Tradução do Eduardo Vasco

Transgredidas é um dos livros que mais me custaram escrever, me doeu, chorei e o senti em carne viva, porque são relatos de testemunhos e histórias de crianças, adolescentes e mulheres que sofreram abuso sexual, seja no caminho de imigração aos Estados Unidos ou vítimas de maus-tratos de pessoas com finalidade de explorá-las sexualmente.
 
Abusadas por familiares e desconhecidos, não por sua origem, não por sua classe social, mas por serem mulheres em uma sociedade que desrespeita e desvaloriza a mulher por seu gênero, em uma sociedade que mutila e seca, estas são histórias ocorridas em diferentes partes do mundo porque o abuso contra o gênero feminino não tem idade, cor, religião nem nacionalidade.
 
Tudo começou em novembro de 2012, com um texto entitulado “Transgredida”, ao qual se seguiram outros na medida em que fui obtendo testemunhos para publicar na série “Transgredidas” do meu blog Crónicas de una Inquilina. Esta série se transformou em livro. São testemunhos de mulheres marcadas pelo resto da vida pelo abuso, os golpes, mulheres violentadas em seus direitos, meninas a quem lhes roubaram a infância.
 
Não é um livro doce nem chega à perfeição da ficção, é um livro nu e cru como a realidade que tiveram que viver suas protagonistas e milhares de mulheres através do tempo e da história.
 
A violência de gênero não é um assunto de ficção nem de literatura, é um problema real que está nos matando, nos invisibiliza e nos estigmatiza. Todas sofremos violência de gênero em alguma de suas tantas formas, os relatos escritos em Transgredidas mostram os extremos do que é capaz de fazer uma sociedade patriarcal e machista na vida de meninas, adolescentes e mulheres no marco de um sistema sociopolítico que nos trata como mercadoria.
 
As histórias incluídas neste livro são reais, embora os nomes das protagonistas tenham sido mudados assim como algumas localidades territoriais, para proteger suas identidades e segurança. O fundamental deste livro é contar as histórias de abuso sofrido por mulheres anônimas, tão anônimas como qualquer um em qualquer lugar do mundo. São histórias que ocorrem todos os dias, em todos os lados, a toda a hora.
 
Histórias que na maioria dos casos levamos para a cova, porque contá-las significa perder familiares, colocá-los em risco, colocar em risco nossas próprias vidas. Também em uma sociedade estereotipada ficamos em silêncio por temer ser apontadas pela família, amigos e sociedade. Porque ser abusadas nos marca e a mais sociedade nos aponta e nos exclui.
 
O abuso emocional, físico e sexual nos mutila em muitas formas, nos rouba a vida pela raíz, nos seca por dentro, nos invisibiliza. Transgredidas são as vozes de milhares de mulheres que têm sido silenciadas através do tempo.