Leia a matéria de Marina Mattar, do OperaMundi publicada na Rede Brasil atual

Consumo médio de água de um israelense equivale ao de quatro palestinos

São Paulo – O consumo médio diário dos palestinos é cerca de 70 litros por pessoa, bem abaixo dos 100 litros recomendados pela Organização Mundial de Saúde (OMS) para cobrir as necessidades domésticas e dos serviços públicos. Em contrapartida, o consumo médio dos israelenses é de 300 litros por dia, cerca de quatro vezes a média palestina.

Os alarmantes dados foram apresentados no Fórum Social Mundial Palestina Livre (FSMPL) pela organização Al Haq e pela campanha Sede por Justiça. Eles pedem o cumprimento das leis internacionais contra a violação dos direitos humanos e pelo dever do ocupante de promover o bem-estar à população civil afetada.

“O controle dos recursos naturais é fundamental para a manutenção do apartheid na Palestina”, explica Shirin Abu Fannouneh, pesquisadora da Al Haq.  “Israel criou um cenário em que os palestinos têm grande dificuldade para sobreviver e por esta razão, muitas vezes abandonam suas terras. Mas, mesmo como potência ocupante, Israel tem o dever de assegurar as condições necessárias à sobrevivência para os civis prejudicados”.

O governo israelense controla todas as fontes de água potável na Cisjordânia e, segundo os Acordos de Oslo, deve permitir o acesso de pelo menos 20% para os palestinos. No entanto, dos aquíferos disponíveis no território palestino ocupado, Israel utiliza 73%, os palestinos 17% e os assentamentos judeus ilegais, 10%. Por conta da distribuição desigual, os palestinos da Cisjordânia têm de comprar pelo menos metade da água consumida da Mekorot, empresa estatal israelense que controla os recursos hídricos.

Esse cenário fica mais evidente quando se compara o consumo de água das duas populações: enquanto os três milhões de residentes da Cisjordânia utilizam apenas 83 metros cúbicos de água per capita anual, cada colono judeu consome cerca de 1,4 mil metros cúbicos de água por ano.

“Isso é muito visível quando andamos na Cisjordânia e pelos assentamentos construídos lá. De um lado, podemos ver uma paisagem árida e do outro, avistamos piscinas, fontes, abundância de água”, conta Fannouneh. “É absurdo!”, acrescenta ela que enfatiza o fato dos colonos terem se estabelecido ilegalmente no território designado aos palestinos.

Durante o verão, as autoridades israelenses racionam a distribuição de água para os palestinos, cortando, frequentemente, o fornecimento. Em contrapartida, os assentamentos têm acesso irrestrito ao recurso natural.

A situação é ainda pior nas comunidades rurais que vivem no Vale do Jordão que não são conectadas ao sistema hidráulico. Sem acesso a água corrente, essa população não tem outra opção se não comprar água da Mekorot. Neste local, a desproporção de consumo é ainda maior: os colonos israelenses tem consumo seis vezes maior do que os palestinos.

Gaza

Na Faixa de Gaza, os problemas encontrados em relação ao uso da água são diferentes e possuem relação direta com o bloqueio israelense ao território. O Aquífero Costeiro, do qual os residentes do território palestino dependem, está contaminado em 90% por conta do despejo de esgotos e se encontra em perigo de colapso. De 60 a 80 milhões de litros de esgoto não tratados ou tratados parcialmente desembocam no Mar Mediterrâneo e nas bacias existentes.

A situação poderia ser revertida com a reabilitação do aquífero e a reconstituição das redes sanitárias – muitas destruídas durante incursões militares de Israel no território –, mas os palestinos não têm a permissão de comprar ou receber materiais de construção como parte do bloqueio israelense. Apesar de a água disponível ser imprópria para o consumo, muitos palestinos não têm outra opção.