A história do Dia da Consciência Negra no Brasil

21.11.2015 - Paulo Genovese

A história do Dia da Consciência Negra no Brasil
(Crédito da Imagem: Reprodução Twitter @TrabalhoGovBr)

A maioria da população brasileira é negra. De acordo com o melhor critério possível, da auto-definição, o último censo, que apresenta uma estranha classificação de pardo (que não é falada por ninguém) e também de negro, indicou que 54% da população de mais de 200 milhões de pessoas se colocou entre as duas opções. São os descendentes dos 11 milhões de escravos africanos forçados a cruzar o Atlântico em direção ao Brasil, dos quais sobreviveu somente a metade. São estes sobreviventes a maior parte da população.

A própria cultura brasileira, no passado ou nos dias atuais, só pode ser compreendida pela mistura das três matrizes: indígena, européia e africana. A mistura entre as pessoas de cada matriz foi tão intensa que hoje o Brasil é um dos países com maior diversidade de raças. Existe uma convivência impossível em outros países. No entanto, há muita discriminação e violência direcionada para quem é negro. Principalmente para os jovens que são mortos pela polícia numa escala tão alta que é comum se falar em genocídio da juventude negra.

Mas a luta contra a discriminação começou já mesmo na época da escravidão. Das muitas formas de luta, aqueles que conseguiam fugir e se agrupar, formaram os chamados quilombos. Símbolos da resistência que deram origem ao Dia da Consciência Negra. Leia a seguir o trecho da matéria de Hélio Menezes*:

“Em 20 de novembro de 1695, após anos de resistência contra as tentativas sucessivas de destruição do quilombo que então liderava, Zumbi foi capturado e assassinado. O governador da capitania de Pernambuco da época, Caetano de Melo e Castro, diante da morte do último líder do Quilombo dos Palmares (o maior dos muitos quilombos que se espalharam pelo Brasil desde o século XVI), escreveu a Pedro II, rei de Portugal: “Determinei que pusessem sua cabeça em um poste no lugar mais público desta praça, para satisfazer os ofendidos e justamente queixosos e atemorizar os negros que supersticiosamente julgavam Zumbi um imortal, para que entendessem que esta empresa acabava de todo com os Palmares.”

O recado estava dado: com efeito, a cabeça de Zumbi foi exposta em praça pública no Pátio do Carmo, em Recife, para servir de lição e “atemorizar” os demais negros que ousassem se rebelar contra a escravidão e as condições desumanas a que estavam submetidos. O objetivo dessa brutalidade (decapitação seguida de exposição pública) era, como disse o próprio governador em sua missiva, “satisfazer” aqueles que, “justamente”, se queixavam e ofendiam com a ideia de negros e negras se unindo para enfrentar e reverter uma sociedade escravocrata e racista.

Hoje, 320 anos depois da morte física de Zumbi, negras e negros reunidos para questionar as persistências do racismo e as consequências inacabadas da escravidão ainda, surpreendentemente, “ofendem” muita gente. A calorosa recepção (no pior sentido do termo) que as mulheres negras receberam de manifestantes pró-impeachment ao chegarem, em marcha, no Congresso Nacional anteontem, com direito a tiros e gás de pimenta, deixa dolorosamente clara a durabilidade histórica do medo que negros e negras causam ao se aquilombarem, se organizarem, enfim, ao existirem sem baixar a cabeça. (…)

E hoje, 20 anos depois da antológica primeira marcha comemorativa dos 300 anos da imortalidade de Zumbi, negras e negros vão às ruas para mostrar a cor de sua consciência. Para mostrar que, apesar de todo ‘não’, não nos atemorizamos. Para mostrar, enfim, ao governador da capitania de Pernambuco, séculos depois, que ele estava mesmo errado em sua carta dirigida ao rei, lá nos idos de 1695: que a resistência do povo negro, em prática mesmo antes de Zumbi, tampouco terminou com a sua morte.”

Trecho de matéria publicada no Portal Carta Maior – leia aqui a matéria completa

*Hélio Menezes é formado em Relações Internacionais (IRI-USP) e Ciências Sociais (FFLCH-USP), mestrando em Antropologia Social (PPGAS-USP) e pesquisador do Núcleo de Estudos dos Marcadores Sociais da Diferença (NUMAS-USP) e do Etno-História (USP)

Categorias: Ámérica do Sul, Direitos Humanos, Diversidade, Humanismo e Espiritualidade, Sem categoria
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