A política como arte do impossível

15.07.2019 - Outras Palavras

A política como arte do impossível
(Crédito da Imagem: Por Nuno Ramos de Almeida | Imagem: William Etty, “Prometeu” (1820))

Em sua última prisão, o revolucionário Louis Blanqui manteve as esperanças de novas formas de sociedade — mas remeteu-as ao infinito. Há uma estranha relação entre o fracasso diante do destino e a liberdade humana

Blanqui esteve preso 37 anos. Na sua última prisão, nas vésperas da Comuna de Paris, escreveu um enigmático texto chamado “A Eternidade Conforme os Astros”. Páginas esquecidas que o malogrado pensador Walter Benjamin comparava a Baudelaire. Nelas, o homem das muitas conspirações dos iguais remetia para um universo frio e infinito as possibilidades de novas formas de vida e sociedade que triunfassem onde a humanidade tinha tropeçado. “Saberão por certo que o céu obedece às leis da igualdade, e encontra em si mesmo os recursos para escapar à morte. Mas saberão que esse combate da vida contra a morte é um drama que não tem nem começo nem fim, que obriga os que o tomam como modelo a travar um combate indefinidamente repetido, e certo apenas quanto a uma coisa: que nenhum final feliz se encontra no fim do caminho”.

Vendem-nos muitas vezes que a política é a arte do possível. E que qualquer acordo medíocre é melhor que uma divergência de princípios. É desta massa que é feita a atual Europa, em que se promete aos eleitores votarem nos candidatos a presidente da Comissão Europeia, mas no fim, o Conselho Europeu resolve mandar fechar esse circo de ilusões e vender os lugares de poder à melhor licitação negocial.

Num livro de Slavoj Zizek, A Europa à Deriva, encontram-se duas citações da obra de Oscar Wilde, “A Alma do Homem e o Socialismo”: “É muito mais fácil ter-se simpatia para com o sofrimento do que ter-se simpatia para com o pensamento”, acrescentando-lhe uma outra passagem de Wilde em que este defende que o simples horror ao sofrimento e a caridade em relação à pobreza não fazem mais que prolongar as suas causas e aliviar a consciência dos responsáveis por essa situação. “Tentam, por exemplo, resolver o problema da pobreza mantendo os pobres vivos; ou, no caso de uma escola muito avançada, divertindo-os. Mas isso não é uma solução: é um agravamento da dificuldade. O objetivo adequado é tentar reconstruir a sociedade sobre uma base em que tal pobreza venha a ser impossível. E as virtudes altruístas têm, sem dúvida, impedido a realização de tal desígnio”, conclui o autor de “A Importância de ser Ernesto”.

O drama é que populismos e fundamentalismos têm existido por bom motivos mas com más respostas. Como escrevia William Butler Yeats no “Segundo Advento”, “Aos melhores falta convicção, e aos piores / sobeja apaixonada intensidade”. Na sua célebre “Décima Carta”, o filósofo alemão Schelling dizia que a tragédia grega “honra a liberdade humana porquanto consente que os seus heróis combatam contra o poder desmedidamente superior do destino”, e concluía dizendo que “as impossibilidades e limites da arte” exigem a derrota do homem nesse combate. Mas essa derrota afirmaria em si a liberdade humana e as razões de uma revolta.

Categorias: Opinião, Política
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