Dead or a Live

13.09.2020 - Rio de Janeiro, Brasil - Clementino Junior

Dead or a Live
Graffti e foto de Marcelo Ment, na Praça Nelson Mandela, Botafogo, Rio de Janeiro/RJ
OLHARES

 

 

“Na era da informação, a invisibilidade é equivalente à morte.”
Zygmunt Bauman

 

Será que entre o visível e o invisível, existe um caminho do meio? Seria a pouca visibilidade um exemplo de desigualdade maior que a invisibilidade?

O ambiente virtual traz um contra senso entre o que se lê e o que se vê, o que se vê e o que se lê, o que se fala e o que se ouve, ou não. Uma velocidade de informação que deixa escapar de nossa percepção o mais importante.

A velocidade do luto de 24 horas, que promove a desfragmentação da memória, se dá no compartilhamento de posts de óbito de quatro anos atrás como se fossem de hoje e, no ato de apoiar e compartilhar posts de quem antes se opunha, pelo simples fato de hoje ele te atender — ontem não e amanhã tão pouco.

Me “caiu a ficha” (se você não conhece esse termo, é por ter nascido após o “bug do milênio”, joga no browser) ao ver uma operadora de telefonia celular, xará do live, oferecendo pacotes de instalação domiciliar de fibra ótica, numa mesinha na esquina do supermercado do bairro, por dois dígitos de valore e em período de isolamento social. Percebi que todos nos torna(re)mos consumidores e produtores de conteúdo para ambientes fechados como as redes sociais e grupos privados que frequentamos nas telinhas virtuais. O “Dome Office” que falei em outro texto não é só o santuário do Dom e o espaço de exceção da doméstica, é um pequeno estúdio de TV, com serviço de telemarketing por lista de transmissão, plateia de Faustão, e filial do Ibope. Um dia repercutindo a operação do B.O.P.E., no outro a ameaça de golpe.

O respiro para quem teme perder o ar que respira com o “inimigo invisível” tem sido as lives. Personalidades populares, em especial das artes e da cultura como um todo, na ausência de palcos e espaços presenciais, trazem para a tela pequena um recorte do que fazem de melhor, seja para manter suas imagens no imaginário de seus fãs, ou para manter seus rendimentos em shows e performances patrocinadas com tantas logos nos cantos de tela que parece entrevista de técnico de futebol após o jogo.

As lives tem revelado facetas e versatilidade de alguns artistas até então pouco visíveis e que aumentaram seu número de seguidores em redes sociais populares, assim como expôs a fragilidade de tantos outros que fazem aparições pontuais e bem pagas, pois não conseguem se apresentar sem uma “infraestrutura” que lhes dá a qualidade aos olhos do público para um maior número de apresentações. Esta frequência de publicações de lives, sejam shows, talk-shows, papos abertos aos olhares do público, e até o fetiche do público nas celebridades em momento fitness tem que ser constante, pois no funil destas redes, onde todos estão em casa se comunicando por duas ou três redes simultâneas, a dispersão ocorre num instante.

Viver é a tradução literal do verbo to live, em inglês, e, ao mesmo tempo, é o “apelido” da live (de “ao vivo”), que nada mais é do que se apresentar de forma presencial, ou no ambiente virtual, em tempo real. Uma prova de vida digitalizada.

Um fenômeno mexeu com as redes recentemente: as mobilizações em função do retorno forte da hashtag #blacklivesmatter, ou “vidas pretas importam”, em tradução livre. A popularidade na rede tem muito a ver com qual posição você toma em relação ao que te traz visibilidade ou não. Sem caminho do meio. Ainda mais em assuntos tabus na sociedade em si. A necessidade de se ampliar o debate sobre o racismo em um espaço onde o público lota de seguidores artistas brancos populares, que não tratam habitualmente deste assunto, teve um capítulo importante. Algumas dessas personalidades, com milhões ou centenas de milhares de seguidores, conhecedores da urgência do debate e sabedores de que não estão no lugar de fala, cederam seus perfis para que personalidades pretas que dominam a pauta racial em vários campos, mas que mal chegam a 1/10 do número de seguidores delas, assumam por dias ou semanas seus perfis para ensinar o público a ser antirracista, ou, simplesmente, apresentar outros olhares sobre a população preta que não vem sendo percebida pelo racismo estrutural.

Em contraponto com essas conquistas, recebo de uma amiga, Luna, um vídeo que ela produziu em uma comunidade (assista no final do texto), entrevistando à distância moradores jovens e idosos, pretos, que não tem perfis em redes sociais e não sabem como funcionam, ou sequer tem celular ou pacote de internet. Quando perguntados sobre personagens pretas da história, uma ainda confirmou ouvir falar sobre Mandela e disse: “ele lutou por nós… nos Estados Unidos né?”.

Em um momento no qual o Covid-19 e o racismo são debatidos amplamente por quem tem visibilidade, o público mais necessitado desta informação permanece invisível, por não ter acesso nem ao direito de escolha de qual informação vai acessar.

No mundo virtual, concordando com Bauman, quem não está na live, está dead, “morto”, aos olhos da sociedade, que expressa uma imaginada cidadania por ter acesso a internet, quando a luta principal ainda é por necessidades básicas, como alimentação, água, higiene, ou seja, o mínimo de dignidade para fazer suas escolhas na vida.

Há uma mobilização social para ajudar a muitas dessas pessoas, e as lives tem contribuído para isso, mas o próprio isolamento social é um complicador e um risco para quem ajuda. Para quem precisa da ajuda, o isolamento é inexistente, pois o boca-a-boca de quem tem acesso à internet nem sempre passa informações de quem se importa com estes, que permanecem com seu cotidiano inalterado.

Onde o Estado nunca esteve presente, o vírus é só mais um miliciano cobrando sua taxa de quem nada têm. E, nesses espaços, estar vivo não se mede em seguidores, pois os dias seguem um atrás do outro e cada dia é agradecido.

Aplausos para os que fazem diferença com sua visibilidade, buscando que a sociedade tire da invisibilidade quem muito faz e nada tem, para que a cidadania não esteja nas mãos das operadoras de telefonia, de concessionárias de serviços básicos, e de um estado omisso na saúde pública.


Esse texto contou com a revisão crítica de Tayna Arruda e com o vídeo do CineClube Tia Nilda. Assista a seguir.

Categorias: Ámérica do Sul, Cultura e Mídia, Opinião
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