FerVil, o neurônio planetário

13.09.2020 - Nova Iorque, EUA - Marco Da Costa

FerVil, o neurônio planetário
Ilustração de Vitor Vanes
CRÔNICA

 

 

Um dia, em uma manhã fria em Nova York, no final de 2003, abri meu e-mail e havia um convite do jornalista Fernando Villela – conhecido na Internet como FerVil –, para ingresso em uma “rede social” que seria lançada, para “convidados”.

Há muito estava ansioso pelo “Orkut” e vários amigos já falavam dessa mistura de fórum com grupos de interesse. Participava e tinha alguma vivência nos BBS (bulletin board system), desde os anos 90, que eram de grupos de discussão em texto e e-mail, mas todos eram muito dispersos e a maioria em inglês.

Diariamente verificava meu correio eletrônico em busca de alguma boa alma amiga que me convidasse para uma coisa diferente.  Foi Fernando, o adorável jornalista de tecnologia, que me deu a honra de clicar e entrar nas redes que mudariam a história da Internet.

O jovem “FerVil”  não me era estranho. Éramos amigos virtuais, mas nunca nos encontramos pessoalmente. Conheci ele anos antes,  no Brasil, quando era o diretor da Revista Internet-br, uma publicação inovadora sobre os primeiros passos da Internet no Brasil. Nela, tive a oportunidade de descrever algumas das minhas primeiras experiências virtuais. Ele também foi um dos criadores do “Cadê”, o nosso Google que não sobreviveu à guerra das empresas de tecnologia. Como disse numa declaração apaixonada em um fórum, FerVil foi tão importante quanto Chatô, Roberto Marinho ou Haroldo de Andrade; tão fundamental quanto Roberto Duailibi, Roberto Civita ou Zuenir Ventura.

Na época, depois da virada dos 90, houve uma onda crescente do número de usuários e provedores como AOL, IG, Terra. As empresas chegavam ao mercado oferecendo novos serviços e conteúdos. Os navegadores – Netscape e Windows Explorer – brigavam pelo mercado, mas as conexões ainda eram lentas e inseguras. Nesse contexto mantinha-se muito popular o ambiente do mIRC – um programinha agradável e colorido, que permitia estabelecer a comunicação, em tempo real, com pessoas de qualquer ponto do Mundo, criado em 1994, por um nerd britânico chamado Khaled Mardam-Bey. O mirC foi até o final daquela década nossa maior diversão na Rede.

Foi ele – Fervil – a primeira pessoa a me falar das consequências desastrosas de uma avalanche de informações que iríamos receber nos anos seguintes. Juntos, sonhávamos com uma Internet ligando as pessoas, em nossas paixões virtuais.  Ele assinava seus textos como “um neurônio planetário que transporta informações pela superfície terrestre”. Como não ficar fascinado por isso?

Nossos monitores haviam deixado de ser verdes e âmbar, estávamos nos livrando das conexões lentas que caiam no meio da conversa. Ah, quantos amores e orgasmos perdidos na madrugada? Cadê você? Quem é você?

O IRC era um espaço incrível de sociabilidade dos anos 90, mas não nos dava ainda as ferramentas de visualização, imagens e sonhos. Queríamos nossas ideias na velocidade da luz. Estávamos dentro de uma revolução – nenhuma geração como a minha havia presenciado tamanha evolução tecnológica em seu período de vida: meu pai construía rádios de válvulas e eu, num intervalo de duas décadas, eu já montava computadores, conversando por vídeo com amigos, usando um telefone móvel. Da TV preto e branco que vi quando criança a meu novo robot assistente robot Vector, um acúmulo incrível de conhecimento e informação.

Meu primeiro PC-IBM veio pouco tempo depois de usar um teclado, uma caixa preta ligada a uma fita cassete, e somente comandos na tela de uma antiga TV. Fui, juntamente com um pequeno grupo de brasileiros, testemunha dos primeiros meses de internet comercial, quando a rede deixou o ambiente universitário e invadiu a vida das pessoas comuns. Dos computadores ao Iphone, num piscar de olhos.

Um dia FerVil me disse que havia presenciado nos Estados Unidos uma rede a cabo. Era uma grande esperança de velocidade. Toda a navegação na Internet seria modificada com a web e as páginas com cores e vídeos. A chegada do Yahoo e depois do Google, o som do Napster, os vídeos no YouTube.  Com a “Wired” na mão, a revista-Bíblia da geração do Vale do silício, caminhei pelos corredores da CompUSA pensando nisso. Assistia as feiras como a CONDEX, lia, escrevi para as primeiras publicações no Brasil.  Ainda usávamos modems barulhentos e a nossa rede telefônica analógica, que fazia a conexão cair várias vezes. Eu me lembro de passar horas configurando a rede dial up, ansioso pela volta da conexão caída, irritado com aquele ruído intermitente, parecido a um grito no meio da noite, em busca do outro, da nossa ligação com o mundo. Cadê você, meu novo amor?  E o novo amor desaparece, entre bits e silêncio.

