“Não é coisa da sua cabeça, é racismo.”

04.04.2017 - São Paulo, Brasil - Redação São Paulo

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“Não é coisa da sua cabeça, é racismo.”
(Crédito da Imagem: Cultura de Red)

Por Viviana Santiago | Palavra de Preta.

  • “Toda vez que eu entro, eu tenho a impressão que elas seguram a bolsa com mais força.
  • Quando eu estou na academia, parece que as pessoas não querem usar os equipamentos depois que eu termino de usar.
  • Comigo, parece que a exigência sempre é maior. Não importa o quanto eu me esforce, nunca é o bastante, sempre tenho eu fazer mais.
  • Fui jantar fora com meu filho e fiquei com a sensação que o meu pedido demorou mais do que o das outras pessoas e chegou um pouco frio.
  • Toda vez que eu tento apresentar uma nova idéia no trabalho as pessoas sempre dizem que não é bem assim”, mas depois quando outra pessoa repete tudo que eu disse a ideia é bem aceita.
  • Pode ser coisa da minha cabeça, mas eu sinto como se meu chefe tivesse a necessidade de me provar o tempo inteiro que eu estou errada, que eu não sei o que fazer.
  • O tempo todo eu fico com a impressão que as pessoas sempre são mais hostis comigo do que seriam se eu não fosse negra
  • Pode ser coisa da minha cabeça, mas….”

Mulheres e meninas negras ao longo de sua vida vão conviver com situações de violência em relações de afeto, trabalho, moradia, compra. O tempo inteiro serão retirado de um lugar de dignidade em processos sutis – ou não tão sutis- que são realizados de maneira recorrente e sem que gere incômodo nas outras pessoas não-negras presentes nessas relações, dessa maneira,  percebendo-se alvo de atitudes odiosas, persecutórias,  mas que parece que só são percebidas por elas mesmas, as meninas e mulheres negras começam a duvidar: Como poderia algo que lhes provoca tanta dor não ser percebido por outras pessoas? Então duvidarão de si mesmas, e iniciarão um processo de questionamento de suas habilidades, direitos, percepções,  culminando com o questionamento acerca de sua sanidade.

As declarações acima, seguramente já foram ouvidas ou pronunciadas por cada uma de nós mulheres negras, agora e quando fomos meninas, é a violência racista que estando capilarizada  por todos os espaços da vida em sociedade determina formas de tratamento e construção de expectativas sobre a vida, afetos, e competências das mulheres e meninas negras na sociedade. Dizendo e tentando empurrá-las para aquilo que o pensamento racista imagina que elas devem ser e ter.

Em restaurantes e lojas ou serão mal servidas ou tratadas com intimidade desrespeitosa , na academia durante a prática de atividades esportivas, serão seguidas por olhares maldosos, seus cabelos constantemente observados como se  quem os olha acreditasse que estão cheio de piolhos, seu suor aparentemente é visto como tóxico pois a recusa das pessoas em utilizarem os equipamentos depois de seu uso grita isso.

Na Universidade e no mundo do trabalho serão tuteladas, destituídas de sua voz, inferiorizadas e perseguidas, nenhum trabalho será o bastante, o tributo do negro será cobrado e o reconhecimento quase nunca chegará: o apagamento se constrói  o tempo inteiro- suas ideias serão atribuídas a outras pessoas sua autoria sempre negada;

Para as mulheres, de maneira geral, ser competentes, autônomas, críticas e inteligentes se torna um fardo, são características que a afastam do modelo de mulher insistentemente alardeado pela sociedade patriarcal, para as mulheres negras se torna um duplo fardo, uma vez que na percepção racista, o ser negra não é mais que ser a carne mais barata do açougue, o corpo  para o sexo, a faxina garantida, subverter essa noção é profundamente perturbador dessa ordem.

Esses são conteúdos da vida de todas as mulheres negras, mesmo daquelas que se aliando ao discurso liberal de faça-você-mesmo acreditam nunca os ter vivido (estão lá, talvez apenas tenha lhes faltado a capacidade de enxerga-los ou nomeá-los), e precisamos falar mais sobre cada um deles, para que diante desse assédio, dessa violência, nunca mais uma mulher negra duvide de si mesma, mas que tenha a certeza de que não é coisa da sua cabeça, é racismo

Precisamos entender que o nome disso é racismo e que essas microagressões produzem um impacto negativo poderoso sob a nossa saúde física e mental é dos mais profundos.

Mulheres negras precisam contar suas histórias, precisamos dar continuidade ao caminho trilhado pelas que vieram antes de nós, é preciso que nos cuidemos mais durante esses processos violentos, a violência fere nossos corpos, impacta negativamente a maneira como percebemos a nós mesmas e umas as outras e fere nossa saúde mental. Busquemos espaços seguro para conversar e processar essa experiência,  precisamos nos reconhecer nas histórias umas das outras para que possamos nos  fortalecer e enfrentar espaços, situações e pessoas racistas de frente. Deixando-ás perceber que nós não duvidamos de nós mesmas e sabemos sim, nomear o racismo em nossas vidas.

Categorias: Ámérica do Sul, Diversidade, Opinião
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