O expresso de Varsóvia, que vinha de Praga

27.09.2020 - Nova Iorque, EUA - Marco Da Costa

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O expresso de Varsóvia, que vinha de Praga
(Crédito da Imagem: Marco da Costa)
CRÔNICA

 

 

A primeira lembrança que tenho daquela noite de outono foi uma queda na escada do trem. Já passava da meia-noite na estação central de Berlim, quando o trem vindo de Praga aproximava-se  da estação. Não estava certo se aquele trem seria o que eu teria que entrar para chegar a Frankfurt. Comprei a passagem pela Internet, horas antes, e sem ter a menor idéia de como funcionavam os trens de longa distância na Alemanha.  A madrugada começava fria e eu estava lá, olhando aquele gigante metálico de dois andares, com uma mochila pesada e uma pequena mala de mão, cinza, como foram todos aqueles primeiros dias. Meu casaco de feltro combinava com o céu.

Tropecei duas vezes na escada de entrada com a pressa de entrar no vagão, depois de correr por mais de 200 metros de plataforma, em busca do lugar certo que estava reservado em meu ticket. Entrei e saí de vários vagões e a numeração não conferia com o número que me enviaram por e-mail.  Vi e revi o papel, mas não entendia onde ficava o vagão 234, assento 23a, corredor, da segunda classe, faixa azul.

Se perdesse o trem, não chegaria a tempo de pegar o avião de volta para o Brasil – era meu vigésimo dia, em uma maratona por algumas cidades alemãs.  Fiquei hospedado em Bonn, na casa de amigos, e de lá saí para Berlim. Na agenda, rabiscos, o encantamento com os grafites de Kreuzberg, o tom acinzentado do que restou do muro, uma estrela da DDR, comprada no Checkpoint Charlie, e um quepe do uniforme alemão da era soviética. Sempre tive o hábito de comprar pequenas lembranças dos lugares que visito. Até um guardanapo rabiscado serve. São fragmentos que me fazem lembrar dos dias que passei, as amizades que fiz e as aventuras que vivi.  O bilhete daquela viagem seria incorporado também.

A corrida na plataforma me fez perder o ar.

Já estava cansado de procurar e resolvi deixar que a polícia ferroviária ou algum responsável pelo controle da passagem me apontasse o vagão correto. Pelo menos achei que alguém faria por mim, mas meu precário alemão não colaborou…eins..zwei..não conseguia.

Que alivio! um funcionário da estação. Sorria! Ele permaneceu sério e sem paciência.

O agente no vagão olhou com desprezo para meu ticket, respirou fundo com cansaço e carimbou. Me devolveu sem comentar. Tentei perguntar se estava no lugar certo e ele resmungou algo que entendi como “tanto faz”, ou “dane-se”.  Era um trem polonês disse ele, uma bagunça.

Como o sistema do trem era do “tanto faz”, tinha gente ocupando dois assentos, no meio do caminho, malas por todos os lados. Era a versão popular do expresso do oriente nos anos 40, sem nenhum charme. Os passageiros não se entreolhavam, suas mãos e olhos estavam ocupados com laptops e celulares. Rostos brancos observavam filmes e fotos. O reflexo azul da tela iluminava seus rostos. Alguns riam e sorriam – alto.  Eu só queria dormir.

O trem lentamente deixou a plataforma. Vi pela ampla janela Berlim desaparecer na escuridão. Lá dentro do vagão, nada da luz ir embora. Parecia uma farmácia de tão claro.  Meu vizinho de poltrona começou a roncar como um porco no matadouro. Olhava para os outros passageiros esperando alguma cara de reprovação e descontentamento com o ronco, mas parece que estavam todos esperando por coisas até piores naquela viagem.

O que será que os alemães querem dizer com “O trem é Polónês”?  E o que significa segunda classe em um trem popular, de passagem barata, de madrugada?  Era uma espécie de Greyhound nos trilhos – comparado aos famosos ônibus interestaduais norte-americanos, conhecidos pela clientela de classe média baixa.  Eu, filho de ferroviário da Central do Brasil, parecia entender tudo, sem surpresas. Pelo menos no “Deodoro” tem alguém sempre vendendo picolé e garrafinhas de água mineral. Ah, que saudades do trem chegando a Central, eu correndo para comprar um pastel e beber um guaraná.

Voltando ao expresso polonês…

Lá pelas duas da manhã, depois de mudar de posição dezena de vezes, resolvi deixar de lutar contra a luz forte e experimentar os famosos vagões-restaurantes que tanto havia visto nos filmes de Agatha Christie. Esperava por poltronas de couro, candelabros e garçons sorridentes? Não. Mas esperava por água.

Sempre vi em filmes: os passageiros saem de suas confortáveis poltronas e vão desfrutar de um amplo restaurante, charmoso. Lá fora as árvores e postes voam pela janela, em alta velocidade.

Mas naquele expresso de Varsóvia, que vinha de Praga, não havia nada.  Apenas uma sucessão de vagões lotados, com muita gente comendo sanduíches e bebidas em garrafas térmicas.

Percorri pelo menos dez vagões em busca de algo para beber. minha garganta seca mal conseguia perguntar a algum outro passageiro. Tentei e me respondiam em tcheco. Nem rezando para o Menino Jesus de Praga eu acho que conseguiria sobreviver a mais alguma hora sem acesso a uma fonte de água.

Uma senhora gordinha tirou da sacola plástica um pão seco com salame e uma garrafa térmica: mau sinal, pensei. Esse trem não tem nenhum lugar para vender comida ou bebida.

Eu, sedento, vagava pelo corredor polonês, naquele labirinto sob trilhos, sem poder sair. As três da manhã, já quase sem vida, senti o trem parar em uma plataforma. Estávamos em alguma cidadezinha alemã, daquelas onde todos se conhecem e meus olhos brilharam quando vi uma máquina de refrigerante na plataforma. Deixei minhas malas em um cantinho e fui com algumas moedas tentar molhar minha garganta. Alguns passageiros desceram para fumar e achei que não teria nenhum risco deixar o trem para ir lá fora tentar comprar algo.

Um senhor na porta do vagão me disse algo em polonês.

Achei que deveria ser “pode ir lá que eu seguro a porta”, mas também poderia ser “não saia porque o trem dispara assim que você botar o pé fora”. Pensei bem e resolvi ficar ali na porta, imóvel, hipnotizado, olhando a máquina na plataforma, sem coragem de sair, observando o equipamento como um cão faminto olha para uma máquina de assar frangos, em uma padaria. Fiquei olhando, em silêncio, a máquina. A garrafa de água parecia me chamar, mas não consegui evitar o medo..se eu saio e perco o trem? Como faço sem minhas malas, dinheiro e passaporte, o que farei da minha vida, em uma madrugada a três graus, em uma estação de trem na Europa oriental?  Resisti.

Fui desesperado ao banheiro, onde colocaria minha boca na torneira e beberia litros da água destinada a lavar as mãos. Ao lado da torneira havia um sinal de proibido beber água e concluí…sim eles devem reaproveitar água. Naquela altura, já não estava mais me preocupando com nada, só queria chegar ao aeroporto.

Finalmente uma grande cidade se aproximava, era manhã, até que enfim, pensei, cheguei a Frankfurt! Na janela, pequena e congelada, passou lentamente uma placa “Witamy W Warszawie” – Olhei para os lados. Era Bem vindo a Varsóvia.

Peguei o trem na direção contrária.

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