Eleições e representatividade: quando “ser” nem sempre “é”

07.11.2020 - Bahia, Brasil - Verbena Córdula

Eleições e representatividade: quando “ser” nem sempre “é”
K-Guy arte de rua, Shoreditch (Crédito da Imagem: duncan c)

Conforme o IBGE (2019), a população brasileira é composta por 48,2% de homens e 51,8% de mulheres. Além disso, de acordo com o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), apesar de as mulheres representarem 52,49% do eleitorado (de um total formado por 147.918.483), elas somam apenas 33,3% do total de candidaturas neste ano. De fato, há um desequilíbrio nesse processo, que demonstra as desigualdades de gênero existentes no Brasil. Mas é importante ter em conta que votar em uma mulher não necessariamente significa que esta irá representar os interesses desse grupo social.

O TSE recebeu pouco mais de 522 mil pedidos de registro de candidatura, dos quais 183 mil foram feitos por mulheres. Este número, muito inferior em relação às candidaturas masculinas, são um recorde para as eleições municipais de 2020, se comparados com os pleitos de 2016 e 2012, quando as mulheres representaram 31,9% e 31,5%, respectivamente.

Ao vermos esses números, mesmo ainda incipientes, poderíamos pensar que os processos eleitorais brasileiros têm evoluído no sentido da representatividade de gênero. Pelo menos é o que nos vem à mente logo em um primeiro momento. No entanto, se pensamos no papel do/a representante enquanto alguém que age em favor de outro/s, em seu nome, em seu lugar, em seu benefício e interesse, de acordo com suas reivindicações, demandas e necessidades, vamos perceber que não é bem assim.

Ser mulher (ou fazer parte de outras minorias como negro, indígena, LGBTQIA+, entre outras) não significa, necessariamente, ter consciência de sua condição e, portanto, do papel que deve desempenhar enquanto ser social, muito menos enquanto representante nas esferas político-representativas quando ali consegue-se chegar. A história mundial está cheia de exemplos, dos quais cito a Primeira-Ministra do Reino Unido durante o período de 1979 a 1990, Margaret Thatcher.

O gênero não define quem somos

Conhecida como a “Dama de ferro”, Thatcher promoveu medidas políticas e econômicas que deram ênfase a mercados de trabalho flexíveis, a privatização de empresas estatais e a redução do poder e influência dos sindicatos, medidas liberais que empobrecram as classes mais vulneráveis, que perderam rendas, que foram vítimas de aumentos seletivos de aluguéis e de taxas de refinanciamentos e empréstimos sociais, entre outras que afetaram duramente os setores mais vulneráveis. Conforme Lenon Campos Maschette, em seu estudo intitulado “Thatcherismo e cidadania: razões para o surgimento do conceito active citzenship no final dos anos 80”, entre 1979 e 1989, a renda dos 20% mais pobres caía, enquanto aumentava a dos 20% mais ricos.

Milhões de mulheres foram duramente afetadas negativamente devido às políticas adotadas por Thatcher. Vê-se, portanto, que uma mulher pode ser tão ou mais cruel do que um homem, pois o gênero não define quem somos no que diz respeito à nossa maneira de encarar o mundo e os problemas nele existentes. Nosso gênero não define como iremos legislar ou governar quando assumimos esses postos.

Diante disso, a melhor maneira de proceder, antes de votar, é pesquisarmos o histórico de qualquer pessoa (homem ou mulher). Esta é a única maneira de diminuirmos os riscos de não sentir-nos representados/representadas, já que a pesquisa não assegura uma boa representação (uma vez que o ser humano pode mudar de atitude a qualquer momento. No entanto, de posse do histórico), mas nos possibilita termos uma ideia acerca das condutas dessa pessoa, o que nos indicará se vale a pena ou não arriscar.

Ser mulher, ser negro ou negra, ser parte de uma minoria não faz de ninguém um/uma bom/boa representante das causas dessas minorias. Nos processos eleitorais, incluindo-se as eleições municipais 2020 no Brasil (considerando-se que a população brasileira em geral, e as minorias em especial não se veem representadas), candidatos e candidatas têm usado suas identidades de gênero e étnica, sua orientação sexual, entre outras características como forma de obter votos desses grupos sociais, sem possuir qualquer compromisso com as bandeiras que estes defendem historicamente.

Na hora do voto, portanto, é preciso termos em mente que nem sempre “ser” (negro, gay, indígena, quilombola, mulher) é estar credenciado/credenciada para representar essas e outras minorias, porque nem sempre “ser” é ter consciência de quem é.

Categorias: Ámérica do Sul, Opinião, Política
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