades e menos economia. Em muitos casos, existe experiência e evidências para fornecer orientação racional ao dedicar recursos para atingir esse objetivo (outro humilde exemplo, Andersson e Richards, Unbounded Organizing in Community, 2015).

Mas e quanto ao nível estratosférico, diferente do básico? E as empresas multinacionais, o Vale do Silício, a quarta revolução industrial, a globalização, a concentração de riqueza no 1% do topo da pirâmide, os níveis sem precedentes de dívida pública e privada impagáveis ​​em todo o mundo, os megabancos, a evasão fiscal maciça, os complexos industriais militares, as guerras intermináveis e a ascensão da China? Neste mundo onde tudo depende de todo o resto, nada disso está alheio à crise da democracia nos Estados Unidos. Mas só tenho espaço para dois pontos prioritários, então devo deixar o nível estratosférico de lado, por enquanto. Meu segundo ponto prioritário é que algo deve ser feito para aliviar a dor, os erros conceituais e a humilhação que impulsionam a crise. Trump tinha apoiadores negros e os nomeava para cargos em sua administração, só que mesmo assim ele não se distanciou significativamente da supremacia branca. Os milhões que votaram nele ainda estão por aí. Seus motivos para apoiá-lo – incluindo os motivos que chamo de dor, erro e humilhação – ainda estão por aí, também.

A dor tem vários indicadores. O mais dramático é o declínio da expectativa de vida. A análise estatística mostra que isso se deve inteiramente a mortes anteriores relacionadas ao desespero e à depressão no setor da população que votou mais firmemente em Trump, os homens brancos com baixa escolaridade. Suas mortes prematuras são frequentemente devido ao alcoolismo, overdoses de drogas, suicídio e negligência de orientação médica, dentre aqueles para quem pouco importa se eles vivem ou morrem.

Talvez o erro conceitual mais importante seja a crença inquestionável de que é possível que todos tenham sucesso em uma economia de livre mercado puro. Sucesso significa ganhar dinheiro. Isso significa que os recursos a receber excedem as contas a pagar. As vendas excedem as compras. Mas somadas em toda a economia, nesse balancete  os créditos são iguais aos débitos, as vendas são iguais às compras etc., porque o que uma receber tem a receber de uma pessoa é o que a outra pessoas tem a pagar, a venda de uma pessoa é a compra de outra. MLK Jr. entendeu perfeitamente essa e outras limitações inerentes ao capitalismo do livre mercado, embora muitas vezes tenha relutado em falar sobre isso em público. Ele sabia que seu povo, os negros, assim como outros povos também historicamente oprimidos, como os índios americanos, só poderiam ser realmente livres quando todos fossem livres. Ele propôs uma economia radicalmente diferente, a qual ele frequentemente chamava (seguindo o filósofo Josiah Royce) de “uma comunidade amada”.

A humilhação acontece quando você é rebaixado, exposto como não sendo o que finge ser ou o que deveria ser. Por exemplo, você é humilhado quando você deveria ser uma boa mãe ou um bom pai criando seus filhos, como os bons pais fariam, comprando-lhes aulas de música e presentes de Natal, mas o mercado de trabalho não está comprando os serviços que você tem para vender.

Como podemos aliviar a dor, a confusão e a humilhação? Eu sugeriria, como ponto de partida, admitir que não sabemos como e, em seguida, nos comprometer – como indivíduos e como instituições cívicas, educacionais, médicas, comerciais e públicas – a tentar, fazer o melhor que pudermos, aprendermos com a experiência e educação contínuadas.

Embora Trump tenha perdido a eleição, ele e seus apoiadores, que foram candidatos a cargos menos importantes, saíram-se melhor do que as pesquisas previam, provavelmente porque os eleitores entrevistados não queriam confessar seu racismo ao entrevistador. Então, em segredo, eles votaram de forma racista. O fato de o racismo ainda ser acentuado não deveria ser surpreendente. A psicologia (como, por exemplo, as experiências de Muzafer Sherif) ensina que os humanos naturalmente tendem a preferir pessoas como eles. É uma preferência que facilmente se intensifica e se transforma em racismo. Como John Dewey enfatizou, direitos iguais para todos os seres humanos devem ser ensinados e aprendidos.

