Uma crítica construtiva às ações climáticas do Break Free

31.05.2016 - Robert Burrowes

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Uma crítica construtiva às ações climáticas do Break Free

Human Wrongs Watch

By Robert J. Burrowes*

Tenho tirado bom proveito de ler casos e ver fotos dos dedicados e corajosos ativistas climáticos que participaram nas recentes ações da campanha “Break Free From Fossil Fuels”, que aconteceu em vários lugares de 13 países de 4 a 15 de maio de 2016. Veja “Break Free From Fossil Fuels”: https://breakfree2016.org/

Havia criatividade em muito do que foi feito (em alguns casos demonstrando uma considerável dose de estilo) e, na maior parte, o modo como foi feito refletia um entendimento sadio sobre os princípios e dinâmicas da não-violência aos quais praticamente todos os ativistas aderiram. Nesse sentido, devo reconhecer que os bem pensados “acordos de ação” assinados pelos ativistas participantes, a condução dos workshops educativos sobre não-violência, o contato com a polícia, instruções legais e apoio para prisões, e o conhecimento disseminado de que sigilo e sabotagem em nada ajudam a tornar os atos não-violentos mais estrategicamente eficazes.

Minha crítica construtiva está direcionada aos organizadores-chave que planejaram as ações não-violentas sem o entendimento de como fazer com que o compromisso e a coragem dos que se mobilizaram provoquem o maior impacto estratégico na catástrofe climática em andamento.

Entendo que é preciso um esforço fenomenal e uma tremenda quantidade de trabalho para organizar atos internacionais dessa natureza. É por este motivo que espero que os esforços futuros possam ser estrategicamente orientados para maximizar sua eficácia. Não é difícil fazer isso, contanto que se entenda a estratégia da não-violência. Assim, deixe-me esboçar alguns elementos-chave desta estratégia baseada na estrutura estratégica ilustrada no diagrama anexado da “roda da estratégia da não-violência”.

Todas as campanhas de ação não-violenta possuem um propósito político. No caso do movimento climático, pode-se enunciar simplesmente desta forma (embora outras expressões sejam possíveis): minimizar e, quando apropriado, deter todas atividades que adicionam dióxido de carbono, metano e óxido nitroso à atmosfera da Terra.

No entanto, o propósito político é alcançado somente ao cumprir dois objetivos de qualquer campanha: 1. Aumentar o apoio para sua campanha desenvolvendo uma rede de grupos que possam  colaborar,e 2. Alterar a vontade e comprometer o poder dos grupos que apoiam o problema.

Uma vez definido o propósito político, os dois objetivos estratégicos vão definir precisamente o que vale a pena fazer (e o que não vale a pena) para toda a campanha. Assim, enquanto cada atividade (como contato com sindicato importante ou outro aliado potencial) e cada ação não-violenta contribuir com um desses objetivos estratégicos, a campanha estará funcionando.

Isso pode ser entendido mais facilmente se você considerar uma simples ação não-violenta. Cada tática não-violenta tem um objetivo político e um alvo estratégico. Por exemplo, o objetivo político (‘o que se deseja’) de uma ação que foi realizada por muitos ativistas da Break Free foi, de fato, ‘bloquear a entrada de caminhão/trem/navio transportando carvão/petróleo em mina/porto de carvão ou refinaria de petróleo para impedir que complete sua coleta/entrega.’