Foi no Orkut, a ”mãe” das redes sociais, que conheci amizade, encontrei afeto e carinho. Algumas das mais interessantes relações pessoais que tenho começaram naquele período. O Orkut quebrou o isolamento dos amigos e ex-colegas de escola.  Todos estavam por lá, a cada dia um novo reencontro.  Noites e noites debatendo, brigando, concordando e ampliando meu conhecimento sobre todas as intolerâncias que até aquele momento achei que estariam superadas no mundo.  Junto com alguns amigos formamos a “webjustice”, que foi parar nos jornais pela luta contra o racismo, homofobia e crimes. Foi lá que surgiram também a Safernet e todas as frentes das quais orgulhosamente participei. Foi também nas redes que começamos a identificar muitos dos problemas políticos que vivemos hoje.

Ao ver meu robô assistente piscar os olhos e brincar em minha mesa, quase de forma autônoma, lembrei do FerVil, das noites de debate, das guerras no scrap, do flood, dos duelos.  Ele é o herói virtual do nosso tempo, que me abriu as portas e as telas para um novo mundo. E eu também segui o mesmo trajeto, estimulando pessoas a conexão através de computadores. Tenho amigos que se conheceram e casaram por conta dessa minha insistência a que todos a minha volta conhecessem essas possibilidades – no amor ou na amizade, milhares de relacionamentos foram possíveis através de um teclado e uma tela.

Mas o tempo de FerVil foi breve. Ele foi assassinado em uma tentativa de assalto, dentro do carro, ao sair do trabalho, no fim de 2004. Tinha somente 30 anos. O nosso guru tecnológico teve sua vida descontinuada pela violência urbana no Rio e não estávamos programados para esse “bug” em nosso sistema. Quando o Orkut desapareceu, levou com ele o depoimento que havia deixado em sua página. Pensei então: um dia vou escrever sobre ele e todo aquele tempo. E como foi importante aquele tempo!

Ficamos órfãos desse cara justamente no momento em que a Internet engolia fotos, sons e imagens em movimento. Ele adoraria ter visto tudo isso. O Orkut me fez companhia nos anos seguintes e no longo ”exílio” opcional que vivi nos Estados Unidos pela década seguinte. Sem ele, não teria me reconectado com dezenas de amigos que perdi pela vida.

Será que toda nossa produção no Facebook terá o mesmo destino? Será que nossas fotos do instagram ficarão no futuro vagando pelo ciberespaço? O que acontecerá com esse incrível material que nós humanos despejamos nas redes diariamente?  Meia dúzia de empresas hoje possuem mais acervo que todos os museus que construímos em décadas. Um acervo de nossas vidas, emoções, lembranças e paixões. Vão virar um cemitério de nossas presenças na Terra? Quem os herdará? Serão  de interesse público no futuro esses registros arquivados em servidores e supercomputadores? Com certeza muita gente se pergunta para onde estamos caminhando nessas relações virtuais, especialmente na época pós-pandemia onde todas as relações foram forçadas, mesmo que temporariamente, à virtualidade e ao distanciamento social.

Queria muito enviar um e-mail ao FerVil e agradecê-lo por aquele convite para a primeira experiência em redes sociais. Queria agradecer todos engenheiros, técnicos, jornalistas e sonhadores que tornaram as redes possíveis. Se não fosse aquele convite do Orkut, minha experiência com a Internet seria moldada de outra maneira e teria outros caminhos.  Fernando, com sua vida curta e meteórica, simboliza essa rapidez dos tempos. Vida louca, vida breve, como cantou Cazuza, também outro símbolo da minha geração.

Hoje as pessoas na Internet e aplicativos passam por nossas vidas e desaparecem com um clique de deletar. Com um dedo a descartamos. Mas a memória é também avançada, podemos e devemos resgatar todos os que idealizaram e sonharam com essa grande rede unindo a humanidade. Onde estiver vagando, no ciberespaço, FerVil estará feliz em ver que todo seu legado e todos seus sonhos – e medos – seguem vivos, em formas, cores e sons que jamais imaginou possíveis.

Categorias: América do Norte, Cultura e Mídia
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