Protagonismo feminino

25.10.2020 - Campos, RJ. Brasil - Vera Lucia Gregorio

Protagonismo feminino
Mulher com máquina de costura. 1954, Litografia. Tate Gallery, London (Crédito da Imagem: Lluís Ribes Mateu. CC BY-NC 2.0)
CRÔNICA

 

 

Antes mesmo de abrir os olhos já ouvia aquele barulhinho da máquina de costura a trabalhar incessantemente. O mesmo barulho que ouvia quando tinha me deitado na noite anterior.

Pensava irritada “mas que droga!!! Ela não para nunca!??!! A gente dorme, acorda e lá está ela medindo, cortando , costurando, cerzindo, alinhavando..”

Com o tempo passei a entender que era dali que vinha o complemento da renda para sustentar a casa, além de costurar para a família inteira. E ainda mais! Aproveitava as sobras dos tecidos que as clientes gentilmente doavam para fazer verdadeiros milagres transformando-as em roupas para os filhos menores.

Usei, e meus irmãos também, muitas roupas de retalhos!!

Com o tempo passei eu também a me sentar num banquinho perto dela, na máquina, para ajudar nas costuras à mão.

Ela marcava a bainha a ferro, bem marcada, alinhavava e me dava pra fazer, com a recomendação de que não podia aparecer nenhum pontinho pelo lado direito da roupa.

Eu ia fazendo e ela, de tempos em tempos, conferia pra ver se não estava aparecendo pontinho ou ficando franzido. Se não ficasse perfeito tinha que desmanchar e fazer tudo de novo.

Chorei muito até aprender a fazer de forma impecável.

Minha mãe nunca fez curso de corte e costura. Ela aprendeu com a mãe dela que ensinou a todas as filhas o seu ofício, na esperança de que elas não tivessem que “pegar no cabo da enxada”.

Bem, sendo assim ela não sabia tirar moldes de roupas das revistas de modas e, como ela costurava muito bem, começaram a aparecer clientes querendo as roupas que apareciam na TV e os moldes que saíam nas revistas.

Comecei então a copiar os moldes das revistas pra ela.

Eu ficava impressionada com a habilidade dela em fazer os modelos perfeitos. Era como se eles criassem vida e saíssem das páginas da revista.

Desse jeito fomos criando uma relação de mãe e filha assim no trabalho lado a lado, no entendimento pelo olhar, com poucas palavras, raros abraços, raríssimos beijos.

Porque minha mãe não é mulher de beijos e abraços.

Minha mãe é mulher de trabalho e brabeza!

Minha mãe é mulher de “levanta agora, porque quem dorme de dia é preguiçoso!”

Minha mãe é mulher de “hoje é domingo e tem que ir à igreja sim! ”

Minha mãe é mulher de “não fez mais que sua obrigação! ”

Minha mãe é…

É mãe de nove filhos do seu ventre

É mãe de mais três filhos do ventre do seu ventre

É avó de vinte netos

É bisavó de treze bisnetos

E trisavó de um rapazinho e com outro a caminho.

Enfim,

Minha mãe foi protagonista da sua própria história, foi feminista à frente do seu tempo, é referência de perseverança e resiliencia.

Categorias: Ámérica do Sul, Cultura e Mídia, Gênero e feminismos
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