No entanto, o (não enunciado) alvo estratégico (‘como conseguir o que se deseja’) dessa ação não-violenta é totalmente diferente. Por exemplo, algo como: “Mobilizar aqueles que se tornam conscientes de nossa ação para reduzir seu consumo de combustíveis fósseis (por exemplo, boicotando viagens de carro/avião e/ou tornando-se vegetariano/vegano).’ Ou talvez, ‘Mobilizar aqueles que se tornam conscientes de nossa ação a participarem na The Flame Tree Project to Save Life on Earth’ http://tinyurl.com/flametree (ou na estratégia de auto-confiança/resiliência conforme sua preferência).
Como se perceberá imediatamente, é provável que o fato de o objetivo político (deter veículo/embarcação) ser ou não atingido é estrategicamente irrelevante. É a conquista do alvo estratégico que é determinante. Para uma explicação dessa questão, ver ‘The Political Objective and Strategic Goal of Nonviolent Actions’. http://www.pressenza.com/2014/07/political-objective-strategic-goal-nonviolent-actions/

A questão, portanto, é esta. Como ativistas da não-violência, nossa tarefa não é simplesmente aumentar a conscientização emitindo enunciados como “’ Os Negócios usuais’ não podem continuar”, ‘A era dos combustíveis fósseis está chegando ao fim’ e ‘Mantenham os combustíveis fósseis no subsolo’. Nossa tarefa é levar adiante ações que inspirem as pessoas e organizações a se mobilizarem em resposta a nossas claras ‘mensagens de ação’ (que devem refletir o alvo estratégico de nossa ação não-violenta).

Essas ‘mensagens de ação’ devem transmitir a simples ideia de que uma coisa que qualquer indivíduo possa fazer pessoalmente fará uma diferença inequívoca; habitualmente, não    fará com que convençam outras pessoas (porque, no caso da catástrofe climática, isso não é necessário nem útil). Assim, mensagens simples como essa (expressas em banners, em lançamentos de notícias, em nossos websites e através das mídias sociais) podem ser ‘Ajude a salvar o clima tornando-se vegetariano’, ‘Salve o clima e nosso mundo boicotando carros e viagens aéreas’ e ‘Ajude a salvar o meio ambiente participando em The Flame Tree Project to Save Life on Earth’.

A pessoa comum que vê ou ouve falar sobre nossa ação não-violenta, pela mídia ou por outros meios, não necessariamente é bem informada sobre tais questões. Mas se nossa ação não-violenta as inspirou a agir, a simples mensagem que convida sua participação pessoal para fazer algo a seu alcance é a mais convincente. Em essência, nossa tarefa é inspirar as pessoas a mudar seu comportamento e, para tal,  oferecer opções que as empoderem e que sejam estrategicamente eficazes.

Além disso, ao planejar qualquer ação não-violenta, há muitos pontos a considerar, particularmente quando se espera repressão. Para uma explicação completa sobre isso, ver ‘Nonviolent Action: Minimizing the Risk of Violent Repression’. http://www.pressenza.com/2014/11/nonviolent-action-minimizing-risk-violent-repression/ Enquanto a maioria das ações climáticas, até agora, não  sofreram repressão significativa, isso mudará na medida em que o movimento se tornar estrategicamente eficaz. Com pelo menos dois ativistas ambientais assassinados no mundo a cada semana, pode-se argumentar que ativistas climáticos já estão vivendo em ‘tempo emprestado’. Ver ‘How Many More?’ https://www.globalwitness.org/en/campaigns/environmental-activists/how-many-more/

Você ainda pode estar se perguntado se todo esse planejamento estratégico é realmente necessário. Não podemos apenas aparecer e nos divertir? Ora, para o ativista mediano, isso pode ser verdade em geral. No entanto, para aqueles de nós que professam liderança no movimento, temos a responsabilidade de planejar e implementar estratégias que funcionem, caso contrário, não estamos mobilizando pessoal para um propósito útil. E ações que apenas almejam fazer lobby junto a governos para ‘manter o carvão, o petróleo e o gás no subsolo’ não serão bem sucedidas.

Nossos pedidos/lobby junto a governos serão insignificantes enquanto a demanda de mercado pela commodities de uma corporação disser a eles que carvão, petróleo e gás são necessários. E elites corporativas dirão aos governos  o que fazer, e não o contrário. Caso duvide disso, confira o texto revelado das negociações secretas de comércio (como a Trans-Pacific Partnership e a Transatlantic Trade and Investment Partnership) atualmente sendo impostas sobre nós, sem consulta ao público.

