#EndSARS: Como é estar no lugar de um jovem nigeriano

03.11.2020 - The Conversation

#EndSARS: Como é estar no lugar de um jovem nigeriano
#EndSARS. Protesta eM Lagos, Nigeria. Oct. 2020 (Crédito da Imagem: Kaizenify. Wikimedia. CC-BY-SA-4.0)

Após semanas de protestos em todo país contra a violência policial liderados por jovens nigerianos que se queixam de serem alvos da polícia, Adejuwon Soyinka pediu a Oludayo Tade*, um sociólogo, para nos ajudar a entender o que é ser um jovem vivendo no Nigéria hoje.

Por que os protestos foram conduzidos por jovens nigerianos?

O gatilho imediato do protesto veio com o tratamento brutal sofrido pelos jovens nigerianos pelo, agora dissolvido, Esquadrão Especial Antirroubo (SARS), uma unidade da polícia nigeriana com um longo histórico de abusos. Membros da unidade policial extorquiam e abusavam da privacidade de jovens através da criação de perfis negativos. A maioria dos mortos pela equipe tática da polícia são jovens que não cometeram nenhum crime.

Os esforços das famílias e amigos dessas vítimas para conseguir justiça acabam, em sua maioria, não dando em nada. Enquanto os “criminosos fardados” continuam em liberdade, não resta nada às vítimas a não ser lamentar suas perdas.

Os jovens nigerianos sofrem com a má administração do governo desde o retorno da democracia em 1999. Sua educação recebe financiamento inadequado, com laboratórios mal equipados, albergues inabitáveis e professores desmotivados. Cerca de 14 milhões de jovens nigerianos estão fora da escola, em parte por causa da falta de segurança e também por não poderem pagar uma formação. Cerca de dois milhões de jovens nigerianos prestam o vestibular todos os anos. Mas apenas cerca de 500 mil são admitidos nas universidades. Mais de 90% se candidatam a instituições públicas de ensino, a maior parte das quais sofrem com a degradação de suas infraestruturas.

Além disso, os jovens nigerianos são os mais afetados pelo desemprego. Há 21,7 milhões de nigerianos desempregados, e deste número 13,9 milhões são jovens.

Há cada vez mais desesperança e frustração entre eles. Os jovens nigerianos vivem sob um sistema no qual a classe dominante leva tudo.

Qual é a sensação de ser um jovem vivendo na Nigéria hoje em dia?

Os jovens nigerianos são chamados de geração iPhone ou Twitter. O presidente Muhammadu Buhari os descreveu como um corja de preguiçosos que estão à procura de ganhar coisas de graça. Além deste estereótipo da parte do presidente, qualquer jovem bem sucedido é falsamente identificado como alguém que está envolvido com fraudes na internet. Era disso que o SARS se aproveitava, atacando qualquer pessoa na estrada que carregasse um notebook, tivesse um iPhone ou que dirigisse um carro de luxo. Eles fazem isso, não para prevenir o crime, mas para assediar, ameaçar e incriminar a população jovem, acusando-os de roubo ou ameaçando-os de morte. Os casos de tal comportamento são abundantes.

Assim, torna-se um crime vestir-se bem, ter uma boa aparência e possuir itens como um notebook.

Os jovens nigerianos vivem, em grande parte, à margem da sociedade.

Por que estes protestos em particular são diferentes?

O momento coincidiu com o sentimento de exaustão das pessoas em relação à muitas questões que o Estado nigeriano não conseguiu resolver. A economia está parada devido à COVID-19. Mas a intimidação e os assassinatos cometidos pela polícia não pararam durante a pandemia.

Estes protestos são coordenados pela Internet, e então as pessoas se encontram presencialmente. Está tudo muito bem organizado.

Vários grupos fizeram parte das manifestações. Entre eles estão estudantes que estão em casa devido a uma greve de 7 meses do Sindicato Acadêmico dos Funcionários das Universidades para forçar o governo a financiar as universidades públicas de forma adequada; há também os jovens desempregados que se formaram nas universidades, mas que ou nunca tiveram emprego ou perderam o emprego durante a pandemia; e, por último, as vítimas da violência policial, assim como suas famílias e amigos também se mobilizaram.

Este protesto é em grande parte organizado por jovens nigerianos que nunca estiveram sob governo militar. Isso é significativo?

A democracia voltou à Nigéria em 1999 – há mais de 20 anos–, mas as coisas não melhoraram. Esta geração é a geração da internet. Eles ouvem histórias do passado glorioso da Nigéria de seus pais e na literatura, mas são servidos com um presente amargo. Eles também sabem o que acontece e do que desfrutam os cidadãos de outros países. Os jovens não precisam ter contato com um governo militar para se oporem a um sistema que não está funcionando ou satisfazendo suas necessidades e anseios.

O que você consideraria importante levar como lição deste protesto?

A primeira lição é que a forma como o protesto foi organizado sugere que há um futuro para o país. Os manifestantes mostraram empatia e criaram oportunidades de emprego. Eles mostraram a importância de cuidar das pessoas, fornecendo alimentos e bebidas para os manifestantes. Trataram os feridos e prestaram apoio aos vulneráveis.

Eles também juntaram dinheiro para o financiar os protestos e gerenciaram os valores sem a necessidade de criar um comitê, como teria feito o governo.

E mostraram que a religião, a política partidária e a etnia são ferramentas de divisão usadas pela classe dominante para manter as pessoas divididas enquanto são exploradas.

Em segundo lugar, os manifestantes usaram os protestos para mostrar o seu amor pela Nigéria. Eles mostraram por que as pessoas precisam se posicionar contra a tirania da classe dominante.

Em terceiro lugar, o protesto fez muitas pessoas acordarem e perceberem a necessidade de agir para que haja uma reforma na polícia nigeriana.

Por fim, há uma nova onda de cidadãos que estão dispostos a lutar pelos seus direitos na Nigéria. Se isso durar, poderá redefinir o país e tornar o governo responsabilizável, responsivo e responsável.


* Pesquisador em criminologia, victimologia, fraudes eletrônicas e crimes cibernéticos da Universidade de Ibadan

 

Traduzido do inglês por Grazielle Almeida / Revisado por Thaís R. Bueno

Categorias: Africa, Jovens, Não violência, Opinião, Política
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