Para a nova administração, será difícil superar a administração Trump. Ele pode alegar que gerou pleno emprego, bateu recordes nos lucros corporativos e aumentou os preços de ações nas bolsas de valores.

Como ele fez isso? Pegando emprestado quantias astronômicas, elevando a dívida federal para mais de 28 trilhões de dólares e, para completar, criando outros 3 trilhões por decreto, do nada. Ele teve a sorte de ser presidente quando as taxas de juros estavam perto de zero. Ele foi capaz de cortar impostos, distribuir dinheiro ao público, aumentar os salários dos militares e fornecer às empresas empréstimos quase sem juros que a administração poderia usar para comprar de volta as próprias ações das empresas. As recompras aumentaram os preços das ações e, com base nisso, geraram qualificações para os bônus. Agora, Trump insiste que foi reeleito e impedido de um segundo mandato por uma fraude monumental.

De fato, um histórico difícil de superar. O novo governo será obrigado, inevitavelmente, a continuar com os empréstimos ilimitados de Trump, esperar e rezar para que as taxas de juros não voltem a patamares mais próximos à normalidade. Diante da realidade de certas questões, Biden também será obrigado a reverter o completo desmantelamento da proteção ambiental por parte de Trump. Será obrigado porque a alternativa é o suicídio ecológico. E se, por exemplo, Biden não estiver disposto ou não puder continuar a intimidar a Alemanha para que compre o gás americano caro, quando o gás russo é muito mais barato, causando assim a perda de ainda mais empregos gerados por Trump?

O crescimento econômico na administração Biden e Harris provavelmente será lento ou ficará até ficar no vermelho. Para os amantes da paz, o que outros consideram falhas na política econômica, na verdade são oportunidades de demonstrar na prática que o baixo crescimento ecologicamente correto, o ato de compartilhar e cuidar, de fazer mais com menos, é uma coisa boa, e não uma coisa ruim. Mas será que a maioria nos dará atenção?

Em geral, as ameaças à democracia e outras ameaças existenciais, nos EUA e no restante do mundo, estão longe do fim. Joseph Schumpeter, mais conhecido como o pai da teoria da inovação, e também (como mencionado acima) por declarar que as repúblicas modernas nunca foram projetadas para resolver problemas sociais, seria o primeiro a ver que o governo sozinho, fazendo o que os governos normalmente fazem, não pode nos salvar. Deve haver políticas inovadoras.  Deve haver contribuições inovadoras de todos os setores. Subindo por um momento até o nível estratosférico, as grandes empresas devem levar a sério as palavras de Peter Drucker:

“Na sociedade moderna não existe outro grupo de liderança além dos gestores. Se os gestores de nossas principais instituições, e especialmente das empresas, não assumem a responsabilidade pelo bem comum, ninguém mais poderá ou desejará fazê-lo.”

Ocorre que as grandes empresas, grandes governos, grandes universidades, grandes meios de comunicação honestos, a aplicação da lei de forma clara, grandes sindicatos e grandes fundações filantrópicas que trabalham juntos não podem nos salvar sem as contribuições dos cidadãos comuns, dos escoteiros, das enfermeiras que trabalham horas extras e dos professores da terceira série.

E as contribuições dos mais pobres entre os pobres. Como os mais pobres entre os pobres conseguem dignidade e felicidade, trabalhando juntos para resolver seus próprios problemas e os problemas uns dos outros? Essa é uma pergunta para a qual Joe e Jill Biden podem facilmente encontrar uma resposta, pois dois especialistas nesse tema são bons amigos do casal: Barack e Michelle Obama. Eles estagiaram e estudaram com John McKnight, autor de Community and its Counterfeits e outros livros de leitura obrigatória. O restante de nós, que temos menos oportunidades para jantar com Barack e Michelle, podemos pesquisar no Google “Desenvolvimento Comunitário baseado em ativos”.


Traduzido do inglês para o português por Marcella Santiago / Revisado por José Luiz Corrêa.

Categorias: América do Norte, Opinião, Política
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