Se, ao invés de fazermos lobbies governamentais, nós reduzirmos a demanda do consumidor, as elites corporativas reduzirão sua produção/oferta. Se quiser assistir a um vídeo de uma campanha bem sucedida para retardar a destruição de florestas tropicais, baseado nesse princípio, você pode fazê-lo aqui: ‘Time to Act’. . https://vimeo.com/18207753 Como você já deve saber, muitas das campanhas de Gandhi foram bem sucedidas principalmente por ele ter focado na redução da demanda do consumidor e também na alteração de como era concebida, sendo exemplificado por seu próprio exemplo de minimizar seu consumo pessoal e costurar suas próprias roupas. Nós estamos anulando nossa responsabilidade como ativistas da não-violência se tivermos medo de dizer que o consumo (particularmente em países industrializados) deve ser reduzido.

Eu somente passei de leve por alguns pontos sobre estratégia neste artigo, como o diagrama anexado ilustra. O ponto sobre estratégia, contudo, é aplicar os princípios derivados da teoria estratégica. Se apenas pedirmos às elites, de um jeito ou de outro, que mudem seu comportamento, então elas não o farão. Nossa tarefa, como ativistas da não-violência, é alterar a vontade deles e convencê-los a mudar seu comportamento alterando as circunstâncias em que eles operam. Novamente: Se menos pessoas e organizações consumirem produtos (como carros e viagens aéreas, e carne) que destroem a atmosfera da Terra então, pode-se garantir, que as  corporações não as produzirão. Encorajar a demanda por renováveis é obviamente vantajoso embora não como um substituto completo.

Há uma explicação detalhada sobre estratégia não-violenta para os interessados em The Strategy of Nonviolent Defense: A Gandhian Approach http://www.sunypress.edu/p-2176-the-strategy-of-nonviolent-defe.aspx mas também ficarei contente com as pessoas que entrarem em contato comigo enquanto estou construindo um novo site sobre estratégias de não-violência.

robert-NVO texto dos círculos em sentido horário: Organização, Liderança, Comunicação, Preparações, Programa Construtivo, Prazo Estratégico, Táticas e Manutenção da Paz, Avaliação. No círculo centro: Estimação, Propósitos Políticos (e demandas), Objetivos Estratégicos (e alvos), Concepção da Não-Violência.

Além disso, se você se interessar na ampla luta para eliminar a violência de nosso mundo, você pode se juntar aos que assinaram a petição online ‘The People’s Charter to Create a Nonviolent World’. http://thepeoplesnonviolencecharter.wordpress.com

Sabendo sobre as ameaças nucleares e ambientais à existência humana, incluindo que a quantidade de dióxido de carbono ultrapassou a marca dos 400 ppm, fica claro que o ser humano
está numa curta trilha rumo à sua extinção.

Esse fato, combinado com a veloz redução do tempo para que ações eficazes  sejam realizadas  e a insanidade das elites resistindo em responder com inteligência a tais ameaças, torna imperativo que nossas respostas sejam focadas estrategicamente se desejarmos ser eficazes ao máximo.

Nosso futuro depende tanto de nossa estratégia como da nossa análise e comprometimento.

 
Biodata: Robert J. Burrowes tem um compromisso de vida com o entendimento e o fim da violência. Ele tem feito uma pesquisa extensiva desde 1966 num esforço de entender por que os seres humanos são violentos, e é ativista da não-violência desde 1981. Ele é autor de ‘Why Violence?’ http://tinyurl.com/whyviolence Seu e-mail é flametree@riseup.net e seu website está aqui. http://robertjburrowes.wordpress.com

 

Traduzido por Lucas Murai

Categorias: Ecologia e Meio Ambiente, Internacional, Não violência
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