Por que deixamos de pensar diante de fake news?

24.04.2018 - Redação São Paulo

Por que deixamos de pensar diante de fake news?

por Diego Chaves

Por estes dias vários sites que vivem de boatos difundiram que uma senadora do PT deu entrevista para o grupo terrorista “Al Jazira”.

E, pior, um monte de gente começou a espalhar isso sem se dar conta que “Al Jazira” longe de ser grupo terrorista é a “CNN” dos países árabes!

Comecei a me lembrar de algo ocorrido anos atrás, quando outro destes sites, o MBL, soltou um vídeo com o título “jovem de 19 anos detona Jean Wyllys”.

Um dos argumentos lacradores do Kim Kataguri, o tal jovem, era que o Jean Wyllys era contraditório pois apoiou um projeto de lei que inclui o islamismo no currículo das escolas brasileiras, o mesmo islamismo que apedreja mulheres, que mata homossexuais, etc …

Vários conhecidos religiosos gostaram tanto do vídeo que passaram a compartilhá-lo em diversas redes sociais, sem se importar que os argumentos eram em sua maioria falácias e distorções …

Fiz piada parafraseando o moleque do MBL só que trocando islamismo por “religiosidade”.

E ironicamente, quem estava aplaudindo a inteligência do Kim Katagury foi bem ágil para perceber como é absurdo generalizar o comportamento de alguns indivíduos para todos os religiosos.

Fui bloqueado, mas provei o meu ponto.

Aplaudir uma fala imbecil ou compartilhar uma fake news super absurda não implica que a pessoa não saiba pensar, pois quando lhes convém as pessoas sabem desmascarar uma farsa!

Só que por algum motivo o pensamento volta para a gaveta no resto do tempo.

Como Patch Adams disse uma vez, pensamento se tornou algo tão raro que quando ele ocorre chamamos de “pensamento crítico”.

Talvez seja o excesso de informação que nos leva a ficar mais seletivo com o que vamos pensar;

Ou talvez estejamos acostumados com informações ultra mastigadas, embaladas em manchetes chamativas e cobertas com opiniões pré-fabricadas.

Seja qual for o motivo estamos nos habituando a consumir informação sem processá-las.

Mas de alguma maneira, há momentos em que reagimos a estas informações, seja “pensando criticamente”, seja tendo uma reação emotiva de indignação. E fico me perguntando o porquê disso acontecer?

Sobre o pensamento, talvez tenha a ver com “respeito”.

Respeito vem do latim “olhar outra vez”. Ou seja, respeitamos aquilo que já vimos antes e que de alguma forma nos chamou a atenção de maneira positiva.

Logo, respeito implica conhecer previamente o assunto e além disso, considerá-lo bom.

E de certa maneira, este olhar outra vez permite o pensamento.

Na maioria das notícias deixa-se o cérebro no automático, porém, quando algo que respeitamos é citado de maneira negativa, iremos reagir, olhando duas vezes para aquilo e teremos a chance de refletir sobre o assunto.

Isso explica o porquê do sujeito religioso usar o cérebro quando a religião é atacada…

Mas não explica por qual motivo o cara ajuda a propagar os boatos quando um ativista gay ou uma outra religião é atacada.

E talvez isso tenha a ver com “despeito”. Algo que já vi, me ofendeu ou decepcionou e não sinto que mereça um segundo olhar.

Neste caso, ao ouvir uma notícia ruim sobre o desafeto, deixa-se levar por informações prévias.

E como superar isso no dia a dia?

Lá atrás imaginávamos a internet como a grande possibilitadora de encontros entre pessoas de culturas diferentes, porém, como temos visto, ela também favoreceu o surgimento do MBL e de outros grupos que ganham ao promover a desinformação e o ódio.

Ou seja, não basta ter acesso ao recurso informacional, é necessário tentar viver o princípio ético do “trate aos outros como gostaria de ser tratado” para assim conseguirmos equilibrar um pouco nosso medo daquilo que é diferente.

Lembro de uma vez em que levei uma visitante de Joinville para passear pela Rua Augusta, aqui em São Paulo.

Ela tinha vindo fazer um curso de culinária e em certo momento me comentou horrorizada que haviam colegas de turma seus que eram gays e não disfarçavam sua homossexualidade.

Eu fiquei atônito e ainda me senti na obrigação de explicar a ela algo que nunca tinha me passado pela cabeça: Uma cidade cosmopolita como São Paulo nos expõe a tanta diversidade que com o passar do tempo a gente acostuma com pessoas que antes eram vistas como muito diferentes.

De novo, assim como a internet, a convivência sozinha também não faz milagre, sem a ética a convivência só torna o “despeito” mais sutil.

Ainda sim, para quem preza pela ética, ter oportunidades de conhecer o outro pode diminuir o medo e o “despeito” e consequentemente ajudar a gerar mais pensamento.

Afinal, se o pensamento passa pelo respeito e o respeito passa pelo conhecimento, precisamos conhecer o próximo, nos abrir para o que ele tem de bom, para assim podermos respeitá-lo e pensar sobre ele quando uma notícia falsa for espalhada.

por Diego Chaves

Categorias: Ámérica do Sul, Não violência, Opinião, Política

Boletim diário

Indique o seu e-mail para subscrever o nosso serviço diário de notícias.


Milagro Sala

Canale youtube

International Campaign to Abolish Nuclear Weapons

International Campaign to Abolish Nuclear Weapons

Arquivo

Except where otherwise note, content on this site is licensed under a Creative Commons Attribution 4.0 International license.